Há coisas que o Brasil pode vir a ser; outras, que não. Passado o umbral de 2026, com a folia do Carnaval made in Brasil, a imprensa e as redes sociais começam a fuçar o baú de palpites sobre nosso destino político. Até novembro, esse rumo estará traçado. Natural que os mercados, em especial o financeiro, queiram antecipar tendências e preferências eleitorais. O povo brasileiro se manifestará. Para escolher, o povo precisa enxergar alternativas reais.
Se um “meio-Lula” se apresentar como alternativa ao velho Lula, a meia-novidade não prevalecerá. Será Lula de novo, com caspa e tudo. E se aparecer um “meio-Bolsonaro” para fazer as vezes do Messias, aí mesmo que o bloco lulista exultará, pois um oponente de meia força é o único capaz de dar, por antecipação, mais um mandato a Lula.
Portanto, não serão metades de lulas ou de bozos que convencerão um eleitorado vacinado e decepcionado com os políticos e com a política em geral. O país precisa eleger um novo líder. Simples assim. Alguém “sem rabo preso” e com autoridade (forte currículo público) e experiência (sucessos efetivos em gestão de governos) para inaugurar uma nova era para uma nova geração de brasileiras e brasileiros.
O novo não é simulacro do velho. O novo é embalado por sonhos, mas cercado pelas balizas de um grande projeto. O presidente Temer, hoje muito elogiado por tal iniciativa, foi o político que mais recentemente vislumbrou um projeto de nação – a Ponte para o Futuro – um roteiro de trabalho desenhado pelo governante para conduzir a nação e motivar o povo.
O título simples e sugestivo desse projeto apontava a transição necessária para o país superar cacoetes históricos e tentar se livrar dos sanguessugas que chupam a seiva vital da nação. Temer também identificou o binômio essencial da boa gestão no Brasil presidencialista: ter um bom time e pressionar o timing dos avanços. Time e timing. A equipe era de primeira; restava não perder as janelas de oportunidade para apresentar e votar mudanças essenciais.
Na área pública, a gestão dos primeiros cem dias é fator decisivo para produzir fatos e garantir a construção de todo o projeto. A seu modo, o presidente Trump foi um que percebeu a premência do tempo, emitindo dezenas de ordens executivas logo no primeiro dia de governo.
O novo presidente do Brasil também precisa encetar mudanças em 01/01/2027. Algumas delas serão propostas consolidadas num Emendão à Constituição federal, ensejando a retomada da revisão constitucional de 1993, que nunca foi concluída com sucesso. Há vários “descruzamentos” de poderes e de competências a ser produzidos, o mais relevante sendo o descruzamento de atribuições aos três poderes da República.
Quem julga, não legisla. Quem legisla, não executa; e quem tem o Poder Executivo, não pode julgar nem legislar. Tão simples quanto não praticado. Urge devolver ao Supremo, por exemplo, a nobreza de seu indelegável controle da constitucionalidade.
Hoje o STF gasta quase todo tempo a julgar como quarta instância ou como foro privilegiado, haja vista o lamentável episódio do banco Master, ainda sangrando de tantas inconstitucionalidades. Como Corte Constitucional, o STF deve se ater às decisões normativas de repercussão geral. Até mesmo o Superior Tribunal de Justiça deve substituir seu status de terceira instância para se tornar um tribunal revisor definitivo.
Enquanto isso, cabe ao Congresso primazia nos trabalhos de elaboração e aprovação orçamentária, com amarrações (limitadores de despesas) a serem aprovadas pelas duas Casas com a colaboração do Executivo. E a este último poder, cabe a tarefa grandiosa de construir o futuro, implantando o projeto da nação aprovado, em suas linhas gerais, no curso dos debates pré-eleitorais.
Alinhavamos aqui, com poucos traços, o esboço do país que se prepara para a aventura de mergulhar na era revolucionária do Superconhecimento. Também percebemos a quase absoluta pobreza do ambiente pré-eleitoral. Pelo lado da esquerda, não se vislumbra sequer um sinal de avanço em seu pensamento partidário: o PT é dominado por rancoroso negacionismo, que ficou flagrado pelo enredo catastrófico da escola Acadêmicos de Niterói no desfile da Sapucaí.
Lula, em especial, não cogita de nenhum “descruzamento de poderes” pois ele se tornou, no atual mandato, um mero devorador de sua própria história, embora lendária, uma espécie de Búfalo Bill que terminou seus dias interpretando a si próprio num picadeiro de circo. O PT não pensa em reformar nada, nem redistribuir responsabilidades aos poderes. Interessa manipular para prevalecer sobre os grupos que participam do grande banquete extrativista nacional, que não é da seringueira nem da castanheira, mas das bilionárias verbas do Orçamento federal, repartidas anualmente como um grande regabofe para os clãs de Brasília e os morubixabas regionais.
O recente editorial do prestigioso semanário inglês “The Economist” errou o alvo do diagnóstico das mazelas brasileiras ao dar voz a economistas que, mais uma vez, preveem o “caos iminente” em 2027 pela explosão da dívida pública e do passivo previdenciário do país. Essas são, sim, questões sérias e prementes mas que, nem de longe, capturam o que há, afinal, de torto na alma brasileira. Somos todos, vítimas da falta de lideranças jovens (no sentido da juventude de ideias) e corajosas (qualidade que impulsiona um projeto, mesmo sob intensa oposição).
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Só que essa penúria relativa de líderes e essa falta de projeto não vêm de hoje, mas têm nos atormentado numa interminável noite sem sonhos, como se o país fosse uma nave em perpétua viagem para um astro longínquo, fora da nossa galáxia. Fomos hipnotizados pela mediocridade. Precisamos despertar antes que o tempo restante nos escorra pelos dedos da nação. Acordar é preciso. Viver desse jeito – como diria o poeta – certamente não é preciso.
