O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao conversar com o presidente dos EUA, Donald Trump, por 50 minutos, e aceitar seu convite para ir à Casa Branca, entrou numa perigosa saia justa política. De um lado, o presidente americano o trata com deferência pessoal (“eu gosto dele”), o convida para um organismo global recém-criado e ainda acerta uma visita do brasileiro à Casa Branca assim que Lula voltar da Índia e da Coreia do Sul, em fevereiro.

De outro, está sobre a mesa uma negociação em torno de Gaza, da arquitetura internacional e, sobretudo, da Venezuela, depois da operação militar dos EUA Unidos que prendeu Nicolás Maduro. Tudo num ano eleitoral, em que o governo Lula precisa reduzir riscos externos e internos, com economia sensível, oposição com a faca nos dentes e eleições logo ali.

Na prática, o Brasil foi puxado para o centro de um tabuleiro instável, no qual Trump tenta redesenhar a ordem internacional com seu “Conselho de Paz”, ao mesmo tempo em que acende um alerta máximo na América Latina com a intervenção militar na Venezuela que resultou na prisão de Maduro e de Cilia Flores. Entrar ou não entrar no Conselho de Paz de Trump é um drama hamletiano para Lula. Aceitar pode legitimar uma estrutura de governança internacional personalista, com poderes concentrados e regras nebulosas, que muitos já veem como uma tentativa de “substituir” ou contornar o sistema ONU. Recusar de pronto seria reabrir a rota de atritos com Washington, inclusive com o risco de retaliação econômica, arma de Trump na política externa.

Lula parece ganhar tempo para mitigar condições. Em nota, o Palácio do Planalto registrou que o presidente brasileiro sugeriu que o conselho se restrinja à reconstrução e pacificação da Faixa de Gaza, como previsto na resolução do Conselho de Segurança da ONU endossada em novembro passado, e que preveja assento para a Palestina. Ao mesmo tempo, Lula reiterou a defesa de uma reforma abrangente da ONU, com ampliação dos membros permanentes do Conselho de Segurança — velha bandeira da diplomacia brasileira. É puro Itamaraty: aceitar o diálogo, mas proteger o multilateralismo e a legitimidade institucional do sistema internacional.

O Conselho de Paz aparece como algo muito maior do que um mecanismo técnico para Gaza: documentos vazados e discursos do presidente americano sugerem um “guarda-chuva” para resolução de conflitos globais, com Trump como presidente e com um núcleo decisório dominado por integrantes de seu círculo íntimo, como Marco Rubio, Steve Witkoff e Jared Kushner. Não se cria “paz” por decreto de potência, ainda menos colocando o comando de um organismo internacional sob liderança vitalícia ou com poderes ilimitados. O nome disso é hegemonismo.

O Brasil sempre atuou como defensor da ONU — mesmo criticando a paralisia do Conselho de Segurança. Lula tem um discurso consistente: a Carta da ONU está sendo “rasgada”, e o unilateralismo está tomando o lugar do multilateralismo. Ao dizer que Trump pretende criar “nova ONU” em que seria o “dono”, Lula falou para sua base política e para o campo progressista internacional, que rejeitam soluções de força, tutela colonial e a engenharia institucional trumpista.


O jogo impossível

Mas isso ocorre num contexto geopolítico delicado. A conversa com Trump ocorre após uma operação militar americana em território venezuelano, com grande impacto juntos aos líderes da América do Sul. Segundo o Palácio do Planalto, na conversa, Lula enfatizou a necessidade de preservar “paz e estabilidade” na região e trabalhar pelo bem-estar do povo venezuelano. No Itamaraty, há temor de que a Casa Branca desestabilize a região, contamine fronteiras, amplie fluxos migratórios e empurre países vizinhos para alinhamentos oportunistas e fragmentação diplomática.

Se Trump decidiu que pode agir unilateralmente na América Latina e que sua estratégia será “resolver” regimes adversários pela força, o Brasil fica numa situação difícil: Lula precisa evitar o caos regional sem romper com Washington e preservar sua liderança sul-americana sem parecer cúmplice de uma intervenção que fere princípios históricos da política externa brasileira, como não intervenção e solução negociada de controvérsias.

O Brasil também não pode entrar em uma turbulência comercial com os EUA em ano eleitoral. Trump já mostrou que tarifa também serve para chantagem política. Quando ameaça Macron com tarifas de 200% sobre vinhos e champanhes, manda um recado ao planeta: quem desafiar publicamente o novo arranjo pode “pagar” na balança comercial. Lula enfrentou um tarifaço no ano passado e precisa de previsibilidade para exportações e investimentos, não pode correr o risco de importar uma crise econômica em pleno ano eleitoral.

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Lula construiu parte de sua autoridade no retorno do Brasil ao centro da diplomacia, com a articulação com Brics, a defesa do multilateralismo e a imagem de liderança do Sul Global. Trump oferece uma cena tentadora: na visita à Casa Branca, o “papel grande” no Conselho de Paz e a fotografia ao lado do “pacificador-chefe” do mundo. Para qualquer governo, especialmente um gosta de símbolos, isso tem valor. Entretanto, para Lula também tem risco. Ir a Washington para conversar sobre Gaza e América Latina, sobretudo a Venezuela, sem aceitar a lógica desenhada por Trump e não provocar retaliação é o “jogo impossível” da diplomacia: negociar com o poder, sem se submeter ao poder; cooperar sem virar avalista; manter autonomia sem romper pontes.

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