Quando uma plataforma de petróleo deixa de produzir, o trabalho no campo ainda está longe de terminar. Poços precisam ser fechados de forma permanente, estruturas devem ser removidas ou destinadas com segurança, resíduos exigem tratamento e a área passa por recuperação ambiental. Esse conjunto de operações recebe o nome de descomissionamento e pode custar bilhões de reais justamente no momento em que o ativo já não gera receita.
Na avaliação de Márcio Pinheiro, empresário com mais de 25 anos de experiência nos setores de energia, logística e infraestrutura, o planejamento financeiro dessas obrigações precisa acompanhar a própria vida produtiva dos ativos. “O encerramento da operação deve fazer parte do planejamento financeiro desde o início. Quando esse custo é tratado apenas na fase final, aumentam os riscos de falta de recursos, atrasos e dificuldades para contratar a infraestrutura necessária”, afirma.
Pelas regras brasileiras, a responsabilidade financeira cabe às empresas titulares dos contratos de exploração e produção de petróleo e gás Em agosto de 2026, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis realizou uma audiência pública para discutir mudanças nas garantias exigidas dessas companhias. A ANP, responsável por regular o setor, procura assegurar que os recursos estejam disponíveis mesmo quando o campo já não apresenta retorno econômico.
Uma das alternativas em discussão é o seguro garantia, instrumento destinado a cobrir as obrigações caso a companhia responsável não consiga executá-las. A exigência reduz o risco de estruturas abandonadas, passivos ambientais e despesas transferidas a terceiros. O valor necessário varia de acordo com a quantidade de poços, o tipo de plataforma, a profundidade, a localização e o destino definido para os equipamentos.
A dimensão desse mercado cresce à medida que instalações antigas se aproximam do fim de sua vida útil. A Petrobras prevê destinar dez plataformas, fechar mais de 420 poços marítimos e retirar cerca de 2 mil quilômetros de linhas flexíveis até 2029. Depois de 2030, outras 58 plataformas deverão entrar no planejamento de desativação da companhia.
O processo começa antes da retirada física. As empresas precisam apresentar programas de descomissionamento, calcular os custos, avaliar riscos técnicos e ambientais e definir o destino das estruturas. Parte dos equipamentos pode ser reutilizada em outros projetos. Materiais como aço seguem para reciclagem, enquanto componentes contaminados ou sem possibilidade de reaproveitamento exigem tratamento especializado.
A remoção também mobiliza rebocadores, embarcações de apoio, terminais portuários, áreas de desmontagem, transportadoras, siderúrgicas e empresas de gerenciamento de resíduos. O gasto obrigatório para quem encerra um campo pode movimentar uma cadeia industrial ampla, gerar empregos especializados e estimular novos investimentos em regiões costeiras.
Para Pinheiro, a disponibilidade de infraestrutura e de uma cadeia de fornecedores preparada é parte importante da capacidade de executar esse processo de maneira eficiente. “O descomissionamento exige integração entre engenharia, logística, infraestrutura portuária, gestão ambiental e controle de materiais. A falta de uma cadeia preparada pode elevar os custos e fazer com que parte desse trabalho seja realizada fora do país”, explica o empresário.
O descomissionamento, portanto, ultrapassa a retirada física das estruturas. O processo envolve planejamento financeiro, capacidade logística, infraestrutura portuária, fornecedores especializados e coordenação entre diferentes atividades industriais.
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A responsabilidade financeira, por sua vez, permanece até a conclusão de todas as obrigações. A empresa não deixa de ser responsável apenas porque a produção terminou ou porque a plataforma foi retirada. O encerramento só ocorre após o abandono seguro dos poços, a destinação adequada dos materiais e a recuperação das áreas afetadas. Com dezenas de estruturas entrando nessa fase, o descomissionamento passa a ocupar espaço relevante na agenda brasileira de energia, infraestrutura e indústria.
