Depois da consulta médica, o paciente precisa encontrar o medicamento, entender como utilizá-lo e seguir o tratamento com segurança. Nesse percurso, existe o diálogo entre médico e farmacêutico pode esclarecer dúvidas, prevenir falhas e facilitar o acesso à terapia. Neste 18 de outubro, Dia do Médico, vale reconhecer uma parceria que nem sempre aparece aos olhos de quem busca atendimento.

Farmacêutico há 26 anos, João Elias vivencia essa relação de perto. Ele conta que quando tem contatos dos médicos costuma ligar para confirmar doses, verificar a disponibilidade de remédios e discutir alternativas quando algum produto está em falta. O farmacêutico identifica a dificuldade, o médico avalia se a troca é adequada e, quando necessário, emite outra receita. Para o paciente, isso significa orientação e menos obstáculos para iniciar ou manter o tratamento.

Nem todas as conversas, porém, terminam bem. João Elias relata que, ao atender um homem, considerou que a prescrição merecia esclarecimentos diante dos sintomas informados. Procurou o médico, mas, segundo ele, encontrou resistência. Sem solucionar a dúvida, recomendou ao paciente uma nova avaliação. Ainda conforme seu relato, outro profissional diagnosticou pneumonia e indicou internação. Sem acesso aos prontuários e às versões dos demais envolvidos, não é possível avaliar a primeira conduta. O episódio, contudo, ilustra por que perguntas técnicas precisam ser recebidas com seriedade.


A resistência ao diálogo não é exclusividade dos médicos. João Elias reconhece que também existem farmacêuticos pouco dispostos a ouvir. Quando o orgulho profissional se sobrepõe à troca de informações, uma dúvida que poderia ser resolvida acaba se tornando um conflito. Admitir a possibilidade de rever uma decisão não enfraquece o conhecimento de ninguém, é parte do exercício responsável de qualquer profissão de saúde.

Há evidências de que organizar melhor essa cooperação pode trazer benefícios concretos. Uma revisão de Hanan Khalil, professora universitária, farmacêutica e pesquisadora em saúde pública e colaboradores, publicada na revista científica Drug Safety, na edição de abril de 2026, e indexada na PubMed, reuniu 62 estudos clínicos, com 431.526 participantes. 

Os pesquisadores investigaram se intervenções voltadas à segurança dos medicamentos na atenção primária poderiam reduzir internações, idas à emergência e mortes. Entre as medidas analisadas estavam a revisão de medicamentos por farmacêuticos e o atendimento multidisciplinar. Nesse grupo de intervenções organizacionais, houve redução relativa estimada de 19% nas internações. Os próprios autores classificaram a evidência como de baixa certeza: o resultado não pode ser atribuído somente à parceria entre médico e farmacêutico.

O dado não substitui a experiência de cada paciente, mas mostra a importância de processos que permitam conferir prescrições, identificar possíveis interações e esclarecer orientações. As responsabilidades continuam distintas: o médico diagnostica e prescreve; o farmacêutico verifica aspectos do uso dos medicamentos e orienta sua dispensação. Se a prescrição precisa mudar, a decisão deve passar pelo profissional habilitado a fazê-la.

O paciente, por sua vez, não é espectador, ele tem direito de compreender por que recebeu determinada receita, como usar o medicamento e quais opções existem. Até a substituição por um genérico, quando permitida, exige respeito às regras sanitárias e informação clara para que a pessoa participe da escolha.

João Elias diz que escolheu a farmácia porque gosta de ajudar pessoas. Esse propósito encontra o trabalho do médico no ponto mais importante da assistência: a vida de quem precisa de cuidado. No Dia do Médico, valorizar essa profissão também é defender relações em que a pergunta seja bem-vinda e a resposta seja responsável. O paciente não deveria depender da boa vontade de dois profissionais para que conversem. Deveria poder contar com isso como parte do atendimento.

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