Quem nunca ouviu falar de Madagascar, a quarta maior ilha do mundo, país africano de praias exuberantes, enormes baobás centenários e animais que só existem por lá? Porém, esse encantamento esconde um nível de miséria difícil de acreditar. De todos os lugares do mundo que já percorri realizando missões humanitárias, o extremo sul de Madagascar é o mais pobre em todo tipo de recurso, exceto o espiritual.


Secas extremas, levam à escassez de água, tornando difícil o desenvolvimento da agricultura. O resultado é um quadro desolador de sede e fome, desnutrição severa, altos índices de mortalidade infantil, ausência dos direitos básicos como moradia, educação e saúde, agravados pela exploração de seus ricos recursos minerais por forasteiros e empresas estrangeiras.


Desde 2023, convivo com nativos da região de Antandroy, no extremo sul da ilha. Estive lá três vezes, adentrei em suas aldeias, conversei com homens, mulheres, jovens e crianças, feiticeiros, sacerdotes, curandeiros, professores, pessoas que muitas vezes têm para carregar apenas seus próprios corpos e os de seus filhos, além da crença de que os ancestrais zelam por todos. Acompanhei o dia a dia deles, tentando entender como resistem a todo tipo de apagamento. E confesso que ainda tenho muito o que buscar.


Retrato essa realidade, pouco visível para a maioria de nós, no livro Onde deságua o desengano, da Autêntica Editora, que será lançado na próxima quarta-feira. Os capítulos são fruto de minha observação e memória, além de depoimentos de personagens reais que, apesar de tanta adversidade e perdas constantes, sempre conseguem encontrar razões para encarar os desafios de um novo dia.

Esposas ainda meninas, carregam seus filhos enquanto buscam água, meninos guiam carros de boi em estradas precárias à procura de algo para a família comer, quando elas e eles deveriam estar protegidos dentro de ambientes escolares; pessoas com problemas mentais acorrentadas em árvores debaixo de sol e de chuva, como forma de garantir sua segurança e de suas famílias, por total falta de recurso e tratamento adequado. Mas exibem sorrisos largos com a certeza de que seus mortos oram por eles, nos ensinando que não há espaço para o desengano, apenas para a certeza de que o amanhã virá independente de nossas ilusões.

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O livro será lançado dia 15, a partir das 18h30, na livraria Quixote, na Rua Fernandes Tourinho, 274, Savassi, com bate-papo e seção de autógrafos.

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