Perder, dói. Ser desclassificado, mais ainda. Vencer, alivia. Ser campeão, regozija. Mas é saudável viver em uma cíclica montanha-russa de sentimentos fugazes? Em outras palavras: vale a pena vender o almoço para comprar a janta e acordar sem dinheiro para o almoço e tampouco para o jantar?

O futebol, infelizmente, mudou para pior – e para sempre. A mercantilização do esporte; a transformação do “torcer” em “monetizar” e o alto custo da espetacularização das partidas e das arenas. São alguns fatores que fizeram com que a possibilidade de equilíbrio entre dinheiro e “amor à camisa” se esvaísse definitivamente.

Nunca mais... repito, NUNCA MAIS veremos um clube não-milionário vencer por duas temporadas seguidas torneios de longa duração, como o Campeonato Brasileiro, ou de alta intensidade, como a Copa Libertadores.

“Então basta ser milionário para conseguir essas duplas conquistas?” Há pouco tempo, talvez; hoje, não mais. Para conquistar um Brasileirão aqui ou uma Libertadores ali, uma bolada pode até funcionar, mas para se manter no alto da prateleira dos competidores por mais tempo, muito dinheiro por muito dinheiro não resolve mais.

Cobrar por conquistas imediatas, como se elas fossem o resultado matemático da soma das cifras milionárias investidas por sua SAF na contratação de jogadores caríssimos, é totalmente justo, desde que a cobrança não seja de forma raivosa e ou desprovida de uma análise mais profunda.

O cruzeirense não teria motivos ou direito de chegar ao final de 2026, celebrando o tri da Libertadores, o penta do Brasileirão ou hepta da Copa do Brasil? Resposta óbvia. Porém, para tanto, seria inteligente refletir, sem paixão cega, sobre uma segunda pergunta: mas a que custo?

Recentemente, clubes micromedianos em termos de significância desportiva, como o Botafogo e o Atlético de Lourdes, a partir de aportes milionários, conquistaram a Libertadores e o Brasileirão. Passados os resultados efêmeros, continuaram brigando pelos respectivos torneios nas temporadas seguintes? Não!

Por outro lado, quando se olha para os dois clubes que seguem empilhando conquistas sequenciais, atingiram o ápice e se mantiveram nele, se vê uma construção completamente diferente.

Tanto Palmeiras quanto Flamengo amargaram momentos terríveis desportivamente, fruto de altas dívidas e um completo desarranjo administrativo. O paulista caiu para a Série B. O carioca, desde a década de 1980 ajudado de forma imoral por políticos e pela mídia, só escapou por conta de um escândalo em 2013.

Porém, ambos se apoiaram na reorganização financeira e administrativa como primeiro passo para a “saída do buraco”. A saída mesmo; e não só uma temporária escapadinha.

Nunca nos esqueçamos que o Cruzeiro foi o clube brasileiro que viveu o mais profundo processo de destruição. Nenhum outro clube amargou a queda a partir de uma ação direta de uma quadrilha do crime organizado, combinado com a maior redução de receitas de cotas, além do fechamento dos estádios por conta da pandemia.

Tempos passados. Agora, tem recebido investimentos em cifras milionárias do dono de sua SAF. Voltou a conquistar um título nacional ou internacional? Não, mas queremos ser um Botafogo ou uma Turma do Sapatênis?

Podemos fechar 2026 sem um grande título, mas, analisando pragmaticamente e estrategicamente, isso realmente é o fato mais importante?

Campeões ou não, fecharemos duas temporadas com um elenco quase todo mantido; com os principais jogadores sendo cortejados no mundo inteiro; com venda de atletas por valores da prateleira de cima e uma administração preocupada com o médio e o longo prazo.

Não se trata de parar de cobrar. Mesmo porque, ser exigente está – e deve permanecer para sempre – no DNA do cruzeirense. Mas, ao cobrarmos, façamos a partir do ponto de vista de que não podemos ter um time de “um título só”. Nenhum clube realmente vitorioso vive de um almoço por semana.

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