Donald Trump criou um novo regime de tarifas de importação que alcança países em todos os continentes e cobre 99% das importações dos Estados Unidos, segundo estimativas divulgadas pelas agências Reuters e AP. Com esse movimento, que repete sua compulsão por usar tarifas como arma de conquista, ele fecha a economia americana. Trump, se tivesse um jornal, talvez fizesse uma manchete como a da lenda que corre sobre o Times de Londres, que teria estampado “Neblina pesada no canal. Continente isolado”. O presidente escreveria “Mundo isolado. Cede ou perde o maior mercado”. O país que terá as tarifas mais pesadas é o Brasil. Como as justificativas não têm base real, é uma taxação política.


Provavelmente Marco Rubio, o secretário de Estado, teve influência nessa decisão. Ele tem a América Latina na mira. Seu alvo principal é Cuba e ele vê Lula como aliado da ilha caribenha. Foi Rubio que reativou a falsa ideia de perseguição aos Bolsonaro disseminada pelos filhos do ex-presidente e companheiros. Trump faz demandas inaceitáveis ao Brasil para negociar as novas tarifas que no nosso caso são cumulativas e incidem sobre setores que têm os EUA como principal destino de seus produtos.


O presidente americano não mede as consequências de seus atos, nem para a economia de seu país, nem na geopolítica global. A China respondeu imediatamente com declaração crítica pelo porta-voz do ministério de Relações Exteriores. No padrão de comportamento chinês, é um aceno para que Trump reveja sua decisão. Pode escalar até chegar a Xi Jinping e sua reação pode vir acompanhada de medidas retaliatórias. A União Europeia reagiu de pronto também, declarando seu descontentamento e rejeitando as razões de Trump. O Brasil já adota uma posição crítica há tempos e foi o primeiro a rejeitar explicitamente as acusações usadas para justificar as tarifas. Nessa última fornada seria a omissão dos países em coibir o uso de trabalho forçado.


Trump imagina que as tarifas trarão novas receitas para os Estados Unidos, forçarão a internalização das principais cadeias globais de suprimento e atrairão novos investimentos. Isso aconteceu, em parte, na primeira onda tarifária por ele promovida. Mas, o fechamento da economia cobrindo praticamente toda a produção para exportação pode resultar em perda de competitividade, preços mais altos, logo inflação, e a busca de novos parceiros pelos países mais afetados. A internalização de cadeias de suprimento é inviável exatamente porque a estrutura de custos de produção nos EUA gera encargos muito mais elevados que essas cadeias.


O efeito adverso nos outros países tende a erodir a confiança nos governos. O mesmo acontecerá com Trump, que já é reprovado pela maioria da população e provavelmente consolidará a vitória Democrata nas eleições de novembro próximo para a Câmara e o Senado. Com o governo dividido, marcado pela maioria de oposição ao presidente no Congresso, o jogo político será bem diferente. Trump ficará acuado, reagirá com violência e abusos que podem resultar no seu impeachment, se for condenado pelo Senado. Ele se enquadraria na hipótese de ‘high crimes and misdemeanors’, altos crimes e contravenções, que não são especificadas na Constituição e têm sido interpretadas como “graves abusos do poder do cargo”. Trump abusa geral dos poderes que tem e dos que não tem.


No Brasil, o tarifaço americano já está marcado na opinião pública como obra dos Bolsonaro. Flávio, o 01, feito candidato pelo “dedaço” do pai, deixa sua conexão evidente, ao atacar Lula usando ipsis litteris declarações de Marco Rubio sobre nosso presidente. O tarifaço tende, por isso, a bater mais forte na propensão ao voto no 01 pelos independentes e pelos que são antiLula, mas não são pró-Bolsonaro.


Toda elevação tarifária tem consequências conjunturais e estruturais. O simples retorno ao statu quo ante pode não restaurar o padrão de comércio global. Dependendo do tempo de duração do tarifaço e das reações a ele, o mercado global passará por mudanças estruturais irreversíveis. É sempre mais rápido demolir do que reconstruir e a reconstrução é sempre diferente de uma simples restauração.


Já se sabe que Trump avança o sinal, depois recua e finge que não cometeu infração alguma. O peso global da economia americana e seu poderio militar fazem com que a União Europeia reaja com moderação e os países isoladamente busquem a negociação. Todos agem com o pressuposto de que Trump recuará, por isso moderam sua resposta.

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No Brasil a pressão do empresariado “EUA-dependente” por negociação e para evitar o recurso à lei aprovada com voto unânime do Congresso que prevê medidas retaliatórias. Mas ninguém ficará inerte. O governo usará sua estratégia conhecida, punhos de seda do Itamaraty na negociação e punhos de aço nas declarações políticas, inclusive de Lula. Como as tarifas acumuladas representam uma elevação de custos em suas exportações, pressionarão por negociação e subsídios compensatórios. A sociedade ficaria com parte do custo adicional.

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