Pela primeira vez, desde os choques do petróleo na década de 1970 (os de 1973 e de 1979), especialistas de mercado e analistas acadêmicos começam a falar de consequências do atual desarranjo no suprimento do produto, tão graves quanto nos episódios precedentes. O chefe da AIE – Agência Internacional de Energia –, Fatih Birol, comparou o corte atual na oferta mundial de petróleo, da ordem de 11 milhões de barris/dia, a mais de duas vezes os 5 milhões/dia subtraídos do mercado em cada um dos choques dos anos 1970. A comparação de Birol assusta, mas é apenas parcialmente válida. O mundo aprendeu muito com os choques anteriores. A oferta de petróleo se diversificou bastante e o Brasil é um desses exemplos, tendo passado de importador a exportador líquido, enquanto novas fontes de energia foram sendo encontradas e exploradas, bastando lembrar a substituição de queima de combustíveis por eletricidade na indústria automobilística.

Ainda assim, não dá para minimizar o que está acontecendo no Oriente Médio. Especialmente pelos atores envolvidos e pelas motivações altamente incendiárias de ambos os lados. Nas crises do petróleo da década de 1970, a motivação econômica pelo aumento de preços por parte dos países da OPEP era predominante sobre considerações ideológicas ou militares, ainda que houvesse repercussões nessa área, como a própria queda do Xá Rezah Pavlevi e sua substituição pelo regime dos aiatolás no Irã. Agora não. Os ataques aéreos a instalações e o quase fechamento do estreito de Ormuz são “armas” econômicas usadas para fins político-militares muito claros: Israel quer arrasar a capacidade nuclear do vizinho Irã, enquanto os EUA olham mais longe, visando a coibir o comércio do petróleo com a adversária China e, se possível, deter ou eliminar o terrorismo indireto que o Irã pratica ao sustentar grupos como Hesbullah, Routhis e Hamas, mundo afora. Hoje, a nova crise do petróleo é sangrenta e cheia de ódios.

Nas últimas horas, o mercado experimentou de tudo: desde altas abruptas com o “ultimato” dado por Trump ao governo do Irã, até acomodações baixistas de preços com o mais recente anúncio de uma “trégua” unilateral, à espera de conversas que estariam ocorrendo entre representantes americanos e iranianos. O regime do Irã tem dores, mas Trump tem pressa. E esta pode ser mais premente do que a dor sofrida por um extremista. A pressa de Trump tem a ver com o cenário doméstico que se movimenta contra seu jeito imperial (para os opositores seria “seu jeito brutal”) de fazer sua agenda de reformas mundiais andar. No cenário doméstico, há analistas experientes em crises e riscos sistêmicos, como Uwe Bott (ex- Moody’s e colaborador da SR Rating) que estão convencidos da inevitabilidade da próxima explosão financeira, num horizonte de até 12 meses.

Os EUA estão sob risco de “desancorar” a confiança nos títulos do Tesouro americano. Duas contas indigestas, uma, de juros anuais pagos pelo US Treasury e, outra, das despesas do Departamento de Guerra, cada uma na faixa gigantesca de um trilhão de dólares, ameaçam a estabilidade da rolagem de uma dívida em mercado que já ultrapassa a casa dos 120% do PIB dos EUA. Uwe foi o economista que, com este articulista, fez o estudo do qual resultou o primeiro rebaixamento mundial do até então sacrossanto grau máximo (triplo A) de qualidade do crédito atribuído pelas agências de risco americanas aos títulos do seu país. O estudo da SR Rating foi publicado em 2009 e repercutiu uma nota no prestigioso The Economist. O rebaixamento da nota, na época considerado audacioso e despropositado, foi depois acompanhado pelas demais agências. Os EUA não são mais, nem de perto, um país de qualidade creditícia triplo A.

Desta vez, Uwe Bott aponta três elementos que, juntos, formam a bomba-relógio da crise financeira: 1) o autoengano dos mercados; 2) os desequilíbrios estruturais e 3) o gatilho “Trump”. Sobre o autoengano, sabemos que os aplicadores costumam se sentir invulneráveis, até na beira do abismo. Parece ser o caso, desta vez, com os maciços investimentos em IA. Sobre os sete desequilíbrios estruturais, basta lembrar a conjunção do elevado déficit fiscal com a trajetória não-controlada da dívida americana. E o gatilho “Trump” seria acionado não só pelo caráter errático das ações do presidente, em sua busca frenética por resgatar a “grandeza perdida” dos Estados Unidos, mas o erro concentrado no ataque ao Irã, do qual Trump esperasse, talvez, uma resolução mais fácil e cirúrgica, à la Venezuela, mas que vem se provando custosa, difícil e incerta, às vésperas da comemoração dos 250 anos da Declaração de Independência (1776) em que o presidente imaginaria cativar o espírito do eleitor e trazê-lo de volta para escolher candidatos do seu partido em novembro. Está bem complicado o timing de Trump.

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Os preços do petróleo, embora desatados (ver quadro) ainda não mostraram toda a repercussão final que ainda terão, não só nos EUA, mas sobre a economia mundial. Para o Brasil sobram más notícias. A soma de impactos desfavoráveis é grande. Bate no bolso dos consumidores, via custos majorados de transportes de passageiros e de cargas. E repercute sobre o agronegócio brasileiro de forma duplamente punitiva, baixando os preços de commodities exportáveis e elevando custos de fertilizantes e outros insumos à base de petróleo. O ano de 2026, com a contribuição de taxas de juros insanamente elevadas, toma um rumo incerto que afetará o resultado eleitoral de outubro no Brasil, impondo um gravame a mais sobre as pretensões de permanência do grupo do PT no poder.

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