Por Alexia Diniz

Você já quis trocar de celular, foi até a loja e o cartão de crédito simplesmente não passou? Pois é, essa frustração é mais comum do que parece. E foi exatamente por isso que a Vivo resolveu mexer nas regras do jogo. 

A operadora acaba de lançar um crediário próprio, aquele velho carnê do varejo que todo mundo conhece, mas agora direto na loja de telefonia. A pergunta que fica é: vale a pena ou é uma cilada? 

O que é o crediário da Vivo e como ele funciona?

O crediário não é novidade no varejo brasileiro. Casas Bahia e Magazine Luiza já fazem isso há décadas. O que mudou é que agora a Vivo entrou nesse jogo, permitindo parcelar smartphones, TVs, relógios, videogames e outros eletrônicos em até 21 vezes, tanto nas lojas físicas quanto pelo aplicativo, sem precisar de cartão de crédito.

O processo é bem prático: quando você chega à loja, o vendedor consulta seu CPF ou número de telefone e já sabe na hora qual é o seu limite pré-aprovado. Sem burocracia de banco, sem esperar dias por uma resposta. O crédito é analisado com base nos dados da própria Vivo, que tem uma base de mais de 100 milhões de clientes no Brasil.

Quem pode usar e quais produtos entram no crediário da Vivo?

O crediário está disponível para qualquer consumidor da Vivo, tanto nas lojas físicas da rede de 1,8 mil pontos espalhados pelo país, quanto pelo app. Os produtos elegíveis vão além do celular: TVs, relógios inteligentes, fones, som e videogames também entram na lista.

Segundo Rodrigo Gruner, vice-presidente de inovação da Vivo, hoje nada menos que 95% das vendas da operadora dependem do cartão de crédito. O crediário nasce para atender os outros 5%, e todos aqueles que já esgotaram o limite do cartão mas ainda querem (e precisam) comprar. E aqui estamos falando de um problema clássico que vemos na consultoria: quem acumula parcelas, acaba sempre com orçamento apertado.

Por que a Vivo está entrando no negócio de crédito? 

A Vivo já fatura R$ 3,9 bilhões por ano só com a venda de produtos, o que representa 13% do faturamento das Casas Bahia e 10% do da Magalu. É muito dinheiro, mas a operadora claramente quer mais. O crediário é a aposta para crescer de forma "significativa" em 2026, como disse o próprio Gruner, sem revelar metas exatas.

Tem outro lado da conta também: cada parcelamento gera juros para a Vivo, que viram receita financeira. Além disso, dados do Vivo Pay mostram que 40% dos consumidores que compram um smartphone na operadora também fecham um seguro do aparelho. Ou seja, quanto mais celulares vendidos, mais seguros, e mais receita.

Como Vivo consegue vender celular parcelado? 

Por trás do crediário da Vivo tem uma estrutura financeira com autorização do Banco Central, a QI Tech. Ela entrou com a tecnologia que permite analisar o cliente e liberar o crédito.

Sendo assim, a Vivo atua como correspondente bancário dessa empresa, que ajuda a organizar toda a “engrenagem” financeira em conjunto com a Vivo Pay, que é o braço financeiro da operadora. Em 2025, a Vivo Pay gerou uma receita de R$488 milhões, alta de 5,9% em relação a 2024. O crediário é mais um produto que engrossa esse caixa.

Vivo Pay: o banco que veio dentro da operadora

O crediário é só mais um produto do Vivo Pay, que já oferece empréstimo pessoal, antecipação de FGTS, consórcios, seguro de celular, seguro de vida e seguro viagem. Desde o lançamento em 2020, o Vivo Pay já concedeu R$1,1 bilhão em crédito no total.

O movimento da Vivo não é isolado. No Brasil, várias empresas que não eram bancos passaram a oferecer crédito nos últimos anos: Mercado Livre (Mercado Crédito), Magalu (MagaluPay), Americanas, Shopee.

Isso gera um ecossistema que te deixa cada vez mais dependente de uma única marca. Na Vivo, por exemplo se você atrasar o crediário, além de juros, multas e restrições no CPF, a empresa pode bloquear sua linha telefônica, impedindo ligações e internet móvel. 

Para quem o crediário da Vivo faz sentido?

O público alvo são as pessoas que não tem cartão de crédito ou com limite esgotado que precisam trocar de celular. Nesse cenário, ele aparece como uma alternativa para conseguir parcelar a compra sem depender do banco tradicional.

Por outro lado, esse tipo de solução também acende um alerta. Quem já está com o cartão no limite, na prática, já está bastante comprometido financeiramente, e assumir mais uma linha de crédito pode piorar ainda mais a situação. Em um momento em que praticamente todo o mercado está empurrando algum tipo de parcelamento ou “crédito fácil”, esse tipo de oferta precisa ser visto com cuidado, porque mais crédito nem sempre significa mais liberdade, e pode acabar virando justamente o contrário.

Os cuidados que você precisa ter antes de assinar

Aqui vem o ponto mais importante, no app da Vivo, as taxas começam com 4,91% ao mês, mas ainda é necessário passar pela análise de crédito, que influencia na taxa. Ou seja, a  taxa pode ser ainda maior. Por isso, antes de parcelar qualquer coisa em 21 vezes, você precisa perguntar diretamente qual é o CET, o Custo Efetivo Total da operação. Esse número inclui juros, tarifas e tudo mais que vai encarecer a sua compra.

Para ter ideia do risco, um celular de R$2.000 parcelado em 21 vezes com juros de 3% ao mês pode custar perto de R$3.200 no total. A parcela pode parecer pequena e caber no orçamento, mas o preço final pode ser bem salgado. Faça sempre a conta do valor total, não só da parcela mensal.

Crediário não é dívida invisível

Outra armadilha clássica do crediário é a sensação de que a parcela "pequena" não pesa. Mas 21 parcelas mensais são quase dois anos de compromisso financeiro. Se a sua renda mudar nesse período  (demissão, imprevisto, emergência) aquela parcela vira um problema, e ainda corre o risco do telefone ficar obsoleto antes do fim das parcelas.

A dica de ouro do ESB é: só parcele se a soma de todas as suas prestações mensais (cartão, crediário, financiamentos) não ultrapassar 30% da sua renda líquida. Acima disso, você está entrando em terreno perigoso, independentemente de quem está oferecendo o crédito.

Conclusão: vale a pena o crediário da vivo?

O crediário da Vivo aparece como mais uma linha de crédito “de fácil aprovação” e com juros pouco amigáveis. A diferença é que aqui tem um objetivo específico e muito tentador, o celular novo.

Mas é aqui que vale reduzir o ritmo. Em um cenário em que o crédito está cada vez mais fácil e espalhado por todo lado, nem toda oferta de parcelamento é automaticamente uma boa ideia. Se a pessoa já está no limite do cartão ou apertada no orçamento, assumir mais uma dívida pode só empurrar o problema para frente.

Também vale lembrar que trocar de celular com frequência tem um custo alto no longo prazo, e muitas vezes desnecessário. Quando nos deparamos com “facilidades”, elas quase sempre vêm acompanhadas de custos indiretos, como seguros, taxas e compromissos de longo prazo que passam despercebidos. No fim, nem tudo que parece mais simples é realmente melhor para o orçamento.

Por isso, antes de fechar qualquer compra, peça o CET, calcule o valor total da compra e compare com outras opções de mercado. Se o número final for muito maior do que o preço à vista, talvez valha mais juntar um pouco mais e pagar menos. Seu bolso agradece a paciência.

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Até porque se você já está enrolado no seu cartão de crédito, outra parcela para colocar dentro do seu orçamento pode não ser a escolha mais inteligente.

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