A trajetória recente do ministro Alexandre de Moraes no Supremo Tribunal Federal produziu um fenômeno raro no Judiciário brasileiro: a construção de uma figura pública dotada de forte capital simbólico. Ao conduzir investigações e julgamentos ligados aos ataques à democracia e às articulações golpistas associadas ao ex-presidente Jair Bolsonaro, Moraes passou a ser visto por amplos setores da opinião pública como o principal fiador institucional da ordem constitucional, um herói da democracia.


Daí nasceu o “Xandão”. O apelido popular não é apenas um “meme” das redes sociais. É a tradução da construção simbólica de uma persona institucional investida de atributos extraordinários: firmeza, coragem, capacidade de decisão em momentos críticos. Trata-se, em termos teóricos, da atualização contemporânea de um fenômeno antigo da política: o mito homérico de Ulysses. A filósofa Hannah Arendt, em A Condição Humana, analisa essa figura a partir da tradição da pólis grega.


Para Arendt, o herói homérico é aquele que se revela no espaço público por meio da ação e do discurso. Sua grandeza não deriva apenas do resultado de seus atos, mas do fato de agir diante dos outros, sob o olhar da comunidade política. A ação extraordinária rompe a rotina do comportamento cotidiano e projeta o indivíduo na história. O herói busca aquilo que os gregos chamavam de imortalidade da fama. Sua biografia passa a ser construída pelas ações que realiza diante da coletividade. A política, nesse sentido, é o espaço onde o indivíduo deixa o âmbito privado para se expor ao julgamento público.


Nos últimos anos, Moraes passou a ocupar esse lugar simbólico na política brasileiro. Sua atuação firme contra a radicalização antidemocrática transformou-o em protagonista de uma narrativa institucional de resistência. Para muitos, ele encarnava o magistrado capaz de enfrentar o poder político quando este ameaça as regras do jogo democrático. O problema das narrativas heroicas, que situam o indivíduo acima das instituições, é que são voláteis. Dependem de uma coerência permanente entre a figura pública e a conduta privada. Qualquer fissura nessa coerência pode provocar a desmitificação.


Relações perigosas

Esse fenômeno está em curso com as revelações relacionadas ao escândalo do Banco Master e seu controlador, Daniel Vorcaro. A existência de um contrato milionário entre o banco e o escritório de advocacia da mulher do ministro, no valor de R$ 129 milhões entre o Banco Master já havia despertado questionamentos sobre eventual conflito de interesses. Ainda que não haja demonstração de ilegalidade, esse vínculo econômico entre o grupo investigado e a família de Moraes levanta inevitáveis dúvidas institucionais.


A situação tornou-se mais delicada com a divulgação de mensagens encontradas pela Polícia Federal no celular de Vorcaro. Segundo reportagens, o banqueiro teria trocado contatos com Moraes no dia em que sua prisão foi decretada. Mesmo sem o conteúdo completo das respostas atribuídas ao ministro, o simples registro dessas interações no sentido inverso ao da construção do mito do herói, ou seja, da transição do bem comum para os interesses privados, detona um processo de desconstrução de sua imagem, o mito do Xandão teria pés de barro. O problema é que isso mina a confiança na imparcialidade das instituições. Quando surgem dúvidas sobre relações privadas entre magistrados e personagens investigados, o problema deixa de ser apenas jurídico e passa a ser essencialmente político.


O episódio ganha dimensão ainda maior porque envolve também o ministro do STF Dias Toffoli, que deixou a relatoria do caso após revelações sobre transações envolvendo empresa da qual é sócio e fundos ligados ao mesmo grupo empresarial. A coincidência amplia a repercussão do escândalo e alimenta a percepção de promiscuidade entre interesses privados e esferas de poder. Até o momento, não há prova de irregularidade por parte de Moraes. O desgaste de sua imagem não decorre das acusações formais, sim da erosão do capital simbólico construído ao longo dos últimos anos. A força de sua autoridade estava ancorada na percepção de independência e rigor institucional.


Há uma distinção entre a ética da convicção e a ética da responsabilidade. A primeira orienta aqueles que agem movidos por princípios e valores absolutos, com os políticos, por exemplo. A segunda exige que o agente público responda pelas consequências de seus atos e pela confiança que inspira na sociedade, sua responsabilidade é zelar pela legitimidade dos meios utilizados na ação política. Na construção do mito do Xandão, a linha que separa a convicção da responsabilidade era tênue e sinuosa, mas legitimada pela defesa da democracia.

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Ministros do Supremo cruzam essa fronteira com frequência, sob permanente tensão para equilibrar a ação em defesa da Constituição e a responsabilidade de assegurar a legitimidade do sistema jurídico. Entretanto, é um autoengano supor que a autoridade de um ministro do Supremo deriva apenas da Constituição ou da força de suas decisões. O herói da tradição clássica buscava a imortalidade da fama. Na democracia, porém, a verdadeira grandeza está na confiança pública na integridade de sua conduta. Nesse espaço, o “terrivelmente evangélico” ministro André Mendonça assume cada vez mais protagonismo.

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