Tirar uma camisa da gaveta seria um ato mecânico e banal, como tantos outros. Não fosse ela, azul, com uma constelação de estrelas bordadas na altura do peito. O sorriso largo no rosto de Ruy, parado em frente ao guarda-roupas, se explicava por esse detalhe.

Eram 13 horas. O horário lhe trouxe memórias dos tempos em que aproveitava o intervalo do almoço na empreiteira e corria até o estadinho do Barro Preto, em Belo Horizonte, para assistir aos treinos da Academia Celeste de Dirceu Lopes e Tostão, seus ídolos.

Com o Manto Sagrado nas mãos, passou rapidamente pelo escritório, onde os diplomas da brilhante carreira de engenheiro começavam a disputar o espaço das paredes com flâmulas e pôsteres do Cruzeiro. Pensou em vestir a camisa estrelada, mas foi vencido pelos efeitos da barriga cheia de rolinhos primavera, frango xadrez e carne de porco ao molho agridoce do almoço de domingo com a família no restaurante chinês.

Decidiu encostar o corpo no sofá. Os olhos, cerrando aos poucos. Ninados pelo barulho de um rádio ao longe. Lembrou da noite de 7 de dezembro de 1966, quando, trepado na cerca do curral da fazenda, em Governador Valadares, se livrou dos chiados e conseguiu escutar a narração da vitória sobre o Santos de Pelé por 3 a 2, no Pacaembu.

A lombeira, então, lhe venceu. Adormeceu o sono de um campeão brasileiro. Não vieram roncos. Mas, sim, uma explosão de sonhos.

No primeiro, o ombro ficou pesado. Nele, Ruy carregava o filho Renato. Eufórico, o garotinho, com 5 anos de idade, acenava para o escrete do Cruzeiro, que desfilava pela avenida Afonso Pena após conquistar o Campeonato Mineiro de 1977.

Ao passar pela sala, Myriam viu o marido remexer por entre as almofadas; levando uma mão ao ouvido, como se segurasse o gancho de um telefone imaginário. Dormindo, balbuciou: “Meu filho, comemora! Comemora! Isso aí é o nosso Cruzeiro”.

Do outro lado da linha de um telefone público, na região da Pampulha, Renato chorava, dividindo com o pai a emoção por ter saído do Mineirão como campeão da Supercopa dos Campeões da Libertadores. Era 1991. Batíamos o River Plate por 3 a 0.

Ruy se enroscou no braço do sofá. Em meio a outro sonho, se viu abraçado com Renato no Mineirão lotado pela China Azul. Era 2014. Sob chuva, comemoravam o tetracampeonato brasileiro, na vitória sobre o Goiás. “É, meu filho... São tantos títulos que estou tendo é hora extra de alegria com esse Cruzeiro.”

Ao invés de um ronco, Ruy suspirou e se encolheu no sofá. Agora, estava juntinho aos netos (todos cruzeirenses) e ao bisneto, assistindo o Cruzeiro marcar no último minuto e vencer o poderoso Flamengo de forma épica por 2 a 1, em março de 2025. Porém, a feição do rosto era de tristeza e dor. Mas por que, se aquele novo sonho era de completa alegria?

Assombrado, o menino Renato parou em frente ao sofá. Dos olhos adormecidos de Ruy, desciam lágrimas. O menino cutucou forte o pai, que deu um pulo. Acordou assustado da série de sonhos e pesadelos quando faltava apenas uma hora para começar o jogo no Mineirão.

Sempre dócil, se recompôs, sorriu para o filho e finalmente, vestiu o Manto Sagrado. “Tchau, meu amor!”. Despediu-se de Myriam e desceu em direção à garagem. Não deixou transparecer para a criança, mas estava atônito. “De onde vieram esses sonhos e pesadelos com jeito de déjà-vu?”, pensou, fingindo normalidade.

Ao ver Renato desconfiado, disfarçou: “Vou contar um segredo para você. Sonhei que o Cruzeiro vai ganhar hoje com gol do Joãozinho”. Renato mudou o semblante e estendeu as mãos para o pai. Entraram no carro e seguiram para o Gigante da Pampulha.

Era 6 de abril de 1980. O Cruzeiro venceu o Fluminense por 3 a 1. O terceiro tento foi de Joãozinho, o Bailarino da Toca. O gol mais bonito da história do Mineirão.

Todos os sonhos, premonições e pesadelos relatos, na verdade, aconteceram. Aquele Cruzeiro e Flamengo, de fato, foi a derradeira peleja de Ruy no Mineirão. Aos 82 anos, ele faleceu no dia 16 de julho de 2026.

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