Meu pai tinha um “olho de vidro”. Quando criança, perfurou um dos olhos com uma espécie de arame que manipulava na tentativa de dar vida a um brinquedo. Desde sempre foi muito habilidoso com ferramentas, mas na época faltavam-lhe maturidade e treinamento. Tinha apenas sete anos de idade. Resultado: perdeu a visão e precisou usar tapa-olho por um tempo, até conseguir um “olho de vidro” para substituir.

Apesar de sempre achar bem estranho o olhar de um dos olhos dele, só fiquei sabendo do ocorrido, e de parte da dor que ele envergava, na minha adolescência, quando minha mãe decidiu nos contar a verdade, escondido e sob completo sigilo. Papai tinha vergonha daquela “falta” e entendo o porquê.

Quando assumiu nos contar sua saga, aos filhos já adultos, disse que, mais do que enxergar com apenas um dos olhos, o que mais lhe doía era o que ouviu ao longo dos anos. Nunca conseguiu esquecer, por exemplo, o que lhe disse um médico durante entrevista de emprego logo que ele completou 18 anos: “Você é e sempre será um inválido”.

Guardava uma mágoa muito grande daquele “doutor”, ao mesmo tempo em que se sentia vingado (aliás, passou a vida toda tentando provar que a praga a ele rogada não o enfeitiçaria). “Queria que esse médico me visse hoje, visse do que fui e sou capaz.”

Papai tinha visão apurada para todo e qualquer detalhe. Era capaz de construir com maestria qualquer tipo de peça em um torno, com minúcia e riqueza de detalhe capazes de irritar quem observava. “Nada do que entra nesta oficina sai sem funcionar”, gabava-se sempre que levávamos um ferro de passar roupa, secador de cabelo, liquidificador ou brinquedo de neto para ele consertar.

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Pouco antes da pandemia, renovou a carteira de motorista aos 92 anos e apenas um olho “de verdade”. Confesso que torci para que o médico que fosse realizar o exame o reprovasse. “Se o motorista prova que é capaz, não serei eu a reprová-lo”, escutei, calada.

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