Eles querem vingança. Para tanto, durante essa semana, fomentaram um clima para transformar a peleja de logo mais, no Maracanã, em um acerto de contas com a história, na qual (os flamenguistas sabem, mas não admitem publicamente) o Cruzeiro ocupa o papel de um justiceiro frente à clássica soberba do Flamengo – e da mídia que o sustentou por décadas.

Quando o apito inicial soar, se dará o ápice de uma guerra anunciada – ou fabricada por toda a corte serviçal do time carioca. Afinal, para eles, será inadmissível o Cruzeiro eliminar o “queridinho da mídia” em mais um embate em copas, sejam elas nacionais ou internacionais. Ainda mais agora no século 21, quando o clube carioca consolidou seu poderio econômico construído com cotas de TV desproporcionais aos demais clubes; patrocínios de estatais, quando isso não se fazia para todos, e o escandaloso esquema para salvá-lo do rebaixamento em 2013.

Tudo isso poderia resumir a história dos confrontos entre Cruzeiro e Flamengo ao ódio, à repugnância pela soberba ou a rivalidades fabricadas, como a “aldeia” tenta fazer com o seu time amado, o Atlético de Lourdes, eterno saco de pancadas e de chacotas flamenguistas.

Mas, não. No caso do Palestra/Cruzeiro e do Flamengo, a rivalidade é sadia há mais de 100 anos. Ela começa em 23 de setembro de 1923, apenas dois anos após uma torcida de operários e imigrantes italianos fundarem um time “para chamar de seu”: a Società Sportiva Palestra Italia.

Naquela tarde, o Flamengo (então campeão da Guanabara) foi elegantemente convidado para a inauguração do estadinho do Barro Preto, em Belo Horizonte. Ao final da partida festiva, um empate em 3 a 3, com dois gols de Ninão Fantoni e outro de Heitor.

Nas décadas seguintes, outras partidas ajudaram a consolidar o papel do Palestra/Cruzeiro como um adversário indigesto para o Flamengo. Em 1946, por exemplo, uma sonora goleada celeste por 5 a 1, novamente no Barro Preto. Duas décadas depois, em 1966, já no Mineirão, outra sapecada: 6 a 2, com direito a show de Tostão, autor de três tentos.

Somente a partir de 1967, o time carioca passa a beliscar alguns resultados positivos. Começa exatamente no primeiro confronto válido por campeonatos – até então, havia sido só por amistosos e torneios festivos. Pelo Roberto Gomes Pedrosa (o Brasileirão daquela época), os rubro-negros venceram a Academia Celeste por 2 a 0.

Desde então, a história dos confrontos entre o maior clube fora do Eixo RJ/SP, o Cruzeiro, e o time mais ninado pela mídia no Brasil, o Flamengo, mostra uma leve vantagem para os cariocas, quando o recorte são partidas válidas por campeonatos nacionais e internacionais. De acordo com estatística do site O Gol, foram 87 jogos, sendo 34 vitórias do Flamengo contra 29 do Cabuloso.

Apesar disso, quando o recorte se refere às decisões, é possível entender a origem dessa sede de vingança que orbita o confronto decisivo da noite de hoje pela Copa Libertadores.

Em 1974, o Cruzeiro sai vencedor do primeiro confronto decisivo entre os dois clubes. No triangular que indicaria o finalista do Campeonato Brasileiro daquele ano, o time celeste venceu por 3 a 1, em pleno Maracanã, e avançou para a final.

Disputas de títulos? Nesse caso, a soberba carioca se transformar em freguesia. O Cruzeiro Campeão já levantou duas Copas do Brasil em cima do Flamengo (2003 e 2017), com shows de Alex, Aristizábal e Fábio.

Ao longo dessa história, claro, houve reveses também pelo lado estrelado. Poucos, mas aconteceram: a eliminação na Supercopa dos Campeões da Libertadores e na Copa do Brasil, ambas em 1995.

Mas o que mais dói nos cornos e no nariz empinado rubro-negro foi a desclassificação pela Libertadores de 2018, quando a Nação Azul começou a mandar, inclusive, nas arquibancadas do Maracanã. Esse confronto tem motivado a sede por vingança construída em torno da partida de logo mais.

O ódio vencerá ou o Cruzeiro continuará sendo o justiceiro que torna soberba em freguesia? Que a noite seja estrelada!

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