Vivemos em uma era de descompasso cronológico. De um lado, a inteligência artificial acelerando o mundo e desafiando nossa capacidade entender o que está acontecendo. Do outro, o relógio biológico da Terra mantém o mesmo ritmo imutável de milênios. Este descompasso entre os algorítmicos e o mundo real define o grande dilema da nossa geração.
Há mais de dois mil anos o filósofo grego Heráclito disse: “Ninguém pode entrar duas vezes no mesmo rio”. Essa frase citava a mudança contínua da água e do próprio indivíduo. Hoje, na era da IA, essa metáfora ganha uma camada. O “rio” digital não apenas flui; ele corre com muita força. Entre um clique e outro a resposta que recebemos é o resultado de um processamento que utiliza décadas de pensamento humano em milésimos de segundo.
Enquanto celebramos uma IA gerar um plano de negócios em segundos ou traduzir textos em tempo real, esbarramos em limites que a tecnologia, por mais avançada que seja, não consegue antecipar.Podemos fazer uma seleção genética e monitorar o feto durante uma gestação, mas ainda temos que esperar os mesmos nove meses que os seres humanos esperam há milhares de anos. Uma rede neural pode simular o crescimento de uma floresta em realidade virtual rapidamente, mas uma jabuticabeira ainda leva alguns anos para dar seu primeiro fruto.
Criamos lojas que funcionam 24 horas e todos os dias da semana pela internet e luzes artificiais que anulam a noite, mas o ciclo circadiano do nosso corpo continua ligado na rotação do planeta. O dia ainda tem as mesmas 24 horas que tinha para os egípcios quando construíram as pirâmides – o que mudou é que, atualmente, tentamos espremer mil tarefas dentro dele.
O perigo reside em tentar forçar o mundo real trabalhar na velocidade do digital. Quando criamos a expectativa de uma resposta imediata sobre os processos naturais, criamos uma ansiedade de difícil solução. Queremos que a sabedoria, que normalmente só aparece com os cabelos brancos, chegue mais rápida, mas ela é um processo lento. Quem dera que os relacionamentos amadurecessem na velocidade de uma pesquisa no Google.
A IA pode nos dar o fato, mas não pode nos dar a experiência de ter vivido o tempo necessário para compreendê-lo.
Viver no mundo atual, sem ficar estressado, exige o reconhecimento dessas duas velocidades. Precisamos da agilidade da IA para resolver problemas complexos e expandir as fronteiras do conhecimento, mas precisamos da paciência de esperar o broto de uma orquídea abrir e se transformar numa bela flor.
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Se Heráclito vivesse hoje, a sua frase, que citei no inicio do texto, talvez fosse diferente, pois as transformações estão muito rápidas, mas o homem que entra no rio ainda possui o coração que bate no ritmo ancestral da natureza. Respeitar o tempo que as coisas “reais” levam para florescer é, talvez, o único modo de não sermos levados pela correnteza. No fim, a tecnologia acelera o caminho, mas a vida continua sendo sobre a travessia.