“Vuelve! No te voy a dejar entrar.” Com os dentes rangendo, o oficial da imigração argentina, no Aeroporto Jorge Newbery, em Palermo, vidrou o olhar, encarando Marceleza e Rafa, ambos cobertos pelo manto sagrado do Cruzeiro. Era só uma pista da guerra preste a se iniciar em Buenos Aires.


Era sábado. Três dias antes da peleja entre Cruzeiro e Boca Juniors pela Libertadores. Apenas a primeira onda de cruzeirenses se derramava pela cidade do país vizinho. Outros 2.000 guerreiros celestes estavam a caminho. Prestes a darem início à Invasão Celeste, que irá escrever uma nova página histórica e imortal na noite de hoje, em La Bombonera.


“Soy Boca!”, sorriu timidamente – com desejo de poder verdadeiramente retê-los. Devolveu os passaportes a Rafa e Marceleza. Fez sinal para que os dois cruzeirenses adentrassem Buenos Aires, mas não sem atacar: “Boca: dos a cero.”


Horas e dias foram se passando. Ondas gigantes de um mar azul e branco de gente feliz iam se derramando pelas esquinas, bodegas, feiras e mercados da capital portenha. Em todos os lugares, dentes rangiam em direção aos cruzeirenses. Torcedores do Boca Juniors sedentos por vingança.


“El martes, todos vais a morir.” Ouvi de um torcedor odioso do Boca, incomodado com a figura de El Comandante Che Guevara no boné do Comando Guerreiro Eldorado (CGE), que eu levava à cabeça.


“Veremos! Cruzeiro vuelto para atormentarte.” Respondi com um sorriso leve e irônico de quem não se importa com o resultado da noite de hoje. A mim, me basta a dádiva de poder estar aqui, depois de sobreviver ao doloroso caminho percorrido desde a tragédia de 2019, sem jamais abandonar “mi amor eterno” – o Cruzeiro.


A cada provocação, mais uma leva de cruzeirenses se derramava pelas “calles” de Buenos Aires. Pelo céu, por terra ou cruzando o Rio da Prata, a Invasão Celeste foi ganhando contornos de muro de concreto. Pouco a pouco, a Nação Azul foi transformando a capital argentina em uma espécie de cidade do interior de Minas Gerais.


Não poderia faltar o “Bonde Mi Mariana Querida” a representar o nosso Bar do Celso (Fred, Cristiano, Isabela, Yuri, André Moycana, Felipe, Lucas, Rayane, Vinícius e Matheus). Do Biólogo Azul, Lucas Perillo, em Mataderos, a toda a “hinchada amiga” do San Lorenzo, em Boedo. De San Telmo a Almagro, se espalhou a Turma do Juca Boy (Pierre, Beto, Quick, Rafael, Bernardo, Caju e De Menor).


Pelo céu, o ídolo eterno e comandante de patente cinco estrelas, Leozinho, chegou trazendo sua Squadra Azurra com dezenas de apaixonados e apaixonadas pelo Time do Povo Mineiro, como a Samantha e a Letícia.


Os dentes rangidos e os olhares de ódio dos torcedores do Boca já avistavam, ao norte, o comboio da Motozeiros da TFC, da Máfia Azul, da Pavilhão Independente, da Comando Rasta, da Torcida Jovem e de tantas outras organizadas tomando as avenidas e comunas de Buenos Aires.


O grande dia chegou! La Invasión Celestial está acontecendo. O sentimento de orgulho por essa retomada histórica enche 2.000 corações celestes. O Cruzeiro está onde as veias abertas da América Latina sempre lhes guardaram morada: a prateleira dos mais temidos – e queridos.


Nessa noite gélida, às margens do Rio da Prata, uma La bombonera em guerra nos aguarda. Da esquina da Calabria com a Elvira Rawson de Dellepiane, nosso comboio partirá para guerrear, mas também para festejar, pois, para ser Cruzeiro, “hay que endurecerse sin perder la ternura jamás”. Daqui sairemos para sermos campeões – com certeza!

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