O modelo de proteção veicular por meio de associações e cooperativas não é exatamente uma novidade em Belo Horizonte, mas tem ganhado força expressiva nos últimos anos. Baseado no conceito de mutualismo, onde um grupo de pessoas se une para dividir riscos e despesas, esse sistema tem atraído motoristas que buscam alternativas mais acessíveis para proteger seus veículos.
"A essência do nosso trabalho é a solidariedade entre os associados. Todos contribuem com um valor mensal e, quando algum associado sofre um sinistro, o fundo comum é utilizado para cobrir os prejuízos", explica Luiz Henrique Martins, presidente de uma das maiores associações de proteção veicular da capital mineira.
De acordo com um levantamento recente da Associação Comercial e Empresarial de Minas Gerais, existem atualmente cerca de 250 associações e cooperativas de proteção veicular operando na região metropolitana de Belo Horizonte, atendendo aproximadamente 600 mil veículos.
O fator econômico
Um dos principais atrativos da proteção veicular é o fator econômico. Em média, os valores praticados pelas associações são entre 30% e 50% menores que os dos seguros tradicionais, segundo pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisas Econômicas e Administrativas (IPEA).
Para a dona de casa Marina Oliveira, moradora do bairro Castelo, a economia foi determinante na escolha: "Eu pagava quase R$ 2.800 por ano no seguro do meu carro. Na associação, estou pagando R$ 1.400 anualmente, com coberturas muito semelhantes."
Essa diferença significativa de valores é possível por diversos fatores. As associações não estão submetidas à mesma carga tributária das seguradoras, não precisam manter as mesmas reservas técnicas exigidas pela SUSEP (Superintendência de Seguros Privados) e, teoricamente, não visam lucro, apenas a cobertura dos custos operacionais e a formação de um fundo para pagamento de sinistros.
No entanto, especialistas alertam que valores muito abaixo da média de mercado podem indicar problemas. "Associações que praticam valores excessivamente baixos podem não ter condições de formar um fundo robusto o suficiente para cobrir sinistros em momentos de pico", adverte o economista Rafael Campos, especializado em análise de riscos.
Questões jurídicas e regulatórias
Um dos maiores desafios enfrentados pelo setor de proteção veicular em Belo Horizonte, assim como em todo o Brasil, é a falta de um marco regulatório específico. Por não se enquadrarem na definição legal de seguradoras, as associações operam em um território jurídico ainda não completamente definido.
Em 2020, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) reconheceu a legalidade da atuação das associações de proteção veicular, desde que operem exclusivamente com seus associados e não visem lucro. No entanto, a ausência de uma regulamentação mais detalhada ainda gera insegurança jurídica.
"Precisamos de regras claras que garantam a proteção do consumidor sem inviabilizar um modelo que tem beneficiado tantas pessoas", defende o advogado Carlos Eduardo Braga, especialista em direito do consumidor.
Em Belo Horizonte, a Câmara Municipal tem discutido projetos de lei para estabelecer critérios mínimos de funcionamento para associações com sede na cidade. Um desses projetos prevê a criação de um cadastro municipal de associações, com exigências de capital mínimo, transparência na gestão e auditorias independentes.
"A regulamentação municipal pode ser um caminho importante para distinguir associações sérias daquelas que não oferecem segurança aos associados", avalia a vereadora Beatriz Campos, uma das autoras do projeto.
Qualidade dos serviços
A variação na qualidade dos serviços prestados pelas diferentes associações é outro desafio significativo do setor. Enquanto algumas entidades investem em tecnologia, equipes qualificadas e processos eficientes, outras operam de forma precária, gerando insatisfação entre os associados.
O Procon de Belo Horizonte registrou um aumento de 27% nas reclamações relacionadas a associações de proteção veicular no último ano. As principais queixas referem-se a demora no atendimento de sinistros, falta de clareza no regulamento interno e dificuldades para utilizar os serviços contratados.
Para mitigar esses problemas, algumas associações têm buscado certificações de qualidade e implementado ouvidorias para atender as demandas dos associados. "Investimos em treinamento contínuo da nossa equipe e em sistemas que agilizam o processo de atendimento. Nosso tempo médio para autorização de reparos é de 48 horas", destaca Renata Gomes, diretora operacional de uma associação com mais de dez anos de atuação na capital mineira.
A advogada especialista em direito do consumidor, Luciana Vaz, recomenda que os interessados em aderir a uma associação verifiquem sua reputação no mercado, tempo de existência, estrutura física e organizacional, além de buscar referências de outros associados. "É importante também ler atentamente o regulamento interno, pois é ele que definirá as regras de cobertura e utilização dos serviços", orienta.
Inovação e tecnologia
Em meio aos desafios, o setor de proteção veicular em Belo Horizonte também apresenta oportunidades significativas, especialmente no campo da inovação e tecnologia. Algumas associações têm se destacado pelo uso de ferramentas digitais para melhorar a experiência dos associados e reduzir custos operacionais.
A implementação de aplicativos para smartphones, por exemplo, tem revolucionado o relacionamento com os associados. "Através do nosso aplicativo, o associado pode solicitar assistência, enviar fotos em caso de sinistro, acompanhar o status do seu processo e até mesmo pagar suas mensalidades", explica Pedro Henrique Santos, diretor de tecnologia de uma associação com sede no bairro Funcionários.
O uso de telemática – tecnologia que combina telecomunicações e informática – também tem sido adotado por associações mais inovadoras. Dispositivos instalados nos veículos coletam dados sobre o comportamento do motorista, permitindo a criação de programas de bonificação para associados que apresentam direção mais segura.
"Associados que mantêm bons hábitos de direção, como respeitar limites de velocidade e não fazer manobras bruscas, podem ganhar descontos nas mensalidades", explica o engenheiro de dados Marcelo Rocha, responsável pelo desenvolvimento de um desses sistemas.
Impacto social e econômico
Além de oferecer uma alternativa mais acessível para proteção de veículos, as associações têm gerado impacto social e econômico significativo em Belo Horizonte. Juntas, elas são responsáveis pela geração de aproximadamente 5 mil empregos diretos e indiretos, segundo estimativas da Federação das Associações de Proteção Veicular de Minas Gerais (FAPVEMG).
"São postos de trabalho distribuídos por toda a cidade, desde o centro até regiões periféricas, contribuindo para a descentralização do desenvolvimento econômico", ressalta João Paulo Mello, presidente da FAPVEMG.
Além disso, muitas associações desenvolvem programas sociais nas comunidades onde estão inseridas. "Parte dos recursos arrecadados é destinada a projetos sociais, como cursos profissionalizantes para jovens em situação de vulnerabilidade e campanhas de segurança no trânsito nas escolas públicas", conta Sandra Mendes, diretora social de uma cooperativa com sede na região norte da cidade.
## Tendências e perspectivas
Para os próximos anos, especialistas apontam algumas tendências para o setor de proteção veicular em Belo Horizonte. A primeira delas é a consolidação do mercado, com fusões e aquisições entre associações, formando entidades mais robustas e profissionalizadas.
"É natural que ocorra uma concentração do mercado, com associações maiores absorvendo operações menores para ganhar escala e eficiência", prevê o consultor de mercado Alexandre Ribeiro.
Outra tendência é a diversificação dos serviços oferecidos. Além da proteção básica contra roubo, furto e colisão, muitas associações estão agregando benefícios como descontos em postos de combustível, estacionamentos, oficinas mecânicas e até mesmo serviços de telemedicina para os associados e seus familiares.
"O futuro da proteção veicular está na criação de ecossistemas de serviços que atendam às necessidades do associado em diferentes aspectos relacionados à mobilidade e bem-estar", projeta a consultora de inovação Daniela Prado.
A eventual regulamentação do setor a nível federal também deve trazer mudanças significativas. Projetos de lei que tramitam no Congresso Nacional visam estabelecer um marco regulatório específico para as associações de proteção veicular, definindo requisitos mínimos de capital, governança e transparência.
"Uma regulamentação equilibrada pode trazer mais segurança jurídica para o setor sem comprometer sua viabilidade econômica", avalia o advogado especializado em direito regulatório, Fernando Maia.
Orientações para os consumidores
Diante da complexidade do setor, especialistas em defesa do consumidor oferecem algumas orientações para quem considera aderir a uma associação de proteção veicular em Belo Horizonte:
1. Pesquise a reputação da associação no Procon, Reclame Aqui e outros canais de defesa do consumidor.
2. Verifique quanto tempo a associação está no mercado e se possui sede física estruturada.
3. Leia atentamente o regulamento interno, especialmente as cláusulas sobre cobertura, prazos para indenização e procedimentos em caso de sinistro.
4. Confira se a associação realiza assembleias regulares com os associados e se possui canais eficientes de comunicação.
5. Desconfie de valores muito abaixo da média de mercado, pois podem indicar insustentabilidade financeira.
6. Busque referências de outros associados, especialmente sobre experiências em situações de sinistro.
"A escolha de uma associação de proteção veicular deve ser feita com o mesmo cuidado que qualquer decisão financeira importante", recomenda a economista e educadora financeira Patrícia Lemos.
Em um cenário urbano desafiador como o de Belo Horizonte, com seus mais de 1,8 milhão de veículos, intenso trânsito e áreas com altos índices de criminalidade, a proteção veicular seguirá sendo uma necessidade para os motoristas. O desafio está em encontrar o equilíbrio entre custo acessível e segurança jurídica e financeira, beneficiando tanto os consumidores quanto o mercado como um todo.
