Você abre o aplicativo do banco só para conferir o saldo. Antes de o número aparecer, surge um botão colorido: “R$ 8.000 disponíveis para você. Contrate em dois cliques”. Ninguém perguntou se você precisava. Ninguém mostrou, na mesma tela, quanto aquilo vai custar.
Esse tipo de oferta virou rotina para milhões de brasileiros. E agora entrou na mira do Banco Central.
Em 24 de setembro, o presidente do BC, Gabriel Galípolo, resumiu a preocupação da instituição: “estamos preocupados com oferta de crédito agressivo ou até predatório”. O BC prepara normas para a oferta digital de crédito, com foco nas propostas de pré-aprovado em destaque nos aplicativos, na proteção de clientes vulneráveis e até na publicidade de bets dentro de apps financeiros.
A pergunta que importa é outra: o que isso muda no seu bolso? E o que dá para fazer hoje, antes de qualquer regra nova sair do papel?
O que é crédito predatório e por que o Banco Central está preocupado?
Não existe, na lei brasileira, uma definição fechada de “crédito predatório”. Na prática, o termo descreve a oferta de empréstimo que interessa mais a quem empresta do que a quem toma. É o crédito caro, sem garantia, oferecido com insistência a quem já tem dificuldade de pagar.
Pense num garçom que oferece a sobremesa justamente para quem acabou de sair da consulta com o nutricionista. Ele não obriga ninguém. Mas sabe exatamente quando e como insistir.
Os números explicam a preocupação. Segundo o Relatório de Política Monetária divulgado pelo BC em setembro:
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as famílias comprometeram 28,9% da renda com o pagamento de dívidas em junho, o maior nível da série histórica;
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o endividamento chegou a 49,9% da renda em janeiro, também recorde;
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a inadimplência no crédito livre para pessoas físicas estava em 7,8% em julho.
No cartão, o quadro é pior. Galípolo citou uma inadimplência de 65% no rotativo e resumiu: “um produto com 65% de inadimplência tem problema de design”. Dados do BC divulgados pela Folha de S.Paulo indicam que, de cerca de 96 milhões de usuários de cartão, 52,8 milhões carregam dívida com juros, no rotativo ou no parcelado.
Para ter uma ideia do que significam 28,9%: numa família com renda de R$ 5.000, seriam R$ 1.445 por mês indo para parcelas e juros antes do mercado, do aluguel e da conta de luz (conta ilustrativa).
Quais regras o Banco Central prepara contra o crédito predatório?
O BC ainda não publicou as normas nem divulgou datas. O que se sabe vem de declarações de diretores e de reportagens da Folha e do Valor Econômico. As frentes em estudo são quatro.
Crédito pré-aprovado em destaque no aplicativo
O primeiro alvo é a tela inicial dos apps. Ofertas de valores altos, em cores chamativas, aparecem antes de qualquer informação sobre juros. O BC avalia limites e condições para esse tipo de proposta. Também preocupa a sequência de telas rápidas, que pode levar o cliente a contratar sem perceber, mesmo quando o banco cumpre formalmente as regras de transparência.
Galípolo falou em “criar atrito na experiência”. Na prática, pode ser uma pausa obrigatória antes de fechar o contrato. É o equivalente digital de contar até dez antes de responder a uma mensagem irritante.
Proteção ao consumidor vulnerável
O conceito de vulnerável em discussão vai além da renda baixa. Inclui quem tem pouca familiaridade com tecnologia ou com finanças e quem tende a aceitar propostas sem entender juros e tarifas. Uma das ideias é exigir uma espécie de autorização prévia antes de oferecer crédito de alto risco a pessoas superendividadas. Galípolo citou como referência Singapura, onde o banco central define quem pode ter cartão de crédito.
Publicidade de bets dentro do app do banco
Outro ponto sensível é a propaganda de apostas online dentro de aplicativos financeiros. Para o BC, há conflito entre empurrar o cliente para a bet e o dever da instituição de zelar pela saúde financeira dele.
Mais capital para cartão e crédito pessoal
A quarta frente é menos visível para o consumidor, mas pode ter efeito grande. O BC estuda elevar o fator de ponderação de risco (FPR) das operações de cartão e de crédito pessoal sem consignação. Em português: os bancos teriam de reservar mais capital para cada real emprestado nessas linhas. Crédito que exige mais reserva tende a ser oferecido com mais critério.
Quanto custa cair numa oferta de crédito predatório?
Para entender por que o BC quer frear essas ofertas, vale fazer as contas. Os exemplos abaixo são ilustrativos e usam médias divulgadas pelo Banco Central.
Rotativo do cartão: a dívida que dobra em cinco meses
O juro médio do rotativo chegou a 444,9% ao ano em agosto, segundo o BC. Em termos mensais, dados citados pela Folha apontam taxa média de 15,1% ao mês.
Fiz a conta para uma fatura de R$ 1.000 que fica no rotativo, sem nenhum pagamento:
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depois de 1 mês: R$ 1.151,00;
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depois de 3 meses: R$ 1.524,85;
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depois de 5 meses: R$ 2.020,12.
Em cinco meses, a dívida passaria do dobro. Só não vai além disso por causa da Lei 14.690/2023, que, desde janeiro de 2024, limita juros e encargos do rotativo e do parcelado a 100% do valor original da dívida. Quem deve R$ 1.000, portanto, não pode ser cobrado em mais de R$ 1.000 de juros e encargos. O teto ajuda. Mas pagar o dobro do que se comprou continua sendo um péssimo negócio.
Crédito pessoal pelo app: o peso da parcela
Agora imagine que você aceita o pré-aprovado de R$ 5.000 do aplicativo, em 12 parcelas. Com a taxa média de 149,5% ao ano do crédito pessoal não consignado citada pela Folha (cerca de 7,9% ao mês), a parcela ficaria em torno de R$ 660,62. No fim, você pagaria aproximadamente R$ 7.927, ou quase R$ 2.930 só de juros.
A parcela cabe com facilidade num anúncio. O total quase nunca aparece com o mesmo destaque. É esse descompasso que uma pesquisa recente encontrou nos aplicativos.
O que a pesquisa nos aplicativos de bancos revelou sobre a oferta de crédito?
Um levantamento do FGVcemif com o Plano CDE analisou 15 aplicativos de bancos tradicionais e fintechs. A conclusão: as fintechs fazem ofertas de crédito mais agressivas, com estratégias de economia comportamental. Em muitas ofertas, não ficava claro o valor total liberado nem a taxa de juros.
Lauro Gonzalez, do FGVcemif, comparou a lógica de incentivos de algumas plataformas à das apostas online. A comparação é forte, mas faz sentido. Os dois modelos apostam em recompensa imediata, poucos cliques e pouca reflexão.
Economia comportamental, aqui, quer dizer usar os atalhos da nossa mente a favor da venda. Um botão grande e verde para “contratar”. Um link pequeno e cinza para “ver condições”. Um aviso de que a oferta “expira hoje”. Ninguém mente. Mas o caminho é desenhado para você não parar para pensar.
As novas regras do BC vão dificultar o acesso ao crédito?
Para algumas pessoas, sim. E esse é o dilema.
Restringir a oferta de crédito caro pode deixar sem alternativa quem usa o cartão ou o empréstimo pessoal para fechar o mês. O risco é empurrar parte dessas pessoas para fora do sistema financeiro, onde o dinheiro é ainda mais caro e perigoso, como na agiotagem.
Ao mesmo tempo, o governo amplia programas de crédito e de renegociação de dívidas. O BC age em outra ponta: não quer acabar com o crédito, e sim reduzir a oferta empurrada a quem não tem como pagar.
Na minha avaliação, a medida mais útil para o consumidor seria também a mais simples: obrigar o banco a mostrar o custo total com o mesmo destaque do valor liberado. Essa informação já existe. Ela se chama Custo Efetivo Total (CET) e precisa ser informada antes da contratação. O problema é que costuma ficar a alguns toques de distância do botão de contratar.
Vale lembrar: não há prazo para as regras saírem. Galípolo disse que as medidas serão graduais e que “independem do momento de ciclo econômico”.
Conclusão: como se proteger do crédito predatório antes das novas regras
Você não precisa esperar o Banco Central para criar o seu próprio atrito. Algumas atitudes fazem diferença:
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Desconfie do pré-aprovado. Ele mostra quanto o banco aceita emprestar, não quanto você consegue pagar.
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Procure o CET antes de contratar. É ele que revela o custo real, com juros, tarifas, seguros e impostos.
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Olhe o total, não a parcela. Multiplique a parcela pelo número de meses e compare com o valor que vai receber.
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Crie a sua pausa. Combine consigo mesmo esperar 24 horas antes de aceitar qualquer crédito oferecido no app.
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Saia do rotativo o quanto antes. Se não der para pagar a fatura inteira, compare o parcelamento da fatura com opções mais baratas, como o consignado, se você tiver acesso a ele.
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Reduza as tentações. Veja se o seu aplicativo permite desativar notificações de ofertas e marketing.
Já está superendividado? Os primeiros passos
Se as parcelas já tomaram conta do orçamento, a Lei do Superendividamento (Lei 14.181/2021) garante o direito de pedir a repactuação das dívidas de consumo, preservando um mínimo existencial para as despesas básicas. O pedido pode ser feito na Justiça, que reúne os credores para negociar um plano de pagamento único. Muitos Procons também fazem esse tipo de mediação.
Antes de tudo, faça uma lista com todas as dívidas: valor, juros e parcela. Depois, ataque primeiro as mais caras, como o rotativo do cartão e o cheque especial.
O Banco Central pode até tirar o botão colorido da tela inicial. Mas a decisão de apertar “contratar” vai continuar sendo sua. E crédito bom é aquele que você procura, não aquele que procura você.
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