Por Alexia Diniz

Tem um caso que eu não esqueço. Uma cliente veio pra consultoria porque a vida financeira da casa tinha virado um quebra-cabeça sem peça nenhuma encaixando. No meio da conversa, descobrimos o motivo: a esposa dela pegava dinheiro emprestado com agiota para apostar. Quando o crédito acabou, começaram a sumir os móveis da casa. Sofá, mesa, até eletrodoméstico foi embora, um de cada vez, para sustentar uma fé inabalável de que "a próxima aposta ia recuperar tudo".

Só que a próxima nunca vinha. E quando, por sorte ou milagre, o saldo finalmente aparecia positivo na plataforma, começava a parte mais irônica dessa história toda: tentar tirar o dinheiro. Nada. Conta bloqueada. Saque travado. Suporte que não responde. O dinheiro que existia na tela, digitando bonito ali, simplesmente não virava dinheiro de verdade na conta do banco.

Não consigo sacar o dinheiro da aposta

Segundo levantamento feito para a BBC News Brasil, os brasileiros abriram mais de 10 mil processos contra empresas de apostas online desde o fim de 2023, quando a Lei das Bets foi sancionada. Só em 2025, foram 5.488 novos processos, e o ano de 2026 já tinha mais de 4 mil só até maio. No ritmo que vai, deve bater recorde de novo.

E o motivo número um dessas ações judiciais não é "perdi e quero meu dinheiro de volta". É bem mais irônico do que isso: é gente que ganha e não consegue sacar.

Porque não consigo sacar o dinheiro das apostas?

A pesquisa identificou três motivos parecidos, que na prática significam a mesma coisa: o dinheiro fica preso.

  • Bloqueio direto de saque, presente em 429 processos;

  • Conta do apostador bloqueada, o que aparece em 636 casos, sendo o motivo isolado mais comum de todos;

  • Mudança de regra depois que o jogo já aconteceu, alegada em 629 processos, quando a empresa muda um critério que já estava valendo e, adivinha só, o resultado é sempre o mesmo: o valor não sai.

Um especialista em inteligência jurídica resume bem a situação: o resultado dessas três reclamações é praticamente idêntico: o dinheiro simplesmente não sai da plataforma.

O que fazer quando a plataforma bloqueia o saque?

Tem um exemplo dessa mesma pesquisa que parece roteiro de filme. Um apostador acumulou R$1,15 milhão em jogos de cassino. Resultado: teve os saques bloqueados e a conta encerrada pela própria plataforma, que alegou "falha sistêmica no jogo" para não pagar.

Ou seja: a empresa errou (segundo ela mesma), e quem paga a conta é o cliente. O processo está tramitando desde maio de 2025, e o advogado que representa o apostador faz uma conta simples, mas devastadora: enquanto a Justiça não decide, esse dinheiro parado rende para quem não quer pagar. Quanto mais devagar andar o processo, melhor para o caixa da empresa.

Quando "jogo responsável" vira piada de mau gosto

As empresas de apostas adoram falar em "jogo responsável". Só que, segundo advogados que representam apostadores, o roteiro costuma ser bem diferente do discurso.

Um advogado que já acompanhou mais de 500 casos explica o padrão: quando o apostador para de depositar dinheiro por uma semana, o normal seria a empresa se preocupar. Só que, muitas vezes, o que acontece é o contrário. Chega bônus. Chega gerente VIP. Em casos mais avançados, chega até passagem aérea de presente para acompanhar jogo de futebol.

Ou seja: em vez de um alerta de "você está apostando demais, vamos com calma", o cliente recebe um empurrãozinho a mais para continuar. É como um vendedor de bebida oferecer mais um drinque justamente para quem já não está bem em pé.

Dá pra processar a casa de aposta?

A boa notícia, se é que dá para chamar assim, é que os tribunais estão cada vez mais atentos a esse tipo de comportamento. Uma decisão de segunda instância do Tribunal de Justiça de São Paulo determinou que uma casa de apostas devolvesse metade do prejuízo de um apostador diagnosticado com ludopatia (o nome médico para o vício em jogo), depois de ele ter perdido cerca de R$122 mil na plataforma.

Segundo a decisão, a empresa falhou em proteger o consumidor, que é considerado "hipervulnerável" justamente por causa da natureza dos jogos de azar. O motivo de não ter sido a devolução total é curioso: o apostador chegou a suspender a própria conta, mas pediu para reativar, e a empresa reativou na mesma hora, sem questionar nada. Para os desembargadores, devolver o valor inteiro transformaria o Judiciário em uma espécie de seguro contra perdas, o que também não seria justo.

Ainda assim, o número de processos com esse argumento está crescendo rápido: passou de 15 casos em 2024 para 243 só nos primeiros cinco meses de 2026.

Quem está processando as casas de aposta?

O Sudeste concentra quase metade dos processos, 48,2% do total, o que nem surpreende, já que é a região mais populosa. O Nordeste vem logo atrás, com 29,3%. Depois vêm Sul, Centro-Oeste e Norte, nessa ordem.

Entre as cidades campeãs em número de ações estão São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, o trio que costuma liderar quase tudo no país. Mas tem umas curiosidades no meio do caminho: Campina Grande, Olinda e Barueri aparecem entre as cidades com mais processos, mesmo sem serem capitais.

Um detalhe que também chama atenção: mais de mil processos estão na Justiça do Trabalho. Não é gente brigando pelo próprio saque, e sim funcionários e terceirizados das próprias operadoras de apostas cobrando verba rescisória, hora extra e outros direitos trabalhistas. Ou seja, até quem trabalha nas bets está processando as bets.

Como recuperar o dinheiro das apostas?

Voltando para o caso que abriu este texto: no fim das contas, a diferença entre "apostar por diversão" e "apostar por desespero" é gigantesca. E quando entra dívida com agiota e móveis de casa sendo vendidos para bancar apostas, já não é mais sobre sorte. É sobre um ciclo que se retroalimenta, e que, segundo o que mostram os processos na Justiça, muitas vezes é alimentado pelas próprias empresas com bônus, benefícios e facilidade de continuar apostando, exatamente quando a pessoa deveria estar sendo freada.

Se tem uma coisa que fica clara nesses números todos é que sacar dinheiro de uma casa de apostas nunca deveria ser tão mais difícil do que depositar..

Conclusão: prêmio na tela não é dinheiro no bolso

Antes de comemorar qualquer saldo positivo em casa de apostas, vale lembrar: o número que aparece no aplicativo só vira dinheiro de verdade quando cai na conta. E, como os processos na Justiça mostram, esse último passo tem sido, disparado, o maior gargalo dessa história toda.

Tem um caso que eu não esqueço. Uma cliente veio pra consultoria porque a vida financeira da casa tinha virado um quebra-cabeça sem peça nenhuma encaixando. No meio da conversa, descobrimos o motivo: a esposa dela pegava dinheiro emprestado com agiota para apostar. Quando o crédito acabou, começaram a sumir os móveis da casa. Sofá, mesa, até eletrodoméstico foi embora, um de cada vez, para sustentar uma fé inabalável de que "a próxima aposta ia recuperar tudo".

Só que a próxima nunca vinha. E quando, por sorte ou milagre, o saldo finalmente aparecia positivo na plataforma, começava a parte mais irônica dessa história toda: tentar tirar o dinheiro. Nada. Conta bloqueada. Saque travado. Suporte que não responde. O dinheiro que existia na tela, digitando bonito ali, simplesmente não virava dinheiro de verdade na conta do banco.

Se alguém próximo de você começar a pedir dinheiro emprestado, vender objetos de casa ou esconder gastos para continuar apostando, vale prestar atenção. Isso não é mais sobre sorte, é sobre um comportamento que precisa de ajuda, de conversa franca e, se for o caso, de acompanhamento profissional, tanto financeiro quanto de saúde.

No fim, o casal dessa história conseguiu reorganizar a vida financeira, mas levou meses, e boa parte dos móveis nunca voltou. Organizar as contas depois que o estrago já foi feito é possível, mas é sempre mais difícil, mais caro e mais demorado do que conseguir frear a tempo. Se o sofá já começou a sumir da sala, o momento de agir é agora.


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