A gente levantava cedo. Por volta de 8h. Era tomar banho, pra ficar bem acordado, tomar café e descer para o pátio. Era como chamávamos a garagem do prédio, que era grande, para 24 carros. A bola era minha, portanto, meu lugar na pelada estava garantido.
Eu era sempre o primeiro a chegar no pátio. Começava a chutar a bola na parede. Logo começaram a aparecer os amigos. Eles escutavam o barulho da bola na parede e acordavam. Viam que era hora de descer. Tinha gente que descia com a calça do pijama e apenas calçava o tênis.
Mas não era só gente do prédio. Tinha os outros moradores da rua. E também o pessoal do Pau Comeu. Marcão – hoje ele tem 70 anos e ainda joga na várzea –, Bagunça, Guta, Totoso.
De vez em quando, aparecia um tal de “Batata”, que era veloz. Se punha a bola na frente, era difícil pegar. Ele não era da favela. Era primo de um pessoal da rua, do Cadinho. E com eles vinha Quinzinho, Adair. Vinha também o Jorginho “Mal-Acabado”.
Ainda na rua, o Júnior Furletti, filho do Carmine, vice-presidente do Cruzeiro, que era vizinho. Também “Popola”, “Pelau”, Serginho, Zé Ernesto. Do prédio, eu, Caqui, Chico, “Ricardo Gaguinho”. Do prédio em frente, o Darlan. De uma rua vizinha, os irmãos “Nando” e “Juleba” e o Chico.
Com tanta gente, não dava pra jogar na garagem. Aí, a rua virava o nosso campo de futebol. E aquela pelada atraía a atenção de pessoas importantes, como o Furletti e o Yustrich, treinador, o “Homão” como era também conhecido por ser linha dura.
O Yustrich era técnico do América, na época, trazia as bolas velhas do clube e nos dava para jogar pelada. E logo o Yustrich viu uma promessa, o Zé Ernesto, que levou para o América. Zé Ernesto era astro de basquete. Um dos destaques do Ginástico, mas acabou indo para o futebol de campo. E ele se tornou o primeiro goleiro a defender um pênalti no Mineirão.
Pois é, desse grupo, saíram dois para o futebol de campo. Um baita goleiro, e um atacante, Roberto “Batata”, que foi para o Cruzeiro e foi campeão da Libertadores em 1976. Era cotado para a Seleção Brasileira.
E próximo dos nossos campos, na Rua Dante, no Bairro São Lucas, tem a Favela do Pau Comeu. Lá, um campo, o Bola de Ouro, que era o sonho de todos nós jogar. Era como um juvenil de uma equipe que fosse jogar no Mineirão. De lá saíram outros jogadores para o América, todos levados pelo Yustrich.
Pois era assim. Nossas ruas, nos campos de várzea, revelavam jogadores, assim como as cidades do interior. Dirceu Lopes, Pedro Paulo, Marcelo, vieram de Pedro Leopoldo. Dois vestiram a camisa amarela. De Nova Lima, do Villa Nova, Perácio e Luizinho,
Essas são as revelações mineiras. Agora é só imaginar o restante do país, que tinha a mesma situação de Belo Horizonte. E quantos jogadores não saíram das ruas, das favelas, os meninos dos campos do interior.
C. Portanto, não há de ser Carlo Ancelotti, um italiano, que acha que fez certo ao pensar que iria conseguir resgatar o que chamamos de “malandragem brasileira”, o “gingado”. Que iria vencer com uma retranca.
Não. Não vai ser assim. Aliás, um outro recado: “Temos de ter, também, um treinador brasileiro. E que não seja nenhum desses das cartas marcadas. Não vou relembrar nomes aqui, mas dentre eles, o pior treinador desse país.”
Vão dizer que não tem jeito, que não se pode mais jogar bola na rua, por causa do trânsito intenso. Que não há mais campos nas favelas.
Mas existe sim uma saída. É só alinhar o esporte com a educação. Jogar futebol de campo, de imediato, não dá. Esse menino não vai conseguir jogar no campo. Pelo menos até os 13 anos.
A solução é simples. Montar equipes de futebol de salão, o que permitirá, principalmente, a evolução das habilidades da meninada. Primeiro em salas de aula. Cada uma terá seu time. Depois, cada escola faz uma seleção do ano que as crianças estão estudando.
Faz-se um campeonato. Em todas as escolas. Depois um campeonato das escolas. Isso irá despertar o desejo, a ânsia pela vitória. Nada melhor que isso para despertar o interesse, fazer crescer a paixão pelo esporte. A cada gol, a cada gol salvo, uma emoção indescritível.
Pois é. Mas, acima de tudo, é preciso que os nossos dirigentes tenham de se envolver com o esporte, mas só com o esporte. Não vê-lo apenas como negócio. Talvez assim vejamos novamente o surgimento de craques. Que saudade deles!
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