Você tem curso superior, pós-graduação e, mesmo assim, não confia na sua comunicação. Talvez você saiba resolver problemas complexos, mas hesite em apresentar a solução em uma sala de reunião. Pode dominar a técnica e ainda travar na hora de discordar de uma liderança, admitir uma dúvida ou defender uma ideia. A verdade é que entre o conhecimento que adquirimos e a influência que conseguimos exercer existe uma ponte chamada comunicação.

O conhecimento técnico continua indispensável; afinal, nenhuma fala substitui o preparo ou a experiência. O problema começa quando acreditamos que saber fazer basta para que os outros reconheçam o que sabemos. No ambiente de trabalho, a competência também precisa circular, uma percepção precisa ser apresentada, uma dúvida precisa encontrar palavras e uma boa ideia precisa chegar a alguém para ser considerada.

É nesse ponto que profissionais extremamente capazes encontram os seus limites. Alguém pode identificar um risco em um projeto e permanecer em silêncio por medo de contrariar o líder. Pode perceber que um prazo é inviável e aceitá-lo apenas para não parecer pouco comprometido. Ou pode ter uma solução brilhante e desistir de apresentá-la por receio da reação alheia. Em nenhuma dessas situações falta competência técnica; falta transformar conhecimento em participação.

No livro “Conversas cruciais”, os autores relatam estudos realizados em 17 organizações e descrevem profissionais admirados não apenas pela visão técnica, mas pela capacidade de abordar questões delicadas de uma forma que os outros consigam ouvir. O conhecimento torna alguém tecnicamente competente; a comunicação ajuda a transformar essa competência em influência.

Essa dificuldade em transformar a técnica em voz é comum. George Rubadel, ex-diretor financeiro do Grupo Stema Brasil e especialista em comunicação estratégica com mais de 4 mil apresentações no currículo, observa esse fenômeno de perto. Segundo ele, quanto mais importante é uma conversa, maior costuma ser a dificuldade de conduzi-la. “Medo, insegurança e necessidade de aprovação aparecem justamente quando mais precisamos de clareza”, ressalta. 

Atuando também como sócio de uma agência de marketing, Rubadel afirma que frequentemente se depara com profissionais de excelente conteúdo que simplesmente não sabem se comunicar.

Para o especialista, o conceito de se expressar bem costuma ser distorcido. “Comunicação não significa só falar bonito. Significa organizar uma ideia, fazer uma pergunta objetiva, explicar um problema, ouvir uma posição diferente, negociar expectativas e estabelecer limites sem transformar o outro em adversário e tudo isso pode ser treinado”, explica.

Contudo, essa responsabilidade não recai apenas sobre os colaboradores. Algumas empresas dizem valorizar o diálogo, mas punem quem discorda ou questiona, ensinam seus profissionais a se calarem. Não existe cultura de comunicação quando falar representa um risco maior do que esconder um problema.

O desafio corporativo, portanto, não é criar ambientes sem conflitos, mas sim construir relações profissionais onde as pessoas se interessam em se comunicar, antes que ocorra a queda na produtividade. Liderar, negociar, receber feedback e administrar expectativas exige saber explicar o que se sabe, discordar sem romper e reconhecer quando uma decisão precisa ser revista.

Diplomas, especializações e experiência continuam sendo fundamentais. Porém, nenhum currículo entra sozinho numa reunião para defender uma ideia, negociar um prazo ou conduzir uma conversa difícil. Em algum momento, é o próprio profissional quem precisa se fazer compreender.

Talvez muitas carreiras não percam tração por falta de competência, mas porque, nos momentos decisivos, a competência não foi o suficiente para explicar com clareza o que precisava ser dito. O conhecimento nos prepara para ocupar um lugar, a comunicação nos permite participar dele.


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