Imagino que você já deve ter ouvido algo do tipo: "a TV vai matar o rádio". Ou que "o CD vai acabar com o vinil", e assim por diante. A chegada de uma nova tecnologia quase sempre desembarca com uma promessa assombrosa: a de acabar com o mundo da forma que conhecemos. No entanto, salvo raras exceções, a profecia não se cumpre – o que não significa que não impacte nossas vidas.
Na semana passada, o Google lançou o Lyria 3, seu modelo de inteligência artificial para geração de faixas de áudio. Integrado ao aplicativo do Gemini e em testes no YouTube nos Estados Unidos, ele permite que, a partir de um comando de texto simples ou até mesmo de imagens, qualquer pessoa crie 30 segundos de uma trilha musical.
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Há quem reflita sobre os impactos disso na indústria da música. Mas, honestamente, esse é um campo em que a tecnologia já se consolidou há muito tempo. Recursos como o Pro Tools são amplamente usados para corrigir notas desafinadas e simular instrumentos ou batidas. Nessa dinâmica, outros componentes ganham relevância, como a força das performances ao vivo e a escolha estética de assumir (ou não) as melhorias do tratamento digital.
Quando a fotografia surgiu, no século 19, ela também transformou a cena artística. Ao liberar a arte da obrigação de retratar a realidade, abriu caminhos para além do figurativismo, impulsionando vanguardas que redefiniram a modernidade e levaram a obra de arte do objeto físico para o mundo. Aos poucos, a fotografia foi se tornando uma linguagem de expressão tão corriqueira que, hoje, a levamos para todo lado na palma das mãos, com celulares cujas câmeras poderiam deixar Henri Cartier-Bresson com inveja.
A IA generativa na música pode caminhar para um lugar parecido. Para mim, a questão é menos sobre se a IA vai substituir os artistas (tenho convicção de que não!) e mais sobre como essa tecnologia fará com que a música se torne uma forma de expressão pessoal e comunicação tão trivial quanto tirar uma foto com o celular.
Estaríamos, então, no início da era dos memes em áudio gerados por IA? Quer pedir desculpa a alguém? Gera uma trilha! Quer convidar para o seu aniversário? Manda uma canção! Quer resumir um assunto para alguém? Uma música é bem melhor que um áudio. Imagino o Lyria e outras tecnologias compondo a caixa de ferramentas que nós, brasileiros, já usamos com tanta maestria para gerar os melhores memes e interagir socialmente.
Claro que eu precisava testar isso tudo, e aqui está uma pequena experiência que fiz a partir do seguinte comando: “Gere uma trilha refletindo sobre a geração de música por IA e seu potencial para ser uma nova forma de comunicação para as pessoas. A música deve ser em estilo bossa nova, lenta e com uma voz feminina suave”. O resultado e a cifra você pode conferir a seguir.
Tom: C (Dó Maior)
Estilo: Bossa Nova (Lento)
[Introdução]
Cmaj7 Fmaj7 Cmaj7 Fmaj7
[Versos]
Cmaj7 Fmaj7
Nas ondas do silêncio, um novo som,
Bm7(b5) E7(b9) Am7 A7(b9)
A máquina traduz a emoção.
Dm9 G13
E a canção que a mente artificial criou,
Em7 A7(b13)
É a ponte entre o seu e o meu coração.
[Refrão]
Fmaj7 Fm6
Floresce um novo jeito de falar de amor,
Em7 A7(b9)
Com a leveza de um beijo, sem dor.
Dm9 G13 Cmaj7 G7(13)
Floresce um novo jeito de falar de amor...
[Finalização]
Cmaj7 Fmaj7 Cmaj7(9)
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