Por Alexia Diniz
O governo federal lançou, em 29 de junho de 2026, mais uma etapa da sua estratégia de crédito popular, o Desenrola Adimplentes. A ideia parece simples, ajudar trabalhadores informais que pagam suas contas em dia, mas não conseguem acesso a crédito mais barato por não terem carteira assinada. Na prática, o programa só saiu do papel porque Caixa e Banco do Brasil aceitaram entrar sozinhas na operação, depois que os grandes bancos privados recusaram participar.
É como uma empresa que lança um produto e convida seus principais parceiros para distribuí-lo. Se as condições forem pouco atrativas, os parceiros dizem não, mesmo que o produto seja bom para o consumidor final. Foi mais ou menos isso que aconteceu aqui, o governo desenhou uma linha de crédito com juros baixos, mas os bancos privados calculam que o retorno não compensa o esforço operacional.
O que é o Desenrola Adimplentes?
O programa é voltado a trabalhadores autônomos e informais que já pagam suas dívidas em dia ou estão com atraso de até 90 dias. A pessoa pode trocar um empréstimo mais caro por outro mais barato, com juros travados em no máximo 1,99% ao mês, até o limite de R$ 15 mil por operação, apenas para crédito pessoal não consignado. Carteira assinada, aposentados, pensionistas e servidores públicos ficam de fora.
Para entender melhor, vamos colocar números na ponta do lápis, como faria um consultor financeiro na frente do cliente. Imagine o Marcos, motorista de aplicativo, que pegou um empréstimo pessoal de R$8 mil há alguns meses, pagando 7% de juros ao mês. Nesse ritmo, só de juros ele paga cerca de R$560 por mês, antes mesmo de abater qualquer parte do valor emprestado. Se o Marcos se enquadra nas regras do Desenrola Adimplentes, ele pode levar esse mesmo contrato até a Caixa ou o Banco do Brasil e trocá-lo por um novo, com juros de no máximo 1,99% ao mês. Sobre os mesmos R$8 mil, isso representa cerca de R$ 159 de juros por mês. Na prática, o Marcos passa a economizar por volta de R$400 todo mês, só de juros, dinheiro que pode ir para o abastecimento do carro, para a manutenção do veículo ou para guardar de reserva.
Bancos privados recusam Desenrola Adimplentes
Segundo reportagem do jornal O Globo, replicada por outros veículos, os bancos privados avisaram ao Ministério da Fazenda que o programa exige muito esforço operacional para um retorno financeiro considerado baixo. Voltando ao exemplo do Marcos, no empréstimo antigo, de 7% ao mês, o banco ganhava cerca de R$560 por mês em juros. No novo contrato, de 1,99% ao mês, esse ganho cai para cerca de R$159 por mês, uma queda de quase 72% na receita daquele contrato específico. O banco continua tendo que analisar a renda do Marcos, checar se ele realmente paga as contas em dia, formalizar o novo contrato e assumir o risco de inadimplência, só que ganhando bem menos por isso.
É como uma consultoria convidada para um projeto que exige equipe grande e muita burocracia, mas paga honorário bem abaixo do mercado. Se antes cobrava R$50 mil por um projeto desse porte e agora o cliente só topa pagar R$15 mil pelo mesmo volume de trabalho, a maioria das empresas prefere recusar, mesmo sabendo que o projeto é importante.
A Febraban confirmou essa leitura. Em nota, a entidade afirmou que a adesão é facultativa e que cada instituição vai avaliar aspectos como políticas de crédito, critérios de risco e viabilidade econômica antes de decidir se participa. Ou seja, cada banco tem liberdade para entrar ou não, e a federação já sinalizou que espera baixa adesão do setor privado.
Instituições como Itaú Unibanco, Bradesco e Nubank, segundo apurações do setor, estão avaliando os impactos financeiros de trocar contratos que já vêm sendo pagos normalmente pelos clientes por novos contratos com taxas menores. Pense assim, um banco com 100 mil clientes autônomos pagando em dia um empréstimo com taxa média de 6% ao mês. Se todos migrarem para o programa, com taxa de 1,99% ao mês, o banco deixa de arrecadar boa parte da receita de juros que já estava garantida, sem ganhar nenhum cliente novo em troca, já que são pessoas que já eram clientes e já pagavam certinho.
Onde contratar o Desenrola Adimplente?
Diante da recusa do setor privado, o governo recorreu à Caixa e ao Banco do Brasil para bancar a operação. Segundo apurações do mercado, o Palácio do Planalto pressionou as duas instituições públicas a aceitarem os riscos da linha, mesmo com a resistência inicial do mercado financeiro.
É uma lógica conhecida em projetos públicos. Quando uma política não encontra adesão espontânea do setor privado, o governo usa as empresas que ele mesmo controla para colocar o projeto de pé, como um dono de empresa que, sem conseguir convencer fornecedores externos, decide usar sua própria fábrica para entregar o que precisa, mesmo com menor margem de lucro.
Até o momento, apenas Caixa e Banco do Brasil confirmaram participação. Isso significa que, na prática, quem quiser aderir ao Desenrola Adimplentes hoje só consegue fazer isso por meio dessas duas instituições.
Quanto o Desenrola custa para o governo?
O programa tem custo estimado de R$4 bilhões para os cofres públicos, sendo R$3 bilhões para o Desenrola Adimplentes e R$1 bilhão para o Fies Empreendedor, linha lançada junto e voltada a quem paga financiamento estudantil.
O governo classifica esses valores como despesa financeira, não como despesa primária. Na prática, o gasto não entra na conta que mede o resultado das contas públicas, usada para avaliar o cumprimento da meta fiscal, uma distinção técnica que gera debate entre economistas, já que o dinheiro sai do Tesouro Nacional de qualquer forma.
O secretário do Tesouro, Dario Durigan, rebateu críticas de que o programa poderia atrapalhar a política monetária do Banco Central, já que a linha atua sobre contratos que já existem e que já vêm sendo pagos normalmente.
Bancos no Desenrola Adimplentes
Bancos de investimento internacionais também avaliaram os efeitos do programa sobre o setor financeiro. Segundo análise do UBS BB, o Desenrola Adimplentes é voltado a pessoas com empréstimos em dia ou com atraso de até 90 dias, com garantia do Fundo Garantidor de Operações. Já o JPMorgan chamou atenção para um ponto sensível. As garantias adicionais do programa reduzem o risco da operação para o banco, mas o teto de juros de 1,99% ao mês pressiona a receita das instituições que decidem participar.
O JPMorgan também aponta uma preocupação mais ampla. A sequência de programas de renegociação lançados nos últimos meses, voltados a inadimplentes, pequenas empresas, estudantes, produtores rurais e agora também clientes em dia, levanta questões sobre o chamado risco moral. É o mesmo raciocínio de um pai que sempre paga a multa de trânsito do filho, o filho tem menos motivo para dirigir com mais cuidado. Se o trabalhador sabe que sempre vai surgir um programa novo de renegociação, o incentivo para negociar taxas melhores por conta própria ou evitar dívidas caras diminui.
Mais dois exemplos práticos para fixar o impacto
Pense também na Regina, manicure que atende em domicílio e tem um empréstimo de R$5 mil, pago em dia, com taxa de 6,5% ao mês, cerca de R$325 de juros mensais. Migrando para o Desenrola Adimplentes, com taxa de 1,99% ao mês, o valor cai para cerca de R$99,50 por mês. São mais de R$225 sobrando, o suficiente para comprar material de trabalho ou guardar para os meses de menor movimento.
Outro caso comum é o do pequeno empreendedor que vende produtos por aplicativo e tem um empréstimo pessoal de R$10 mil, também em dia, com taxa de 6% ao mês, cerca de R$600 de juros mensais. Trocando pelo Desenrola Adimplentes, esse valor cai para cerca de R$199 por mês. Em um ano, a diferença passa de R$4.800, dinheiro que pode voltar para o negócio, em estoque, reforma ou novo equipamento.
Do lado do banco público, cada contrato desses representa menos ganho com juros do que teria numa linha comum, exatamente como no caso do Marcos, da Regina e do empreendedor. Multiplicando esse efeito pelas pessoas que o governo espera atender, entre 200 mil e 500 mil beneficiários segundo as estimativas oficiais, fica mais fácil entender por que instituições privadas preferem não assumir esse risco sozinhas, deixando o peso da conta majoritariamente com Caixa e Banco do Brasil.
Bora todo mundo pra Caixa e pro BB?
Se você é autônomo ou MEI e tem um empréstimo pessoal não consignado, essa conversa não é sobre política pública, é sobre o seu bolso. São milhões de pessoas nessa situação no Brasil, e a matéria toda até aqui falou dos bancos que não querem entrar. Mas quem precisa se mexer não é o banco, é você.
Reforçando os exemplos: o Marcos economiza cerca de R$400 por mês trocando de banco. A Regina, manicure que atende em domicílio, tem um empréstimo de R$5 mil a 6,5% ao mês, cerca de R$325 de juros. Migrando, cai para R$99,50, mais de R$225 sobrando todo mês. Já o pequeno empreendedor que vende por aplicativo, com R$10 mil emprestados a 6% ao mês, paga cerca de R$600 de juros e passaria a pagar R$199. Em um ano, isso é mais de R$4.800 de diferença, dinheiro que fica com quem trabalhou por ele, não com o banco.
E tem um detalhe que pouca gente sabe: mesmo quem está no rotativo do cartão de crédito, aquele juro que passa dos 400% ao ano, pode primeiro negociar com o próprio banco a migração dessa dívida para uma modalidade de crédito pessoal não consignado, e só depois bater na porta da Caixa ou do BB para trocar de novo, agora pelas condições do Desenrola. É dívida cara virando dívida mais barata, duas vezes seguidas.
Então a pergunta não é se o Itaú, o Bradesco ou o Nubank vão aderir. A pergunta é: por que você ainda está pagando 6%, 7% ou os juros do rotativo, se existe uma fila de dois bancos públicos prontos para trocar isso por 1,99% ao mês? Pesquisa mostra que boa parte do crédito caro no Brasil sobrevive não porque não existe alternativa, mas porque ninguém vai atrás dela.
Conclusão: o que esperar do desenrola adimplente
A Febraban já sinalizou que a adesão dos bancos privados deve seguir limitada. Enquanto isso, Caixa e Banco do Brasil seguem como as únicas portas de entrada para quem quiser aderir ao programa.
Para o trabalhador informal que se enquadra nas regras, a recomendação é direta: pare de esperar os bancos privados decidirem entrar. Vá até uma agência da Caixa ou do Banco do Brasil, ou os canais digitais dessas instituições, e verifique se a sua dívida atual pode ser migrada para as condições do Desenrola Adimplentes. Compare o contrato atual com o novo antes de assinar, e depois conta pra gente quanto você economizou por mês.
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