Quando o presidente Lula chegou à Casa Branca para encontrar o presidente Donald Trump, ele repetia o caminho que já fizera com Republicanos conservadores, como George W. Bush, e Democratas fora da caixa, como Barack Obama e sempre se saiu bem. Trump estava em terreno relativamente novo. O líder da extrema-direita mundial encontrava o líder da esquerda democrática no continente americano do Sul Global. O que Trump não esperava era encontrar um político pragmático e negociador profissional.


Um encontro entre negociadores experimentados, com uma diferença. Lula tinha o apoio de uma das mais profissionais diplomacias do mundo. Trump preferiu ter em sua companhia pessoas de sua afinidade ideológica sem experiência diplomática. Trump levava em sua pasta ameaças e queixas, algumas delirantes como o suposto déficit no comércio bilateral. Lula levava propostas concretas de cooperação.


O resultado foi uma reunião que durou cerca de três horas, de cujo teor integral só saberemos aos poucos. O que se sabe é que foi amistosa e teve resultados concretos, como o grupo de trabalho bilateral que discutirá as diferenças em torno dos números e do equilíbrio do comércio entre os dois. O enredo foi dado pela pauta objetiva de Lula, não pelas abstrações de Trump. Desse modo evitou arapucas como o crime organizado ser definido como terrorismo, hostilidades e retaliações.


Os liberal-conservadores brasileiros que julgam Lula por um viés ideológico e o pintam de extremista deviam rever essa opinião à luz do que aconteceu em Washington e do que vem acontecendo no mundo. Os equívocos de julgamento da centro-direita a fazem vulnerável não ao avanço da esquerda, muito menos da extrema-esquerda. Eles estão sendo devorados pela extrema-direita.


Lula nunca foi extremista, embora tenha parecido ser no seu radical enfrentamento com os candidatos social-liberais do PSDB na era de benigna polarização entre a centro-esquerda e a centro-direta, nas eleições presidenciais. O desaparecimento do PSDB, engolido pela extrema-direita de Bolsonaro, devia ser objeto de reflexão dos democratas brasileiros que se opõem à esquerda.


Na Hungria a autocracia brutal de Viktor Orbán, que completara 16 anos, no poder foi defenestrada com a vitória do Tisza de Péter Magyar, de centro-direita. Ele assumiu o cargo de primeiro-ministro pedindo desculpas ao povo húngaro pelas atrocidades e o desrespeito aos direitos pelo autocrata Orbán.


Ele disse em sua posse que abria o portal para a mudança de regime em seu país, de modo que Orbán não volte nunca mais. Magyar passou pelo partido de Orbán, o Fidesz, que fez apenas 52 cadeiras, contra as 141 do Tisza. Vai governar com 71% das cadeiras e 72% de popularidade. O parlamento será presidido por Ágnes Forsthoffer, cujo primeiro ato foi hastear a bandeira da União Europeia no Parlamento, retirada há 12 anos por Orbán.


No Reino Unido, o partido Conservador sofreu devastadora derrota para o Reform de Nigel Farage, um partido de extrema-direita com tinturas fascistas como o MAGA de Trump que sequestrou o partido Republicano nos EUA. O partido de Farage fez a segunda maior bancada no parlamento do País de Gales capturando o espaço que antes era dos Conservadores. A maior bancada foi para o partido de centro-esquerda Plaid Cymru, cujo líder Rhun ap Iorwerth deve ser o Principal-Ministro (First-Minister).


Na Escócia, embora o partido Nacionalista Escocês (SNP) tenha se mantido no governo, viu o Reform UK, de Farage, crescer. O SNP é candidato a ser devorado pela extrema-direita, à qual se aliou para governar no mandato anterior. Na ala progressista, o crescimento dos Verdes (Green) surpreendeu, empatou com o Reform como segunda bancada e se fortaleceu como alternativa ao desgastado partido Trabalhista. Deve apoiar Iorwerth.


Nas eleições para os conselhos locais, na Inglaterra, os Trabalhistas foram arrasados, perderam 1446, posições. Os Conservadores, em minoria, perderam 563 para a ultradireita. As eleições apontam para possível implosão do centenário bipartidarismo inglês. O sistema funciona mal em situações de fragmentação partidária porque leva quem faz mais votos, não quem faz a maioria, dificulta formar governos estáveis e não cria muito espaço para coalizões.


As consequência políticas e geopolíticas são muitas. Os autocratas da ultradireita estão desorganizando a ordem global na economia, na política e no plano militar. Geram instabilidade, crise e guerra. É da natureza dos extremistas. Os políticos de centro-direita, como Magyar, e de centro-esquerda, como Lula, querem reconstruir as instituições multilaterais, apostando em uma ordem global que promova a democracia, respeite as diferenças e diversidades e baseie as relações internacionais na negociação de propostas concretas que promovam justo equilíbrio entre as partes.

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Os democratas brasileiros que são contra a centro-esquerda devem refletir bem sobre quem apoiar em outubro para não serem devorados pela ultradireita.

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