Daniel Kahneman, Prêmio Nobel de Ciências Econômicas em 2002, descreve o ruído, em “Ruído: Uma Falha no Julgamento Humano”, como a variação indesejada em julgamentos que deveriam ser iguais. E faz logo uma distinção entre viés e ruído: o Viés (bias) é um erro sistemático, quando um grupo tende a superestimar algo, e Ruído (noise) é um erro aleatório onde cada pessoa julga de um jeito diferente, sem padrão.

Nate Silver, em “O Sinal e o Ruído”, aborda a questão a partir de uma outra perspectiva: temos muitos dados, mas pouca capacidade de separar o que realmente importa (o sinal) do que é só confusão, acaso e distorção (o ruído). Se o Sinal é informação relevante, que ajuda a prever e entender a realidade, o Ruído são dados dados enganosos, aleatórios ou irrelevantes, que atrapalham o julgamento.

Ao mesmo tempo, em “Os Engenheiros do Caos”, Giuliano da Empoli investiga como estratégias de manipulação emocional e algorítmica estão sendo usadas para radicalizar opiniões, mobilizar massas pelas redes sociais e destruir consensos democráticos. A ideia-chave é que não se governa mais pelo consenso racional, mas pelo conflito emocional, através da exacerbação das diferenças (aquilo que nos divide) e da instilação de ressentimento entre os “grupos de afinidade”.

É a versão moderna da principal diretriz do império romano, “dividir para conquistar” (divide et impera em latim), e tem sido a pedra angular de impérios e ditadores para dominar povos conquistados e sua população, estimulando rivalidades locais.

Além da arena política, nenhum outro campo do conhecimento humano, no Brasil, está tão dominado e atado a ideias ruins, predominância de ruído e viés ideológico do que o planejamento urbano. No Brasil, é possível que Belo Horizonte seja o exemplo mais impactante e acabado dessa prevalência (idéias ruins, predominância de ruído e viés ideológico) - em oposição ao conhecimento empírico mundial, e à lógica.

Lá se vão 40 anos de políticas públicas promovendo o desadensamento geral, o esvaziamento das regiões centrais (a com melhor infraestrutura da cidade), o espalhamento pelo território, e a expulsão da camada mais pobre e necessitada para outros municípios.

É segregação social e criação de bolsões de pobreza como política pública, obrigando os mais necessitados a trajetos de 2, 3 horas para o trabalho. Somando ida e volta, são 20% das horas de cada dia sacolejando de um lado para outro, apenas para transitar entre casa e trabalho.

À segregação, some-se a crueldade de afastar essas pessoas, jovens, adultos e idosos, das áreas de lazer, dos equipamentos culturais, das melhores escolas, das universidades, hospitais e dos empregos. A segregação deixa de ser pontual, temporária, para se configurar geracional, quase inescapável.

A saída implementada pelas cidades mundo afora, testada e consagrada, é sempre a mesma: olhar para as áreas centrais, dotadas da melhor infraestrutura, e promover o retorno das moradias, o readensamento, a revitalização, em processos de regeneração urbana.

A lógica é tão simples quanto eficaz: a cidade já está aí, a região central já tem infraestrutura, mas está degradada há décadas. Se trazemos a população de volta, e em grande volume, reabilitamos a zona central, economizamos em infraestrutura, em manutenção, na segurança pública e no transporte público.

Nesse ponto, há 2 caminhos: fazer com recursos públicos, ou chamar o mercado imobiliário e os incorporadores a participar, movimentando o motor da regeneração. Fazer com recursos próprios exige… recursos (muitos recursos), capacidade de mobilização, de execução e tempo. Chamar a iniciativa privada só exige… legislação incentivando e a concessão de benefícios que convençam o empreendedor privado a correr o risco numa área da cidade que não desperta o interesse do mercado imobiliário.

Não há cidade no planeta que tenha optado por fazer tudo sozinha, e com recursos próprios. Quando muito, o poder público faz junto com a iniciativa privada em alguns empreendimentos específicos, tipicamente aqueles voltados para públicos específicos (idosos, baixa renda, residência temporária para imigrantes).

A Prefeitura de Belo Horizonte, atualmente em linha com o que há de mais moderno e inteligente em termos de regeneração das áreas centrais no planeta, preparou o Projeto de Lei 574/2025, em tramitação na Câmara Municipal, criando um perímetro de interesse para (re)desenvolvimento imobiliário prioritário.

O perímetro do Projeto de Lei abarca bairros da região central que são, ao mesmo tempo, dotados da melhor infraestrutura, e de baixa (baixíssima) densidade. Ao chamar a iniciativa privada a participar do movimento de readensamento, a Prefeitura concede os benefícios necessários (sem os quais a iniciativa privada não acompanha), mas propõe algo inédito: quanto mais rápido os novos empreendimentos surgirem, maior o benefício; quanto mais demorados, menor os benefícios, até que não haja mais benefícios. Afinal, os resultados só importam se vêm no tempo certo.

É preciso entender, para além do ruído, do viés e da manipulação da opinião pública, que a Prefeitura não está “distribuindo dinheiro”, “dando presentes” ou “ajudando o empresariado”, porque sem alguma isenção, contrapartida, ou benefício urbanístico, a zona central permanecerá como se encontra hoje: degradada, vazia, com baixa densidade, muitos prédios vazios ou subutilizados, subaproveitada, e com o comércio local sofrendo e os serviços se mudando.

A população mais carente - e seus jovens - também permanecerão sendo expulsos da cidade, morando a 2, 3 horas de distância, nas bordas da região metropolitana, em conjuntos habitacionais de baixa qualidade, verdadeiras “não-cidades”, e sem acesso a oportunidades de integração e melhoria.

Se, por alguma razão, você ainda não entendeu a conexão entre Kahneman, Silver, da Empoli, ruído, sinal, viés, engenharia social, manipulação e divisionismo, eu explico: as redes têm sido entulhadas, num tsunami midiático, por posts, entrevistas, declarações e informações distorcidas (quando não abertamente falsas) sobre o Projeto de Lei, seus objetivos, estudos e resultados esperados, tentando “colar” aquela coisa velha, carcomida (mas que gera dividendos políticos e financeiros para quem propaga), de que seja uma encomenda, e que venha para beneficiar empresários. Pior (ou ainda mais tolo), a aprovação do Projeto de Lei visa transferir recursos dos pobres para os ricos.

Nem precisava, mas não custa enfatizar: a Prefeitura não abrirá mão de arrecadação, porque não existe arrecadação sobre o que não é executado, construído ou incorporado. Um Centro vazio não traz novos empreendimentos, e não gera arrecadação para a Prefeitura. Negócios que fecham (ou se mudam para outros municípios) não geram arrecadação para a Prefeitura; ao contrário, reduzem.

Por outro lado, também não custa perguntar: se a criação de moradias nas zonas centrais reverte a expulsão das pessoas para as bordas da cidade e o espalhamento, quebra a segregação, cria oportunidades para pessoas mais pobres, oferece imóveis com preços acessíveis e bem localizados, e ainda ajuda a regenerar o Centro, aliviar o trânsito e melhorar segurança pública, por que esses “movimentos” colocam tantos impedimentos, e divulgam tanta desinformação?

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

Não custa perguntar: qual é a verdadeira agenda aqui?

compartilhe