Quando o preço da vitória é muito amargo, o derrotado é quem costuma comemorar o resultado. O pleito de 2026 está com essa cara. Caberá ao vencedor, o presidente Lula da Silva, a missão impossível, na política, de harmonizar campos opostos, levados a um extremo ódio social e, ao mesmo tempo, na economia, buscar fórmulas quase mágicas de reequilibrar o quadro financeiro do país, enquanto protege espaços, num orçamento estourado, para cumprir as promessas que garantiram sua vitória nas urnas.
E que tipo de vitória foi essa? Fica claro que o campo vitorioso – PT e seus aliados – operou muito bem duas esferas concentradas de eleitores, a regional e a assistencial. Não é a primeira vez que isso acontece. Mas essa concentração esférica vem se acentuando. Na esfera regional, a vantagem de Lula se concentra no Nordeste, partes do Norte e capitais relevantes enquanto candidaturas da direita e centro-direita têm obtido seguidas vitórias no Centro-Sul e Centro-Oeste. Na esfera assistencial, a diferenciação de preferências políticas também se intensificou.
Os votos de Lula provêm, sobretudo, da população dependente de verbas de governo. Dependendo de como se façam as contas, a população que vive em função de bolsas, auxílios e pensões do governo já passa de 60 milhões de adultos, jovens e idosos. É previsível que esse voto seja marcado pela preocupação com a manutenção desses “direitos sociais”. Qualquer candidato que se apresente com promessas de “mudança” será logo encarado com alguma desconfiança.
Diante dessa dupla esfera de concentração de votos, a regional e a assistencial, a saudável alternância de poder, própria de democracias consolidadas, fica completamente prejudicada. Acresce a isso que, no Brasil, a máquina pública, burocrática e controlista, opera pela adesão interessada de alguns milhões de eleitores empregados nos três Poderes. Muitos apelidam esse enorme contingente humano a serviço do controle da sociedade como “o sistema”. De fato, é um sistema de freios às mudanças. Também fazem parte desse sistema os que ganham a vida com aplicações financeiras. No Brasil, parte dos muito ricos se acostumou a viver “de rendas”, num nível de ganho sem paralelo com qualquer outro lugar do mundo. A riqueza brasileira participa, portanto, da esfera assistencial, ao apropriar cerca de um trilhão de reais anuais pagos pelo governo superendividado.
Imaginemos uma pirâmide eleitoral virtual, com base larga, miolo, e uma ponta fina em cima. Na base, vamos colocar cerca de 55 milhões de eleitores, atrelados à esfera assistencial do governo federal, que já despende mais de 400 bilhões anuais no sustento dessas assistências. No estreito topo da pirâmide, há cerca de 5 milhões de eleitores, também assistidos, porém de classe A, porque cooptados pelas vantagens de cargos públicos e pelo pagamento dos juros mais altos do planeta. Obviamente, nem todos esses assistidos ricos terão votado em linha com a manutenção de suas altas vantagens pecuniárias.
Por sua vez, entre os dois extremos da pirâmide social-eleitoral, há uma massa de cerca de 60 milhões de “operadores do sistema produtivo” – desde pequenos e médios empresários, trabalhadores e artífices por conta própria, produtores rurais, comerciantes, prestadores de serviços e informais – associados ao bloco dos “pagadores de impostos”. Esse segmento de pessoas está localizado no miolo da pirâmide de rendas, entre as classes A e C. São eleitores conscientes de que, não existindo “governo grátis”, as bondades concedidas por Brasília nascem do bolso de alguém, os que bancam a conta da rede de assistências do governo, uma bagatela na casa de 1,5 trilhão de reais, mais de 10% de PIB, quando somada a conta de juros.
Este é o legado político das últimas décadas. Há muito não temos metas de produção nem de produtividade. Temos, sim, metas de assistência, tanto aos mais pobres quanto aos mais ricos. No miolo produtivo do país, vemos uma população estressada por um vórtice tributário monumental, o mais gravoso entre os países emergentes. O Brasil se tornou antagônico à realização humana mediante trabalho. O “sistema” santificou o não-trabalho, ócio compatível com a ideologia da assistência e da dependência por endividamento. O governo, endividado e inoperante, dá o exemplo.
Resulta, porém, que esse “modelo econômico”, baseado no binômio de assistência e dependência financeira, se tornou insustentável. O edifício assistencial ameaça ruir sobre as cabeças de quem ainda produz, submetido à tirania tributária, como demonstrado no anúncio da abusiva alíquota de 11,3% da nova Contribuição Social sobre Bens e Serviços (CBS).
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Estará o reconduzido presidente focado em desarmar o modelo de assistência com dependência e tentar desenhar o caminho de um “modelo de crescimento”? Não há mágica capaz de entregar essa transformação. A vitória de Lula nas urnas, obtida nas esferas regional e assistencial, convalidou o modelo da assistência com juros de agiota. Não há “ajuste fiscal” que dê conta de afastar um modelo entranhado em metade da sociedade brasileira. Embora se afirme que devemos dar “ao vencedor, as batatas”, esse ditado, no Brasil, precisa esclarecer que são batatas quentes.