“Deus escreve certo por linhas tortas.” Em se tratando de esporte, principalmente, a tônica é mais que verdade. Pois no último fim de semana é como se tivesse nascido um novo esporte. Isso mesmo, o futebol feminino, com a conquista pelo Cruzeiro da Taça Libertadores Feminina, no Estádio Rodrigo Paz Delgado, em Quito, no Equador, ao derrotar o Corinthians, o maior campeão da competição, com seis títulos, por 4 a 3, no pênaltis, depois de 4 a 4 no tempo regulamentar.


Para quem acompanhou o jogo, momentos de grande emoção, típico dos jogos de futebol masculino nos anos 1960. Confesso que não via o que aconteceu desde que era novo, muito novo.


Era dia de decisão. Com um time mineiro em campo, para mim, amante do esporte, seja ele qual for, é obrigação assistir. Tudo pronto, TV ligada, hora de acompanhar mais uma decisão. Não sei quantas assisti. E se forem naquele nível, que venham mais várias. Saudades do futebol, do gol, o que não faltou.


Antes do jogo fui pesquisar um pouco, conferir as campanhas dos dois times. O Corinthians chegou à competição como favorito, ao lado do Palmeiras. O Cruzeiro era apontado como zebra. Um time sem tradição em competições internacionais.


Todos, principalmente os meios de comunicação paulistas, apostavam na final Palmeiras x Corinthians. Uma final “deles”, como sempre. Nunca vi serem tão bairristas. Egoísta completos.


Pois o Cruzeiro veio atropelando e, contrariando esses palpiteiros, chegou à final. Pela frente, um time experiente, com várias jogadoras de Seleção Brasileira e buscando o hepta da Libertadores.


O jogo começou com o domínio impressionante das paulistas, que logo fizeram 1 a 0. Pouco depois, 2 a 0. No início do segundo tempo, 3 a 0. Sinceramente, acreditar numa virada era impossível. Mas o time celeste diminuiu: 3 a 1. Ainda há esperança. Pelo menos de um empate e levar a decisão para os pênaltis. O Cruzeiro fez o segundo. A esperança aumentou.


Mas o Corinthians aumentou. Eram 22min da etapa final, restavam apenas 23 minutos de tempo regulamentar. A esperança pareceu desaparecer. Essa foi a impressão. Mas o jogo mudou. O Cruzeiro não sentiu o impacto e passou a pressionar, pareceu ter encontrado forças e as tirou não se sabe de onde. Acredito que foi do íntimo de cada jogadora, do coração delas.


Aos 29min, o terceiro gol do Cruzeiro. Era o que todas e todos esperavam. O empate ainda era uma realidade. Mas o tempo foi passando e o gol não veio. Bola por cima e pelos lados da meta corintiana, além de defesas da arqueira paulista.


O empate, os pênaltis, pareciam apenas uma ilusão. Era muito difícil. O tempo perto do fim. Mas o futebol propicia momentos mágicos. Aos 45min, no apagar das luzes, uma bola cruzada na área e Letícia Ferreira, que tinha entrado no segundo tempo, cabeceou no ângulo, estabelecendo o incrível empate por 4 a 4. A decisão do título foi para os pênaltis.


E aí, mais emoção. O Cruzeiro perdeu o cara ou coroa e bateu primeiro. Byanca Brasil acertou, 1 a 0. Mas Vic Albuquerque também acertou e empatou. Letícia fez 2 a 1 para o Cruzeiro. Duda Sampaio acertou e igualou em 2 a 2. Mas Pri Back errou o terceiro pênalti do time mineiro. Mas por sorte, Jaque Ribeiro também perdeu.


Fomos para o quarto pênalti e Michelle Romero fez 3 a 2 para o Cruzeiro. O Corinthians acertou com Belén Aquino: 3 a 3. Vitória Calhau recolocou o Cruzeiro em vantagem, 4 a 3, mas Thaís Ferreira tornou a empatar. Disputa foi para as cobranças alternadas. Quem perdesse poderia entregar o título. E a cruzeirense Lorena Bedoya errou. Desespero geral. Se Gisela Robledo acertasse, o Corinthians seria heptacampeão. Mas ela errou. A bola, então, estava com Milena Ferreira, que correu e acertou. Cruzeiro 5 a 4.


E hora de torcer. Nervos à flor da pele, em campo. Gi Fernandes tem de errar, é o que pensam todos. Ela bateu no canto direito, mas a goleira Camila defendeu. O Cruzeiro é campeão logo em sua primeira Libertadores.


Pois isso mudou uma situação que não estávamos acostumados a vivenciar. Nesta segunda-feira (2/11), na chegada das jogadoras a Belo Horizonte, uma mostra do que vem por aí. A torcida esteve no Aeroporto Tancredo Neves, em Confins, para receber o time. E de lá, seguiu em carreata até a Toca da Raposa I e, de lá, até a sede do Barro Preto.


E o mais importante é que, no ano que vem, os jogos do Cruzeiro devem ser com estádios cheios. Grande público é sinal de receita, ou seja, a possibilidade de investimento na modalidade feminina. É um momento de afirmação, como nunca antes.


De repente, a conquista da Libertadores terá o mesmo significado da Taça Brasil, dos homens, em 1966. E com Byanca Brasil no papel de Dirceu Lopes…

 

 

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