No Vale do Mucuri, Minas Gerais, a biodiversidade voltou pelas mãos ancestrais de quem nunca abandonou o futuro. O povo Maxakali plantou quintais agroflorestais, criou viveiros de mudas nativas e destinou áreas exclusivas da Terra Indígena para restauração ambiental. E a terra respondeu. Plantas e animais silvestres que tinham sumido reapareceram. Nascentes secas voltaram a minar e a água chegou até as comunidades vizinhas.
Era um chão arrasado pela pecuária extensiva, que derrubou matas e plantou capins exóticos. Foi ali, em 2023, que o projeto Hãmhi Terra Viva, do Instituto Opaoká, começou o trabalho ao lado dos pajés e das lideranças. Nos últimos anos, a mata ressurgiu folha a folha.
Então veio o fogo. Há três semanas, dois grandes focos queimaram 65% da Terra Indígena Maxakali, perto de Bertópolis, e demoraram a ser dominados, mesmo com os brigadistas da própria comunidade lutando dia e noite. O que arde é o que foi plantado com paciência por três anos. Os indígenas pedem investigação, uma estrutura de vigilância, apoio aos brigadistas voluntários e medidas urgentes de proteção e reparação. Pedem o que deveria ter chegado antes dessa tragédia.
Em Alter do Chão, em Santarém, no Pará, o fogo também desenhou longas linhas na mata nos últimos dias. Estivemos lá há quatro anos, para gravar o Projeto Preserva. De longe, parece só uma vila à beira do Tapajós, vendida como o caribe brasileiro. Mas Alter é uma Área de Proteção Ambiental e quem a protege com o próprio corpo são os Borari, que enfrentam o fogo e toda sorte de exploração. Nos rituais, na pesca, na coleta e plantio de sementes, na cestaria de fibra de tucumã os indígenas mantêm a floresta de pé num território disputado pela cobiça da especulação imobiliária.
No Mato Grosso do Sul, os Guarani Kaiowá foram atacados por motivações políticas. Esse povo é conhecido pela profunda conexão com a floresta. Logo depois do fim das eleições, os indígenas denunciaram assassinatos, intimidações e ameaças de envenenamento da água. Um áudio atribuído a um servidor da Prefeitura de Tacuru defendia a morte dos indígenas que votaram em Lula. O MPF e a Polícia Federal apuram os casos.
Os Kaiowá são guardiões da mata num estado onde 92% do território é propriedade privada e as terras indígenas somam apenas 2%. São eles que mantêm bancos e redes de troca de sementes nativas, tratam as nascentes como lugar de cura e cuidam de plantas medicinais. Em apenas um dos territórios, 86 espécies foram reunidas no livro “Nhande Pohã, as plantas sagradas dos Kaiowá”, do Ministério do Meio Ambiente.
A constituição é clara e impõe à União o dever de proteger os povos indígenas, suas terras, sua cultura e sua vida. Mas os governos estaduais e prefeitura têm papéis e precisam se responsabilizar por eles. Os estados comandam as polícias Militar, Civil e os Bombeiros que precisam atuar nos territórios em conflito e nos casos de incêndio. Já as prefeituras precisam oferecer assistência para as comunidades afetadas pelo fogo: cuidados médicos, água potável, comida e abrigo, além, claro, de responder pela conduta de seus próprios servidores.
O futuro desse mundo em aquecimento está nos laboratórios de pesquisa, nas tecnologias para a transição energética, na inovação para adaptar as cidades, mas não só. O futuro está também nas mãos que guardam as sementes, nos berçários de mudas nativas que protegem espécies ameaçadas, na preservação da terra, dos aquíferos, nas nascentes que recebem cuidado e voltam a jorrar.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
Como ainda veremos muito neste espaço, as grandes soluções costumam nascer da própria natureza e dos povos que preservam sua ciência ancestral.