“Certa manhã, ao despertar de sonhos intranquilos, ele descobriu que havia sido transformado num inseto repugnante” – começa assim a novela mais famosa do século 20. Apesar de ser um inseto não especificado, na imaginação de muitos o tal inseto d’A Metamorfose, de Franz Kafka, seria uma barata.

A transformação do personagem narrada por Kafka remete tanto à situação metafórica que acomete tanta gente que, injustiçada, pode se sentir reduzida à condição de inseto. De fato, muitas e muitas vezes, “o inferno são os outros”, especialmente para os que tiram zero em concursos e bancas e sabem que foram julgados por quem não merece nota melhor.

De toda forma, não se tem notícia de que o jovem indiano que lançou em maio o fictício “Partido do Povo Barata” tivesse a história de Kafka em mente. Tratava-se apenas de uma sátira em resposta aos comentários feitos por um juiz que preside a Suprema Corte da Índia, Surya Kant, que rapidamente se tornaram virais. Durante uma audiência, o magistrado comparou jovens desempregados e ativistas que se queixavam do sistema a “baratas”.

Concursos públicos são máquinas que secretam sentidos ocultos no mundo estatal. Todavia, os sentidos ocultos nem sempre são literatura de ficção. Eles podem assumir diversas formas absurdas de dar sentido ao que fazemos ou ao que fizeram de nós.

O fato é que a ascensão repentina do “Partido do Povo Barata” nas redes sociais indianas, desde maio, mostra que o movimento se transformou em um canal para a insatisfação difusa de uma geração de jovens que se sente desconsiderada de forma repetida e estrutural. E com o tempo – e também a ajuda não-intencional de uma virulenta reação das forças policiais do governo, ao que no início eram poucas pessoas protestando nas ruas pacificamente – ganhou volume e presença física na capital, Nova Deli, e por todo o país.

O nome do partido-movimento também é um trocadilho com o do partido governista da Índia, o Bharatiya Janata Party (BJP), ou “Partido do Povo Indiano”.

O jovem que lançou o movimento, Abhijeet Dipke, é de origem dalit, a casta que mais exclusão sofre no país. De 2023 até junho deste ano, ele esteve nos Estados Unidos para cursar um mestrado em Relações Públicas na Universidade de Boston.

Já o ministro Surya Kant é conhecido por insistir que os direitos fundamentais não podem ser dissociados da responsabilidade cívica e faz observações no Supremo indiano que se transformam em manchetes, desencadeando debates políticos e agitação nas redes sociais. Sobre a referência às baratas, ele afirma que se dirigia apenas aos milhares de advogados que, segundo ele, exercem a profissão no país com diplomas falsos.

Não foi bem assim: o juiz, começou atacando os tais advogados com diplomas falsos e enveredou numa diatribe sobre “parasitas” e “jovens como baratas, que não conseguem emprego e nem possuem nenhuma profissão”.

Seja como for, depois que o movimento em torno do Partido do Povo Barata conseguiu forçar a demissão do ministro da Educação, Dharmendra Pradhan, no fim de julho, seu fundador, Abhijeet Dipke, declarou: “Gostaria de agradecer ao ministro Surya Kant. Se ele não nos tivesse chamado de baratas, esse movimento não teria começado.”

O partido-movimento se diz a “voz dos preguiçosos e desempregados” e mirou sua fúria, ao mesmo tempo bem-humorada e dramática, contra notícias sobre vazamento de provas de processos seletivos para cursos de medicina que causaram furor no país. O problema não se restringe a vestibulares ou bancas universitárias, uma vez que é recorrente a percepção de concursos fraudados na Índia.

A Índia, não muito diferente do Brasil, mas em maior escala, organizou sua hierarquia republicana em torno de concursos públicos e indicações por notório saber – desde acesso à educação até a cargos do Estado com prestígio e melhor remuneração –, no intuito de pavimentar, num país muito desigual, caminhos teoricamente imparciais e equitativos de acesso.

Entretanto, entre intenção e prática vai uma distância.

O fato é que essa fixação em seleções por concursos e bancas adoece muita gente excluída por fraudes e injustiças de toda sorte. No drama indiano temos greves de fome, suicídios e esse sentimento de que se a geração atual vive num país muito mais desenvolvido e próspero do que as gerações anteriores o desequilíbrio como se forma a elite do Estado é um escândalo real, que se espalha pelas democracias incompletas.


No fim, pode se estar formando uma cultura sem futuro onde furar fila, se dar bem, botar protegido no Estado e no governo, vai adoecendo as nações e corrompendo o sentido do esforço, do trabalho e do que seja uma reorientação mais bem ajustada da vida saudável em sociedade.

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