As ruas ainda estavam repletas de papéis picados. Uns azuis, outros brancos. Algumas bandeirinhas, com marcas de lágrima nas suas hastes, ainda dependuradas nos galhos das árvores. Nas janelas das casas e prédios, do Aeroporto da Pampulha até o centro da cidade, faixas e bandeiras imensas. Ora com o escudo cravejado com as cinco estrelas e os dizeres “Cruzeiro Esporte Clube”, ora com a mensagem histórica “Somos o campeão da América”.
Era 1976. Exatamente 10 anos após apresentar Minas Gerais para o Brasil, o Cruzeiro colocava o estado no mapa da América do Sul. Por ironia do destino, logo ele, o clube dos operários e imigrantes que fundaram um time para chamar de seu; dos migrantes do interior, do Povo Mineiro.
O Cruzeiro era o time de Zé Paulo, migrante de Caiana e morador de Mariana. Esse cenário de pós-festa foi o que ele encontrou depois de sair da cidade histórica; subir a Serra da Santa; cruzar a Mutuca e adentrar Belo Horizonte, trazendo sua esposa, Lenita. No ventre dela batia o coração do primeiro filho deles, pronto para nascer (cruzeirense) em meio ao rescaldo das comemorações pela conquista da Taça Libertadores.
O vento ameno, de outrora, soprava a copa das árvores nas proximidades da Região Hospitalar da capital mineira. O ritmo frenético dos ônibus e dos trabalhadores voltando para casa ia minguando, enquanto os médicos se preparavam para a cirurgia. O relógio marcava 20h – de uma quinta-feira, 12 de agosto de 1976.
Faltava pouco para o menino nascer; mas não no desejo dos primos atleticanos que, na vigarice pueril da infância, torciam para demorar um pouco mais e o parto acontecer depois da badalada da meia-noite: seria sexta-feira 13... “Aí ele nasce lobisomem (e atleticano)”, fizeram figa, olhando para o relógio, na sala de estar, em Itaúna.
Assim como Joãozinho não esperou a volta final do ponteiro para liquidar o River Plate, no Chile, o menino rebentou serelepe às 20h30 de 12 de agosto mesmo. Não pariu lobisomem. Veio Raposa. A China Azul ganhou seu mais novo integrante.
De volta a Mariana, o menino foi enrolado no manto sagrado. Quando ainda só ensaiavada dar seus primeiros passos, alguns meses depois, já vestia short e camisa do Cruzeiro. Ao completar 10 anos, foi ao Mineirão pela primeira vez. Ao chegar aos 15, chorou copiosamente de amor ao ver a Nação Azul à sua volta, no Mineirão, celebrando a conquista da Supercopa dos Campeões da Libertadores de 1991, exatamente contra o River Plate.
Perto de completar 20 anos, correu por entre os papéis picados, bandeirinhas e bandeirões que recepcionavam o time campeão da Copa do Brasil 1996 – do Aeroporto da Pampulha à porta da Prefeitura, na Avenida Afonso Pena.
Um dia depois de celebrar seu 31º aniversário, na noite de 13 de agosto de 1997, reforçou os votos de “amor eterno” pela torcida do Cruzeiro ao vê-la festejar a conquista do bicampeonato da Libertadores, contra o Sporting Cristal.
Na noite de hoje, 12 de agosto de 2026, o menino celeste celebrará seu aniversário de 50 anos nas arquibancadas do Mineirão. “Branco, vai pedir uma vitória do Cruzeirão sobre o Flamengo como presente?”, meu pai me perguntou.
“Se vir, será um aniversário inesquecível! Mas, de verdade, nem precisa”, respondi, baixinho; para ele não escutar mesmo. E para não chorar, completei, apenas pensando comigo mesmo: “O maior presente da minha vida, você e Lenita me deram há 50 anos, naquela noite do rebento, quando passei a pertencer à torcida mais linda do mundo”.
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