Os problemas da democracia não deveriam surpreender tanto e deixar tantos perplexos por aí. Tal é o argumento de Sheri Berman em artigo publicado em recente edição do Journal of Democracy, da Universidade Johns Hopkins. Professora da Universidade Columbia, de Nova York, Berman questiona a confiança de que prosperidade e boas constituições garantiriam democracias duradouras. Para ela, a história está repleta de avisos de que não é bem assim.


No século XVIII, Montesquieu explicava que o poder precisa encontrar limites em outros poderes, mas o desenho que gera harmonia varia no tempo e no espaço. No XIX, Tocqueville observava que a liberdade americana dependia também do relativo baixo grau de desigualdade entre seus cidadãos, bem como dos costumes e associações que tiram os cidadãos do isolamento. Uma constituição pode distribuir competências sem produzir gente disposta a respeitá-las, compreendê-las e valorizá-las. Ainda que uma sociedade possa estar conectada, ainda assim, ela pode ter pouca disposição para conviver com quem pensa diferente e rejeita convergências moderadas.


No século XX, Seymour Martin Lipset associou a estabilidade democrática às condições sociais produzidas pelo desenvolvimento, incluindo segurança econômica, mobilidade para cima e menos desigualdade. Enquanto era difícil sustentar democracia em relações piramidais, as sociedades mais em formato de diamante, mais largas no meio, eram mais afeitas ao equilíbrio democrático. Não era uma questão de cada um se virar e o governo não atrapalhar.


Robert Dahl, por sua vez, insistiu na importância de divisões transversais, que se entrecruzam em vez de se repelirem mutuamente. Quando isso ocorre, os indivíduos podem se alinhar a adversários políticos em determinada questão, embora discordem deles em outras. A última década e meia oferece exemplos do que acontece quando ninguém se entende.


Na União Europeia, os ataques à independência judicial na Polônia e a concentração de poder na Hungria mostraram que integrar o clube do poder não é democracia. Outro dado interessante é que se o comportamento eleitoral pensa que privilégio gera prerrogativa, a linhagem arbitrária do país não muda. Épocas ruins para a democracia são aquelas em que há usurpação, isto é, todos querem transgredir a esfera do dever.


A radicalização descrita por Berman ajuda a entender esse ambiente onde a disputa não é polarização, mas sempre entre vários governismos. Quando o adversário vira inimigo, para Tocqueville nascem as comunidades de poder, que só conversam consigo mesmas e vivem de apostar em revanches.


Adam Przeworski ajuda a entender o que falta nessa conta. Em seu livro Capitalismo e Social-Democracia, explicou como trabalhadores poderiam aceitar a propriedade privada com acúmulo centrado no capitalista, mediante alguma redistribuição. Esse compromisso dependia de organizações e líderes capazes de sustentá-lo.


Dylan Riley, sociólogo da Universidade de Berkeley, retomou o argumento num trabalho de 2025. Começa reconhecendo que “nenhum estudioso fez mais para esclarecer a relação entre capitalismo e democracia do que Adam Przeworski”, para então trazer a objeção de que o compromisso analisado tinha lugar e época. A partir de um determinado ponto, lucros crescentes não garantem investimentos nem salários melhores. Se governos mudam e a vida permanece sem perspectiva, a alternância perde parte de seu sentido. Essa hipótese aproxima as frustrações sociais apontadas por Berman das crises políticas nos dois lados do Atlântico, sem torná-las idênticas.


Quem perdeu segurança no emprego, estagnou, ou deixou de acreditar que os filhos viverão melhor não recupera confiança ouvindo elogios à democracia. Seja de forma clara, vexada ou confusa, encontra-se tanta gente disposta a apoiar ataques ou defesas radicais à ordem democrática. Nenhum fanatismo combina com democracia.


A revolução digital acrescenta complicações a esse problema. A internet com suas plataformas e crescente inteligência artificial abrem possibilidades produtivas fantásticas, mas também oportunidades para concentrar ainda mais renda e explorar inseguranças mil. A correção, porém, pode ser democrática ou autoritária. A política até agora tem usado em seu proveito a tecnologia. A democracia não consegue nem saber quais suas queixas.


A democracia está mudando suas maneiras para pior. Tem diferentes conceitos dentro de si própria. E será melhor se conseguir transformar descontentamento em regras do jogo mais adequadas para viver. Simples como perfilar ao lado da liberdade com responsabilidade. A condição mais necessária para a melhor perfeição da sociedade.

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