Por Alexia Diniz
Um CDB que promete 135% do CDI parece bom demais para ser verdade. E, com frequência, é exatamente isso: um sinal de alerta que o investidor deveria levar mais a sério do que a própria taxa de retorno.
O caso do Banco Digimais, controlado pelo bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, é o exemplo mais recente, e mais didático, de porque rentabilidade muito acima da média do mercado costuma vir acompanhada de um risco que não aparece com destaque no aplicativo do banco ou da corretora.
O que aconteceu com o Digimais?
Mesmo depois de o banco ser alvo de uma operação da Polícia Federal, grandes plataformas de investimento (Itaú, XP, BTG e Ágora, corretora do Bradesco) continuaram oferecendo CDBs do Digimais, com retornos de até 135% do CDI. apéis que outros investidores compraram antes e agora estão revendendo antes do vencimento, geralmente porque querem antecipar a liquidez. Nubank e Inter, que também distribuem os títulos, não foram encontrados oferecendo o produto.
Os papéis seguem anunciados com o selo de garantia do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) para aportes de até R$ 250 mil, e a maioria das instituições classifica o título como de "risco alto". A exceção é o BTG, que o classifica como risco "moderado", sem comentar publicamente o critério usado para essa avaliação.
A operação da Polícia Federal contra o Digimais, batizada de Operação Miragem, foi deflagrada em 23 de junho de 2026. Mais de 50 policiais federais cumpriram nove mandados de busca e apreensão, com bloqueio de bens que pode chegar a R$670 milhões. Segundo a PF, com base em relatórios do próprio Banco Central, os investigados teriam manipulado demonstrativos contábeis e registros regulatórios para ocultar a real situação financeira da instituição, aparentar solvência perante os órgãos de controle e viabilizar operações supostamente irregulares. É a mesma lógica usada, guardadas as proporções, no colapso do Banco Master.
O banco Digimais acabou?
O caso não parou no dia da operação policial. Nas semanas seguintes, a investigação avançou e ampliou a pressão sobre o grupo empresarial de Edir Macedo, com a PF apurando indícios de manipulação de demonstrativos contábeis e de registros regulatórios que teriam ocultado a real situação financeira da instituição. Em nota, o Digimais afirmou colaborar com as investigações, e a Universal se manifestou dizendo que Edir Macedo não participa da gestão executiva, operacional, financeira ou contábil do banco.
Segundo reportagem do colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo, publicada em julho, Edir Macedo teria injetado cerca de R$1,5 bilhão no banco para tentar viabilizar sua venda, com os recursos destinados a reduzir os problemas no balanço do banco, que segue em negociações com potenciais compradores, entre eles BTG Pactual e Banco Safra. O BTG já havia formalizado interesse pela instituição em abril, e um dos atrativos do negócio seria um crédito tributário estimado em R$3 bilhões.
Esse pano de fundo é importante para quem ainda segura ou pensa em comprar CDBs do Digimais no mercado secundário, ou seja, desses que estão sendo revendidos por outros investidores. O banco está numa corrida contra o tempo, sob pressão do Banco Central, para encontrar um comprador antes de um cenário de intervenção ou liquidação.
O que é a venda de CDB no mercado secundário?
Vale entender o mecanismo, porque ele explica por que os CDBs do Digimais continuam disponíveis mesmo com o banco sob investigação. Quando um investidor compra um CDB diretamente do banco emissor, isso é uma oferta primária: o dinheiro vai para o caixa da instituição. Se esse investidor quiser se desfazer do papel antes do vencimento, ele recorre à corretora onde comprou o título, que atua como intermediária. Ela recompra o papel aplicando um deságio (uma taxa que garante a antecipação de liquidez ao vendedor) e depois revende esse mesmo CDB a outro investidor interessado, agora no mercado secundário.
É por isso que, mesmo após BTG, XP e Itaú interromperem suas ofertas primárias do Digimais (o BTG no dia da operação policial, a XP em novembro de 2025 e o Itaú em março de 2025, depois de sistemas internos de monitoramento identificarem alertas de risco), os títulos do bancocontinuaram, e em parte ainda continuam, aparecendo nas plataformas, agora oferecidos por outros clientes que preferem vender.
Isso tem uma consequência prática pouco discutida: o dinheiro que entra nessas negociações não vai para o caixa do Digimais, mas pode ampliar a exposição do FGC. Se a investidora original tinha mais de R$250 mil aplicados, ela revende o excesso para um novo comprador do papel no mercado secundário, que passa a ter direito à cobertura, ,dentro do limite de garantia por CPF, aumentando o potencial de acionamento do fundo em caso de socorro ao banco.
O paralelo com o Banco Master
O caso Digimais não é isolado. Em novembro de 2025, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master após identificar fraudes e a incapacidade da instituição de honrar seus compromissos: foi o maior acionamento da história do FGC, com R$40,6 bilhões em ressarcimentos a investidores. Os pagamentos começaram em janeiro de 2026 e, em poucos meses, já cobriam a quase totalidade do valor previsto. O Will Bank, do mesmo conglomerado, também foi liquidado.
O roteiro se repete, um banco de médio ou pequeno porte capta recursos oferecendo CDBs com juros muito acima da média (no caso do Master, próximos de 140% do CDI), usa o selo do FGC como argumento de venda para tranquilizar o investidor, e depois enfrenta suspeitas de manipulação contábil para mascarar uma situação financeira insustentável. Foi justamente para evitar a repetição desse padrão que o Conselho Monetário Nacional (CMN) endureceu, em 2026, as regras para bancos que usam a garantia do FGC como alavanca de captação.
O que o FGC garante, e o que ele não resolve
O FGC garante até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, por conglomerado financeiro, somando todos os produtos cobertos (CDB, RDB, LCI, LCA, poupança e depósitos à vista), com um teto adicional de R$ 1 milhão a cada quatro anos por investidor. A cobertura é automática: não é preciso contratar nada, mas é preciso saber que ela tem limite e regras.
Alguns pontos que costumam passar despercebidos:
-
O limite de R$250 mil é por instituição, não por produto. Quem tem R$200 mil em conta e R$200 mil em CDB no mesmo banco não recebe R$400 mil, e sim R$250 mil.
-
Bancos do mesmo conglomerado dividem o limite. Ter CDBs em duas marcas do mesmo grupo financeiro não é diversificação de risco para efeitos de FGC.
-
Como os juros compostos aumentam o saldo ao longo do tempo, uma aplicação inicial próxima ao teto pode ultrapassá-lo antes do vencimento, deixando parte do valor descoberto.
-
O FGC cobre o investidor em caso de liquidação, mas não acelera a venda de um banco em dificuldade. Enquanto o processo de venda ou saneamento se arrasta, o investidor convive com a insegurança de manter dinheiro aplicado numa instituição sob pressão, mesmo que, na prática, continue recebendo e resgatando normalmente enquanto não houver liquidação decretada.
Ou seja: o selo do FGC reduz o risco de perda total, mas não elimina o risco de um CDB ruim. Ele é uma rede de segurança, não uma razão para ignorar sinais de alerta.
Sinais de que um CDB "bom demais" pode ser um problema
Alguns pontos merecem atenção redobrada antes de qualquer aplicação em CDB de banco pequeno ou médio:
-
Taxa muito acima da média do setor. Se bancos grandes pagam entre 100% e 110% do CDI e um banco pequeno oferece 130%, 135% ou mais, essa diferença normalmente reflete um risco de crédito maior, não apenas "vontade de atrair clientes".
-
Classificação de risco divergente entre instituições. No caso do Digimais, quase todas as corretoras classificam o papel como "risco alto"; uma única o trata como "moderado". Divergência grande entre avaliações é, por si só, um alerta.
-
Interrupção silenciosa da oferta primária. Quando bancos parceiros deixam de vender um título no mercado primário sem grande alarde, mas ele continua circulando no secundário, vale perguntar porquê.
-
Notícias de investigação, mudança de controle ou tentativa de venda da instituição. Um banco correndo para encontrar comprador, negociando com o FGC ou sob pressão do Banco Central está, por definição, em uma situação delicada, mesmo que continue operando normalmente no dia a dia.
Como não passar do teto do FGC?
Um detalhe que costuma passar batido é que as taxas mais chamativas de CDBs de bancos pequenos quase sempre vêm amarradas a prazos longos, de 2 ou 3 anos. E é aí que mora um risco silencioso: não é só o valor aplicado no dia zero que precisa caber no teto do FGC, é o saldo projetado até o vencimento.
O cálculo é simples de fazer. Um CDB a 130% do CDI, com o CDI em torno de 14,25% ao ano, rende algo próximo de 18,5% ao ano. Parece pouco dramático olhado assim, mas em juros compostos isso significa um crescimento acumulado de mais de 40% em 2 anos. Quem aplica R$220 mil, valor que muita gente considera uma "margem segura" abaixo do teto de R$250 mil, termina o período com mais de R$300 mil. Ou seja: furou o limite, e o excedente fica sem garantia do FGC caso o banco quebre nesse meio-tempo.
O problema se agrava em prazos de 3 anos, onde o mesmo CDB pode fazer o saldo crescer quase 66%. Mesmo uma aplicação inicial de R$180 mil, bem mais conservadora, chega perto do teto ou o ultrapassa dependendo da taxa e do prazo exatos.
Na prática, isso muda a lógica de quem calcula "quanto posso aplicar sem estourar o limite". A conta não deve ser feita com o valor de hoje, e sim com uma projeção do saldo na data de vencimento, considerando a taxa contratada. Quanto maior a rentabilidade prometida e mais longo o prazo, menor deveria ser o valor inicial aplicado para manter uma folga real até o fim do contrato.
Conclusão: como se proteger investindo em CDB
Não é preciso abrir mão de renda fixa de bancos médios para ter retorno melhor que a média, mas isso exige diligência. Antes de aplicar (ou de manter uma aplicação) em um CDB com juros muito acima do mercado, vale:
-
Checar se o valor total aplicado naquela instituição, somado a rendimentos futuros, ficará dentro do limite de R$250 mil do FGC.
-
Diversificar entre conglomerados financeiros diferentes, não apenas entre "bancos" com nomes diferentes que pertencem ao mesmo grupo.
-
Para valores mais altos, considerar o Tesouro Selic como alternativa sem limite de garantia, mesmo que a rentabilidade nominal seja menor.
-
Acompanhar notícias sobre a instituição emissora, não só a cotação do CDB na plataforma.
-
Desconfiar de qualquer sinal de opacidade, inclusive o próprio silêncio de uma corretora quando perguntada sobre a classificação de risco de um papel, como ocorreu com a Ágora no caso Digimais.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
O caso Digimais ainda não tem desfecho definido. O banco negocia sua venda com BTG e Safra, recebeu aportes do controlador para tentar equilibrar o balanço e segue sob investigação da Polícia Federal. Para quem tem ou pensa em ter CDBs da instituição, a lição vale para qualquer rentabilidade "boa demais": rendimento alto é sempre o preço de algum risco, e a única forma de saber se vale a pena pagar esse preço é entender exatamente qual risco está sendo assumido, antes, e não depois, de a notícia estampar as manchetes.
