Por Isabel Gonçalves
Calma. Você ainda não recebe um SUV em 30 minutos na porta de casa.
Mas pesquisar, comparar modelos, conseguir crédito e conversar com um vendedor já pode acontecer sem sair do sofá. Se depender das empresas do setor, falta pouco para que praticamente toda a jornada de compra de um carro caiba na tela do celular.
Nos últimos meses, dois movimentos reforçaram essa tendência. O banco BV anunciou que seu marketplace NaPista alcançou 300 mil veículos anunciados. Pouco depois, a ConectCar anunciou a compra do iCarros, ampliando sua atuação para além dos serviços ligados ao uso do veículo e entrando também na etapa de compra e venda.
Os dois movimentos apontam para uma mesma direção: o mercado automotivo está deixando de disputar apenas a venda do carro. A nova corrida é pela jornada completa do consumidor, desde a primeira pesquisa até o financiamento e os serviços contratados depois da compra.
Mas será que uma decisão tão grande deveria acontecer de forma tão simples?
Comprar carro online é o futuro?
A aposta das empresas indica que sim. Depois da BYD firmar parceria com a OLX e com o Mercado Livre, novos serviços estão entrando na jogada.
O crescimento do NaPista mostra que os consumidores estão cada vez mais confortáveis em iniciar a compra de um veículo pela internet. Nos primeiros cinco meses de 2026, o marketplace já registrou um aumento de 51% no volume de potenciais compradores.
O resultado também apareceu nos financiamentos. No mesmo período, o volume de contratos de financiamento de veículos realizados pelo banco (por meio da plataforma) cresceu 45%. Apenas em maio, 6% dos financiamentos de veículos leves, pesados e motos do banco passou pelo NaPista. Pode parecer pouco, mas o número ganha outra dimensão quando se considera que a plataforma disputa espaço com marketplaces consolidados, que reúnem milhares de concessionárias, revendas e agências e ainda concentram boa parte da compra e do financiamento de veículos no Brasil.
A estratégia da plataforma acompanha uma mudança no comportamento do consumidor. Antes, a internet era principalmente um lugar para pesquisar preços. Agora, ela começa a concentrar etapas que antes aconteciam apenas presencialmente, como contato com vendedores e contratação de crédito.
O que torna a experiência mais simples é o uso de tecnologia baseada em linguagem natural. Na prática, o consumidor não precisa entender de versões, motores ou especificações técnicas para encontrar um veículo.
Em vez de procurar por termos específicos, ele pode descrever sua necessidade: um carro econômico para trabalhar, um modelo espaçoso para a família ou um veículo para viagens, por exemplo.
Por que as empresas estão vendendo carro online?
O mercado se tornou disputado, e quem prender mais o comprador no mesmo sistema, leva vantagem.
A Connect Car, por exemplo, empresa conhecida por soluções de pagamento automático em pedágios e estacionamentos, comprou o iCarros, plataforma de compra e venda de veículos que pertencia ao Itaú Unibanco.
Dessa forma, uma única empresa começa a participar de uma etapa anterior da relação com o consumidor. Antes, ela estava presente principalmente quando o motorista já tinha o carro e precisava pagar um pedágio ou estacionamento. Agora, também pode acompanhar o momento em que essa pessoa ainda está pesquisando qual veículo comprar.
Esse tipo de estratégia tem se tornado comum em diferentes setores, principalmente no varejo e entretenimento como Shopee Pay e o Tiktok Shop. As empresas querem criar ecossistemas digitais, reunindo várias soluções em um mesmo ambiente.
O que acontece quando uma plataforma conhece toda a sua jornada?
Quanto mais serviços uma plataforma reúne, mais ela conhece sobre você. Na prática, essas informações podem tornar a experiência de compra mais eficiente e deixar o “não” cada vez mais difícil.
Imagine que você pesquisou um carro para uma família de quatro pessoas, simulou um financiamento e demonstrou interesse em um SUV. Em vez de começar do zero na próxima visita, a plataforma pode sugerir modelos semelhantes, ofertas mais próximas da sua região, condições de financiamento compatíveis com o seu perfil e até serviços que façam sentido para aquela compra.
É justamente essa personalização que explica por que tantas empresas querem construir ecossistemas digitais. Quanto melhor elas entendem o comportamento do consumidor, mais conseguem oferecer soluções direcionadas e mais chances de você comprar.
No fim das contas, a lógica é uma troca. O consumidor compartilha informações e recebe uma experiência mais personalizada. O importante é que essa troca aconteça de forma transparente, para que ele saiba quais dados estão sendo utilizados, para qual finalidade e tenha autonomia para decidir como eles podem ser usados.
Vale a pena comprar carro online?
A digitalização trouxe uma série de vantagens aparentes para quem compra. Pesquisar ficou mais rápido. Comparar preços ficou mais simples. O consumidor chega à negociação com muito mais informação do que chegava alguns anos atrás.
Mas, existe uma diferença entre facilitar uma decisão e acelerar uma decisão. Comprar um carro não é como escolher um produto qualquer pela internet. Além do valor do veículo, entram na conta financiamento, seguro, IPVA, manutenção e desvalorização. É uma decisão que pode comprometer o orçamento por vários anos.
Por isso, mesmo que a tecnologia ajude o consumidor a pesquisar melhor, conhecer o mercado e encontrar opções mais adequadas ao seu perfil, algumas etapas ainda são importantes fora da tela.
Ver o carro pessoalmente, fazer um test drive e ter tempo para pensar antes de assinar um contrato continuam sendo atitudes que podem evitar arrependimentos.
A concessionária, nesse sentido, não é apenas um lugar onde o carro fica exposto. Ela também representa uma pausa no processo. Um momento em que a decisão deixa de ser apenas uma busca no celular e passa a envolver uma escolha mais consciente.
Como comprar carro online?
Para entender como funciona o processo, e se vale a pena, simulamos uma intenção de compra no NaPista.
NaPista, Marketplace do Banco BV avança nas vendas e nos financiamentos.
Logo na tela inicial, você pode escolher o modelo pela sua necessidade. Mas se você já tiver o modelo em mente, também dá para pesquisar. Depois de achar o carro, o próximo passo já é simular o financiamento e “saber se você tem crédito pré-aprovado”.
Financiamento de veículos do Banco BV
Depois de informar dados com seu e-mail, CPF e telefone, você é encaminhado direto para o contato com o vendedor pelo Whatsapp. Ao mesmo tempo, um chat com a própria plataforma é inciado com o resultado da simulação, te permitindo avançar com a proposta de financiamento.
Eu nunca comprei um carro, tenho um score de crédito até que bom, mas em nenhum momento informei a minha renda por exemplo, e mesmo assim, o financiamento do Renault Kwid que eu simulei foi aprovado.
O ponto é que o carro e o financiamento acabam sendo "vendidos" juntos, quase como se fossem um único produto. Isso pode deixar a compra um pouco confusa. Quando você já está empolgado com o carro que escolheu, é fácil encarar o financiamento como só mais uma etapa do processo, e não como uma decisão financeira que também merece pesquisa.
Nessa hora, muita gente deixa de comparar taxas, olhar o Custo Efetivo Total (CET) ou até consultar outros bancos para saber se existe uma condição melhor. No fim, você pode fazer um ótimo negócio na compra do carro, mas um péssimo negócio no financiamento.
Conclusão: a compra do futuro será digital, mas não precisa ser impulsiva
Os movimentos do NaPista e da ConectCar mostram que o mercado automotivo caminha para uma experiência cada vez mais integrada. Pesquisar modelos, simular financiamentos e contratar serviços pela internet tende a se tornar parte da rotina de quem pretende trocar de carro.
A boa notícia é que o consumidor nunca teve tantos recursos para tomar uma decisão bem informada. Antes mesmo de visitar uma concessionária, vale explorar marketplaces, comparar preços, usar simuladores de financiamento como o que temos aqui no Educando Seu Bolso, recorrer a ferramentas de inteligência artificial e participar de fóruns com relatos de outros proprietários. Quanto mais informação você reunir nessa etapa, maiores são as chances de fazer uma escolha compatível com o seu orçamento e com a sua necessidade.
Mas toda essa praticidade não elimina a importância da etapa presencial. Ver o veículo de perto, fazer um test drive, esclarecer dúvidas e até dormir uma noite antes de assinar o contrato continuam sendo atitudes que podem evitar arrependimentos.
No fim das contas, a tecnologia oferece ferramentas para tornar a compra mais inteligente. Cabe ao consumidor aproveitar esses recursos sem abrir mão da análise crítica que uma decisão desse tamanho ainda exige. Afinal, alguns aspectos da experiência digital evoluíram muito, mas existem coisas que, pelo menos por enquanto, nenhum clique consegue substituir.
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