Seis autores foram convidados pela coluna Hit para escrever uma história que tenha o primeiro dia do ano como pano de fundo. Os parágrafos são assinados por Luiz Henrique Gurgel, professor, pesquisador, mestre em literatura brasileira pela USP, autor de “amores malfadados” e “Porque era ele, porque era eu e outras histórias”; Vanessa Wege, autora de “Fluir – Poesias ao fim do dia” e “Itabira, Pedra Natal”; Marina Ferreira, bacharel em turismo e participante da “Coletânea pets na poesia” e de “Itabira, Pedra Natal”; Pedro Drummond, artista visual, produtor cultural e curador do acervo literário de Carlos Drummond de Andrade; Alexandre Guarnieri, historiador da arte, poeta e autor de “Corpo de festim”, que lhe rendeu o Prêmio Jabuti. O epílogo coube a Daniel Cruz Fonseca, poeta, advogado e autor de “Nuvens reais”, “Alma riscada”, “Espaços liminares” e “Itabira, Pedra Natal”.
Feliz ano novo!

 

TÉDIO OU ESPERANÇA?

Cecilia não sabia bem se o que sentia era tédio de fim de ano ou um arremedo de esperança no futuro, do tipo “Próspero Ano Novo” que as pessoas e os calendários de farmácia costumam ostentar. De todo jeito, era preciso espantar a ambígua pasmaceira de sensações. Foi aí que um quase ânimo veio ao se lembrar do livro que acabara de ler.

. Luiz Henrique Gurgel

 

  

AUTOMATISMO

“Para fazer algo novo é preciso primeiro compreender os automatismos. Elevá-los a novas paragens pela mão estendida da consciência. Eis aí a chave, a fonte, o poder intuitivo.” As palavras do autor Glauber Oliveira conduziram Cecília a procurar o número da mãe de santo. A decisão foi reforçada pela lembrança da avó Maria Julieta: “A resposta estará nos búzios, minha filha.”

. Vanessa Wege

 

 

INTROSPECÇÃO

 

Mesmo com medo do futuro, vibrou ao encontrar o contato e se sentou na cama de sucupira pesada. Entre o impulso de ligar e a introspecção, pensou nos tropeços, fracassos, alegrias, amores e desamores do ano. Nesse turbilhão, lembrou-se do poema “Retrato”, um dia recitado para ela: “Eu não tenho este rosto de hoje, assim calmo, assim triste, assim magro, nem estes olhos tão vazios, nem lábios amargos.”

. Marina Ferreira

 

 

MEL E PACIÊNCIA

 

Maria Julieta ressurge: “Lembrança rima com esperança”. Escondida na biblioteca, uma agenda amarelada onde a avó anotou ingredientes de um coquetel para o ano novo: “Uma base de bom humor com uma colher de mel para adoçar a passagem do tempo, paciência com tolerância, para atenuar amarguras; gratidão pura pela resistência e uma discreta dose de nostalgia, o que dá um tom azulado ao aperitivo.” No rodapé, explica que os problemas do ano velho não acabam de repente, mas, após o brinde, teremos boa disposição para superá-los. E frisa: qualquer receita vale para enfrentar as dificuldades da vida, desde uma simples oração até um abraço de profundo amor. Cecília conclui que lembrança rima com esperança.

. Pedro Drummond

 

 

GIRA

 

Maria Julieta, nascida de um país ávido por tantos Brasis, desde pequena imersa nessa mistura de fés (um sem número de cruzes, de encruzilhadas, de possíveis encontros da umbanda com o candomblé, de giras, terreiros e missas), tendo experimentado tantas perdas amargas, extraiu da fé no Pai Guiné uma fonte para renová-la em seus votos pela melhoria das variadas áreas de sua vida, antes pálidas, depois aliviadas pela maravilha de estar livre e viva, de criar os filhos, até a chegada de Cecília, sua única neta, e considerada por ela sua joia e recompensa. Infelizmente, não conviveram o tanto que ela gostaria, mas o que ela jamais poderia imaginar é que sobreviveria firme na lembrança daquela criança. Hoje adulta (sua súplica transformada em música e júbilo), Cecília revive a leveza da avó (a palavra resiliência mal daria conta do recado) nessa página amarela de um caderno gasto e rasgado. Isso sim, talvez dê conta do recado. Cecília sorri ao considerar o fato: “Sim, claro que sim, a vovó está bem viva em mim”. E quase se ouve o som do brinde, tim-tim.

. Alexandre Guarnieri

 

 

NOVO ANO

 

Cecília ainda está sentada, a mão repousada sobre o papel. Não liga. O silêncio segue e, agora leve, tem cheiro de madeira e casa antiga. O pensamento respira a virada no samba lento do tempo. A agenda amarela permanece aberta, viva, e ela ergue uma taça imaginária para a avó. Do lado de fora, os fogos falham, se dispersam, brilham tortos no céu. Não há sinal algum e, mesmo assim, tudo foi respondido. O ser permanece. A madrugada clarea devagar. Cecília sorri e vê o ano começar ali, em movimento.

. Daniel Cruz Fonseca

 

 

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