Por Isabel Gonçalves 

Com o crescimento acelerado das fintechs (financeiras tecnológicas) o acesso a serviços e ao crédito ficou mais fácil, o que incluiu muita gente que antes não fazia parte. E com os últimos casos de escândalos no mundo das finanças, vem uma questão incômoda: o que acontece quando essas empresas falham? E quem fica com o prejuízo?

O mais novo caso que se encaixa nesse cenário é o da Entrepay, empresa que atuava no setor de pagamentos de maquininhas de cartão. O Banco Central decretou a liquidação por problemas financeiros e descumprimento de normas. E esse caso chama atenção porque expõe mais uma vez que quando o sistema financeiro falha, quem pode sairno prejuízo é você. 

O que aconteceu com a Entrepay?

A Entrepay era uma empresa que ficava no meio do caminho entre quem paga e quem recebe. Ela processava pagamentos no cartão e depois repassava o dinheiro para os lojistas. E no dia 27 de março de 2026 o Bacen decretou a liquidação da empresa, junto com a Acqio e Octa, do mesmo grupo.  

Acontece que, nos meses que antecederam a liquidação, a empresa já vinha apresentando sinais de instabilidade. Um dos principais problemas relatados foi o atraso nos repasses de vendas realizadas por meio de maquininhas. Ou seja, o dinheiro demorava (ou simplesmente não chegava) para quem vendeu.

As reclamações contra a Entrepay também começaram a aparecer em plataformas como o Reclame Aqui, com queixas de lojistas que não receberam pelas vendas. Além disso, o Banco do Nordeste chegou a rescindir contrato com a empresa após identificar falhas no repasse dos pagamentos. 

Por que o Banco Central fechou a Entrepay?

O Banco Central fechou a Entrepay porque identificou que a empresa não conseguia cumprir com suas obrigações de pagamento. 

No caso da Entrepay, o Banco Central apontou três problemas principais:

  • piora na situação financeira

  • falhas no funcionamento da empresa

  • risco de não pagamento a clientes e parceiros

Com isso, o Banco Central assume o controle do processo para organizar o pagamento de dívidas e encerrar as atividades da empresa.

A Entrepay é do Banco Master?

Não há nada confirmado, mas a Polícia Federal está investigando possíveis conexões entre a empresa e o banqueiro Daniel Vorcaro. Há suspeitas de que ele seja o “dono oculto” da Entrepay. A investigação faz parte da Operação Compliance Zero, que envolve suspeitas de fraudes financeiras ligadas ao Banco Master. 


Vou receber os valores da Entrepay?

Um ponto importante é que instituições como a Entrepay não têm cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Isso acontece porque ela não operava como um banco tradicional que captava depósitos, era apenas uma intermediadora. 

Na prática, isso significa que não existe uma garantia automática de devolução do dinheiro. 

Consequências do encerramento da Entrepay

Quando uma empresa desse tipo falha, o efeito não fica restrito aos bancos e fintechs, ele vai diretamente para o bolso de quem depende desse dinheiro no dia a dia.

Então, nesse caso:

  • lojistas ficaram sem receber vendas já feitas

  • pequenos negócios ficam com pouco caixa e quem depende do que vende hoje para conseguir pagar as contas amanhã é quem mais sofre

  • operações do dia a dia foram afetadas

Imagine que você é um lojista e seu cliente de longa data pagou uma compra grande na sua loja com cartão de crédito de um bancão tradicional. Como um bom pagador, ele quitou a fatura no banco dele, que prontamente repassou o pagamento. Só que antes do dinheiro chegar em você, lojista, tinha uma Entrepay no meio do caminho, e ela resolveu usar o seu dinheiro para pagar outras despesas.  

É um impacto que pode até parecer pequeno se pensarmos em todos os casos recentes de liquidação de bancos, mas a gente sabe que significa muito para quem está na ponta.

E quem paga a conta?

O caso da Entrepay mostra que o sistema financeiro funciona como uma rede, quando uma parte falha, o impacto se espalha. E quem está mais desprotegido é quem mais precisa. 

Por isso, entender com quem você está operando, e quais são os riscos, faz toda diferença.

Mas não é a primeira vez que isso acontece, com a liquidação do Will Bank, uma briga milionária entre maquininhas e bandeira de cartão está acontecendo e os lojistas continuam sem receber. 

Como saber se um banco é confiável?

Na teoria, toda instituição financeira parece segura. Na prática, depois dos escândalos recentes, é normal e necessário a gente desconfiar. Mas há alguns sinais que ajudam a verificar a credibilidade de uma fintech. 

1. Veja se a empresa é autorizada pelo Banco Central e qual é o tipo de autorização.
Não basta existir no site do Banco Central. Entenda como ela opera:

  • É banco mesmo?

  • É uma instituição de pagamento (como a Entrepay)?

  • Pode emprestar dinheiro ou só intermediar transações?

Isso muda completamente o nível de risco. Você entra em bcb.gov.br/meubc/encontreinstituicao e digita o nome da empresa que você quer achar. 


2. Confira se existe proteção do FGC e em quais produtos

O Fundo Garantidor de Créditos cobre alguns investimentos (como CDB e poupança), mas não tudo. Por exemplo, saldo de maquininha, conta de pagamento e carteiras digitais geralmente não entram. 

3. Pesquise reclamações, mas com foco certo
Não adianta olhar só a nota geral. O que importa é o tipo de problema:

  • atraso de pagamento

  • bloqueio de conta

  • dificuldade para sacar dinheiro

Se esse tipo de reclamação aparece com frequência, é um alerta vermelho.

Quer uma dica? Não dependa de uma única instituição para receber ou guardar dinheiro. Principalmente se você é lojista ou autônomo, essa pode ser a diferença entre um susto e um prejuízo sério. 

Vale lembrar também que se a empresa de maquininha fizer parte de um conglomerado bancário tradicional a chance dela quebrar é menor, pois há risco de reputação e o banco não pode deixá-la quebrar e levar os outros negócios junto. 

No fim, não existe risco zero, mas dá para tomar decisões mais seguras com um pouco de atenção.

Conclusão: o que podemos aprender com o caso da Entrepay?

A liquidação da Entrepay é incorretamente comparada aos outros casos de bancos que faliram. O caso serve como um exemplo real de como falhas em Instituições de Pagamento na maioria das vezes vão impactar diretamente quem está na ponta.

E isso é real. Tem lojista que vendeu e ainda está sem receber, empresa que ficou sem caixa e operação travada do dia para a noite.

O ponto principal aqui é entender o tipo de serviço que você está usando. A Entrepay não era um banco tradicional, não tinha proteção do FGC e atuava como intermediária. Isso, na prática, pode sim significar mais risco. 

Para quem depende de maquininha ou serviços financeiros no dia a dia, não dá para olhar só taxa e facilidade. Entender como a empresa funciona, quais garantias existem e, principalmente, não concentrar tudo em um único lugar pode ser o que evita um problema bem maior lá na frente.


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