Depois de mais de 30 anos de estrada com o Skank, aprendi uma lição que nenhum contrato de gravadora ensina: existe uma diferença enorme entre o amigo do seu CPF e o amigo do seu CNPJ. O do CPF liga quando você está mal. O do CNPJ liga quando você está bem. E o pior é que, no auge, é quase impossível distinguir um do outro porque todo mundo, inclusive você, começa a acreditar no personagem.

A fama tem esse efeito estranho de criar uma criatura ao lado da pessoa. E, depois de um tempo, tentar separar a criatura da criação vira trabalho de arqueólogo. Você fica mais bonito. Fica mais inteligente. Suas piadas, que antes eram só piadas, viram citação. Na verdade , ninguém está mentindo. Esse é o resultado quando a plateia empresta brilho para quem está no palco, e esse brilho parece seu. Só que não é.

Lulu Santos resumiu isso melhor do que qualquer manual de carreira, em “Tudo igual” ao dizer “não leve o personagem pra cama”. É um aviso técnico, quase de segurança do trabalho. Porque o personagem cansa, exige manutenção, cobra performance até debaixo do edredom. E quando a relevância cai, e ela sempre cai, todos aqueles valores emprestados vão embora com ela. Você continua a mesma pessoa. Só que sem a plateia para confirmar a versão mais bonita e mais esperta de si mesmo.

O mundo dos creators radicalizou esse roteiro. Hoje é possível atingir o auge da carreira midiática aos 20 e poucos anos e passar décadas administrando uma decadência que começou cedo demais. Antigamente a fama vinha devagar, dava tempo de aprender a lidar com ela. Agora ela chega de uma vez, como um flash, e o resto da vida é gerenciar lampejos de celebridade.

Tem uma frase antiga que sempre me ajudou a organizar essa confusão. Ter dinheiro não te dá poder automaticamente, mas o poder, em algum momento, tende a te dar dinheiro. O filósofo Bertrand Russell escreveu isso de um jeito mais elegante em “Power: A new social analysis”: para ele, poder é o conceito fundamental das ciências sociais, o equivalente à energia na física. Já a riqueza é só uma das formas que o poder pode assumir, não o contrário. Fama funciona parecido: ela é uma forma de poder emprestado, não de patrimônio.

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Depois de décadas em cima do palco, cheguei numa conclusão tranquila: não precisa ter medo da fama. Ela pode ser generosa, pode abrir portas, pode até ser divertida desde que você lembre que é visita, não é dona da casa. A fama é como uma rosa, tem a sua beleza, mas também tem os seus espinhos. Aproveite o perfume enquanto ela está na sua mão. Só tome cuidado de segurá-la no lugar certo para não se machucar.

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