A Guerra do Peloponeso começou em 431 a.C. como uma disputa pela hegemonia do mundo grego e terminou, 27 anos depois, com a derrota de Atenas, o esgotamento de Esparta e o enfraquecimento de praticamente todas as cidades-estados envolvidas. Segundo Tucídides, o crescimento do poder ateniense e o medo que isso despertou nos espartanos tornaram o confronto inevitável. A guerra resultou de decisões equivocadas, alianças automáticas, cálculos errados.
Os governantes foram incapazes de interromper a escalada. A desastrosa expedição ateniense à Sicília selou o destino da guerra. Apesar dos riscos, os dirigentes de Atenas enviaram uma grande força militar para conquistar Siracusa. Foi uma catástrofe: a frota foi destruída, milhares de soldados morreram ou foram escravizados e Atenas perdeu a capacidade de sustentar sua hegemonia. Entretanto, a vitória final de Esparta também foi efêmera. Décadas depois. a Grécia fragmentada e exaurida acabou submetida à Macedônia de Felipe II.
A guerra da Ucrânia repete essa lógica da autodestruição. A invasão ordenada por Vladimir Putin, em fevereiro de 2022, violou a soberania ucraniana e desencadeou o maior conflito europeu desde a Segunda Guerra Mundial. Desde então, cada lado procura melhorar sua posição antes de negociar, como se uma nova ofensiva, um ataque mais profundo ou uma arma mais poderosa pudesse finalmente desequilibrar o confronto.
O resultado é uma sucessão de avanços limitados, retaliações e impasses, além de centenas de milhares de mortos e feridos, cidades destruídas, milhões de refugiados e a militarização da Europa. A Rússia não conquistou a vitória rápida que imaginava; a Ucrânia não dispõe de meios convencionais para impor uma derrota completa à potência invasora; os aliados ocidentais temem tanto o triunfo de Moscou quanto uma escalada que os envolva diretamente. A guerra se alimenta da expectativa de que o adversário cederá.
A recente e misteriosa viagem a Moscou do diretor da CIA, John Ratcliffe, é um sinal de que a escalada deixou de ser apenas retórica. Foi a primeira visita conhecida de um chefe da agência de espionagem norte-americana à Rússia, desde novembro de 2021, quando William Burns foi enviado para advertir Putin sobre os preparativos para a invasão. Desta vez, Ratcliffe se reuniu com dirigentes dos serviços russos, mas não com Putin. Donald Trump classificou a missão como “semirrotineira”, uma desculpa que só aumenta o mistério dos seus objetivos.
A operação teve cuidados reveladores. Washington informou previamente Kiev sobre a presença da delegação e pediu a suspensão temporária de ataques em áreas russas durante seu deslocamento. Um avião militar C-17 voou dos Estados Unidos para a Rússia, com escala na Letônia, enquanto imagens mostravam um comboio diplomático em Moscou. Não se sabe a pauta das conversas. Mas os interesses mútuos são conhecidos: troca de prisioneiros, guerra do Irã, ações de inteligência e mecanismos para evitar um choque militar direto.
Escalada
No contexto da guerra ucraniana, porém, a pauta mais plausível é a escalada da guerra. Quando as chancelarias não conseguem produzir acordos, os canais entre serviços de inteligência assumem a função de transmitir advertências, esclarecer intenções e estabelecer linhas vermelhas. Foi assim durante os momentos mais perigosos da Guerra Fria. A presença de Ratcliffe em Moscou mostra que Washington e o Kremlin reconhecem a existência de riscos fora do alcance da diplomacia convencional.
A questão nuclear está em debate. Autoridades e políticos ucranianos voltaram a lembrar que seu país renunciou ao arsenal soviético instalado em seu território depois da dissolução da União Soviética. Em 1994, pelo Memorando de Budapeste, Ucrânia, Rússia, Estados Unidos e Reino Unido firmaram um compromisso político segundo o qual Moscou, Washington e Londres respeitariam a independência, a soberania e as fronteiras ucranianas. Kiev aderiu ao Tratado de Não Proliferação Nuclear e transferiu as ogivas para a Rússia. A invasão russa destruiu a credibilidade dessas garantias.
A Ucrânia abrigava, em 1991, cerca de 1.900 ogivas estratégicas soviéticas, além de milhares de armas táticas, mas não possuía controle operacional nem infraestrutura para mantê-las. Reconstruir seu programa nuclear militar, como admite o presidente Volodymir Zelensky, exigiria tempo, instalações, tecnologia e testes, além de romper o regime internacional de não proliferação. Mas não é impossível com o conhecimento científico disponível e a ajuda europeia.
Moscou advertiu que não aceita uma Ucrânia nuclear e ameaça promover ataques preventivos, o que pode transformar o conflito regional numa crise mundial. Putin recorre repetidamente ao poder nuclear russo para intimidar a Ucrânia e limitar o apoio ocidental. Mudanças na doutrina militar, exercícios das forças estratégicas e ameaças mais ou menos explícitas nem sempre são apenas propaganda, mas dissuasão: ninguém sabe onde termina o blefe. Basta olhar para a guarra do Irã.
O perigo está no erro de interpretação. Foi assim que guerras anteriores escaparam ao controle de seus protagonistas. Em 1914, quase ninguém desejava uma conflagração europeia de quatro anos, mas ultimatos, mobilizações e alianças militares transformaram o assassinato de um arquiduque numa guerra mundial. Hoje, a chantagem nuclear é uma insensatez. Um acordo de paz tornou-se, portanto, mais necessário do que nunca, porém, não pode premiar a agressão russa nem impor a capitulação da Ucrânia.
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