O Brasil está derretendo, mas o alucinógeno maior para a dureza da realidade está de volta. Fim da “Data Fifa”! Ah, o futebol... O velho ópio do povo (velho, porque o novo é a terra sem lei das redes sociais).

E o Cruzeiro? Ah, o Cruzeirão... Era todo otimismo de mundo melhor, de mais amor e títulos em 2026. Era.. Também foi se derretendo. Mas, entregar os pontos? Ficar a lamentar a possibilidade de desilusão se concretizando? Jamais!

Pergunte ao Dudu se isso é possibilidade... No auge dos 102 anos de idade e paixão pelo Cabuloso, abandonar o seu amado time azul estrelado não passa por sua cabeça – ainda cheia de muita vida e desejosa de títulos.

Dudu nasceu em Itabirito, em 1924. Ainda menino, se mudou para Sabará. Lá, no estadinho da Praia do Ó, passou a acompanhar as pelejas do Siderúrgica. Apanhou gosto pelo azul e branco da camisa do Esquadrão de Aço. Vibrou muito com o título mineiro de 1937.

Alguns anos depois, quando atingiu a maioridade dos 18 anos, em meio à Segunda Guerra Mundial, chega pelo rádio a notícia de que o Palestra Mineiro, de Belo Horizonte, um dos principais rivais do seu Siderúrgica, mudaria de nome: Cruzeiro Esporte Clube. Foi quando tudo mudou...

Em 1943, o ex-Palestra, agora Cruzeiro, correu Minas Gerais com seu novo uniforme: camisa azul, com estrelas brancas bordadas na altura do peito. Dudu, que já admirava o então rival do Siderúrgica, se encantou perdidamente! Foi ali que se apaixonou pelo Cruzeiro para sempre!

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O cruzeirense Dudu é um dos personagens do projeto “Centenários”, do fotógrafo Leo Drumond, da produtora NITRO Histórias Visuais e da brilhante “escutadora-escritora” Carol Grohmann que, usando as linhas como artérias de um coração aberto ao desejo de contar histórias, assim escreveu sobre ele:

“Dudu ama a vida. Mas paixão, sem dúvida alguma, é pelo Cruzeiro. Em dias de jogo, o ritual é rígido: só assiste sozinho, fechado no quarto. Não aceita companhia. Acredita que qualquer um carrega o risco de ‘secar o placar’.

Posiciona-se diante da TV exatamente na direção do goleiro do seu time. No intervalo, acompanha a troca de lado. A camisa fica esticada sobre a cama; o boné muda de lugar conforme a zaga se move. “Isso ajuda na defesa”. Cruzeirense há mais de um século, sabe do que fala.

Nos dias sem jogos, a inquietude permanece. É falante, ativo, permanentemente preocupado com o outro. Como a saúde segue firme, Dudu opera na lógica de que ainda pode tudo o que fazia quando jovem, o que exige da família um estado constante de alerta.

Para chocar visitas desavisadas, chega a alcançar o telhado pela janela. Não toma remédios diários; usa apenas um colírio para a catarata. Diante da certidão e da lucidez, o espanto dos outros é sempre o mesmo: mais de cem anos, e tão bem?

Poucos calculam o custo de chegar inteiro a essa distância. Dudu é homem criado no início do século 20, forjado por um país e por um patriarcado brutais. Romper com essa herança não é sorte; é decisão diária.

Ao lado de Maria do Carmo, a Carminha, construiu, por 64 anos, uma casa pautada na escuta, recusando-se a repetir com os quatro filhos o peso do que já havia sofrido. Dudu reconhece o valor do respeito porque conhece a dor da falta dele. Aos mais de cem anos, a sua maior teimosia não é subir no telhado. É não ter deixado o tempo endurecer o coração.”

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Certamente, Dudu estará na torcida pelo Cruzeirão na peleja de logo mais, contra o São Paulo. Fica aqui um convite para depois dessa vitória (que virá!).

Você pode conhecer um pouquinho mais sobre esse secular cruzeirense na exposição “Centenários”, montada no Teatro Sesiminas (rua Padre Marinho, 60, Santa Efigênia, em Belo Horizonte) e com entrada gratuita, todos os dias da semana.

É um momento para, em meio ao caos, você perceber que não dá para desistir da vida, do Cruzeiro e do amor... Jamais! Nem que demore mais 100 anos para o mundo se recuperar do estrago que pode estar vindo por aí.

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