Desde tempos imemoriais os homens em sociedade alternam sentimentos de cooperação e de competição. A competição torna as sociedades mais ativas e mais enérgicas, mas é a cooperação que assegura a sobrevivência e a prosperidade social. Nos pequenos grupos humanos em que o homem primitivo se organizava, a necessidade de consensos e cooperação era mais simples de se perceber. Nas sociedades complexas e diversas de hoje, a necessidade da cooperação social nem sempre é evidente e problemas coletivos deixam de ser resolvidos porque o instinto de competição abafa a disposição de cooperar.

O historiador Yuval Harari comentou que nossa sociedade moderna desenvolveu tecnologias de informação mais sofisticadas da história, mas no momento em que deveríamos estar mais conectados do que nunca, enfrentamos a maior crise de cooperação que nossa espécie já experimentou. Esta falta de cooperação no plano internacional, por exemplo, está nos impedindo de tratar as questões climáticas, está perturbando o comércio internacional e está semeando conflitos armados absolutamente gratuitos e evitáveis. No plano interno dos países, as questões da pobreza e da falta de crescimento quase sempre resultam da falta de cooperação política, e não da falta de recursos.

Aqui no Brasil, quase todos concordam que estamos fracassando em muitas coisas. Nosso crescimento de longo prazo tem sido pequeno, apesar da magnitude de nossos recursos. Nossos índices de pobreza ainda são muito altos. Na realidade, nossa população em geral vive em condições econômicas muito difíceis. O setor empresarial está vivendo um momento crítico, com grandes e tradicionais empresas em recuperação judicial e outras se colocando à venda. Para coroar tudo isto, as taxas de juros básicas da economia, 10% reais, são as mais altas do mundo e estão estrangulando as empresas e tornando insustentável a dívida pública. Se nada se alterar, vamos caminhar para uma catástrofe econômica e social.

Nossos problemas mais importantes podem perfeitamente ser resolvidos porque temos as condições materiais para isto. Nosso país pode crescer muito mais e incorporar a maioria da população no ambiente produtivo. Mas, para que isto ocorra, precisamos de uma série de reformas, que para serem aprovadas necessitam de consensos que no passado conseguimos articular, mas que hoje se tornaram impraticáveis em virtude da polarização política.

Precisamos de reformas econômicas para assegurar um ambiente favorável à empresa privada. Nosso setor privado opera com pouca segurança jurídica, pressionado por um sistema tributário complicado e imprevisível, cercado de regras e vetos por todos os lados. Os juros elevados são consequência de desequilíbrios fiscais, muitas vezes produto de conflitos institucionais que só a política pode resolver. Se pensarmos bem, quase todos os nossos problemas econômicos têm origem política. Na realidade o país vive sob o confronto de duas identidades políticas construídas, e não o confronto de dois projetos de desenvolvimento. É um jogo de poder em estado puro, que nos está imobilizando.

Estamos em um jogo de soma zero. O lado vencedor governa com lealdades, não com competências. O lado perdedor consome suas energias em torcer contra o governo e paralisá-lo. E no meio de tudo isto, partes do Governo, da oposição, do Legislativo e do Judiciário se entregam à captura por interesses privados poderosos, envolvendo-se em escândalos que ultimamente tem vindo à luz, para indignação de todo o país. A polarização não é uma situação inofensiva. Ele custa ao país um preço muito caro; a possibilidade de um futuro.

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Com este artigo eu interrompo minha colaboração de muitos anos, com o Estado de Minas. Aceitei coordenar um grupo de pessoas que vai propor um plano de governo para o pré-candidato à Presidência Ronaldo Caiado e nesta condição deixo de ser um articulista isento e independente como merecem os leitores. Escrever esta coluna foi uma experiência que me enriqueceu e por isto sou grato a todos

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