Minha neta nasceu em março desse ano. Alegria melhor não há. Melhor seria se morássemos perto, mas quis Deus – ou teria sido meu filho? – que ela nascesse nos Estados Unidos onde vivem.


Só este ano, lá estive três vezes; a primeira para conhecê-la numa época em que ela mal abria os olhos. A segunda para ajudar os pais que precisavam retornar ao trabalho. Trinta e cinco dias por conta, incluindo a noite. Ao me despedir, disse a ela: “registre bem a cara e a voz da vovó. Não me esqueça”. Acreditei que conversar por vídeo todos os dias ajudaria a me manter viva na mente dela.


Voltei 130 dias depois. Minha empolgação foi tanta que desci do carro antes mesmo que ele parasse por completo. Espalhafatosa que sou, fui logo gritando-lhe o nome de braços bem abertos. Não deu outra. Ela olhou para mim, olhou para o pai, repetiu essa sequência e abriu o bué. Era final do dia, “ela chega da creche cansada, fica triste não”, foi o que ouvi em meio ao choro que não parava.


Se por defesa ou por ser de fato uma situação engraçada, preferi rir que ser tomada pela tristeza. “Amanhã a gente coloca tudo no lugar”, disse minha nora. A previsão foi certeira. Bastou uma noite. Ao acordar, ela era só sorriso.


Logo assumi o papel de avó em seu mais alto grau de desobediência. Aos poucos, enquanto reclamava que a filha ficava mimada demais na minha presença, meu filho resgatava as graças da infância dele e do irmão na casa de meus pais, rede de apoio muito presente em nossas vidas.


Ótimas lembranças da infância, do leite cheio de açúcar escondido e do colo a um simples aceno. Quando precisei voltar para casa, mais uma despedida difícil, mais uma vez pedi: “não se esqueça da vovó”, seguida de uma risada sincera.

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Queremos ser lembrados. Bem lembrados, em detalhes por aqueles a quem um dia amamos. Nos sentirmos necessários, indispensáveis enquanto vivos. Para isso são necessários encontros, retornos recheados de abraços ou apenas de palavras capazes de manter a memória nem que apenas imaginária.

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