Vi recentemente duas notícias de São Paulo que me fizeram pensar em Belo Horizonte. O Vale do Anhangabaú, depois de uma reforma pesada, virou um espaço aberto com quadras e área para skate, ocupado pela população no dia a dia. Já o Parque do Ibirapuera foi entregue para uma empresa privada cuidar por mais de trinta anos, e a pesquisa mais recente mostra que o paulistano aprovou: quase três em cada quatro dizem que o parque melhorou.
Vale um comentário: o próprio Anhangabaú também está nas mãos de uma empresa privada desde 2021, e a prefeitura de São Paulo tenta agora romper esse contrato por descumprimento. Não é só a parceria que resolve, é a cobrança em cima dela.
E é justamente isso que me interessa quando penso no nosso centro. Belo Horizonte já está se movimentando. A Praça Sete pode ganhar painéis de led enormes, um projeto batizado de "Times Square mineira", já aprovado pelo Conselho do Patrimônio. Esta decisão divide as opiniões. O comércio gosta, parte dos urbanistas teme que a praça perca a identidade. Mas mostra que a prefeitura está disposta a arriscar.
O que me parece mais importante é o projeto que a prefeitura enviou à Câmara para reformar prédios velhos e vazios do hipercentro e transformá-los em moradia, com desconto de imposto para quem investir. A ideia é chegar a milhares de novas unidades habitacionais ao longo dos próximos anos. É preciso trazer gente para morar no centro.
E é aqui que entram a Praça da Estação e o Parque Municipal. Os dois têm tudo para receber parcerias parecidas com a do Ibirapuera: uma empresa cuida, investe e explora comercialmente, dentro de regras bem definidas, e a cidade ganha um espaço melhor cuidado. A própria associação de lojistas do centro já sugeriu isso para o Parque Municipal, seguindo o exemplo do que já acontece no Parque das Mangabeiras, onde parte da área foi entregue à iniciativa privada para melhorar a estrutura.
Esse movimento não é exclusividade brasileira. Paris organiza sua reforma urbana em torno da ideia de que qualquer morador deveria conseguir trabalhar, comprar e se divertir a quinze minutos de casa, a pé. Nova York converte prédios de escritório vazios em apartamentos desde a pandemia. Medellín, que já foi sinônimo de violência, reconstruiu o centro com teleféricos, bibliotecas e praças bem cuidadas, e virou referência de urbanismo.
O fio que une tudo isso é simples: as grandes cidades pararam de aceitar centros que esvaziam depois das seis da tarde e estão trazendo moradia de volta para perto do trabalho. Isso significa menos gente perdendo horas no trânsito, comércio funcionando à noite, e mais movimento nas ruas, que é a melhor forma de segurança que existe.
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Belo Horizonte já tem boa parte das peças no tabuleiro: retrofit, incentivo para moradia popular, interesse do mercado imobiliário e até experiência prévia com parcerias em escolas e iluminação pública. Falta juntar tudo num projeto só para o centro, em vez de tocar cada iniciativa separadamente. Os exemplos de São Paulo, Paris e Medellín não precisam ser copiados ao pé da letra, mas apontam na mesma direção: menos deslocamento, mais gente morando perto de onde a sua vida acontece, seja escola, trabalho, compras ou lazer.