Por Isabel Gonçalves
Eu tenho um amigo de faculdade que trabalha em uma das maiores empresas do país. A trajetória dele é invejável, começou como estagiário, foi efetivado e poucos meses depois de formado já era coordenador. Seguiu direitinho os degraus da chamada “escada corporativa”. Eu, por outro lado, sou MEI e tenho dois empregos como PJ.
Outro dia ele me disse que apesar de gostar muito do trabalho e do crescimento rápido, ele sentia que o CLT estava impedindo ele de viver a vida de uma forma mais leve. Ele queria procurar algo diferente.
A minha resposta foi exatamente essa: “Enquanto pessoa que não está na luta corporativa, é PJ e tem a rotina livre e flexível eu digo que o outro lado também não é muito melhor.” Falei que eu queria ter a estabilidade, a segurança, o salário e os benefícios que ele recebia.
E aí a gente ficou na dúvida: será que não existe um meio termo? A geração Z já chegou com tudo no mercado de trabalho se perguntando se é melhor ter liberdade, renda extra ou apostar na segurança da CLT e enfrentar o desafio de crescer nas grandes empresas.
O que a Geração Z quer da carreira hoje?
Você já deve ter percebido que se perguntar para alguém da Geração Z qual é o objetivo profissional dela, a resposta provavelmente não vai ser “virar gerente” ou “chegar na diretoria”. Uma pesquisa do Glassdoor mostra que 68% dos profissionais da Geração Z não aceitariam cargos de gestão sem um aumento significativo de salário ou de status. Não porque falta ambição, mas porque as prioridades mudaram.
Segundo dados da mesma pesquisa, 57% dos profissionais da Geração Z têm trabalhos paralelos. Isso porque a gente percebeu que depender de um único salário pode ser o maior risco financeiro que podemos tomar. Crescemos vendo um roteiro que prometia estabilidade em troca de dedicação. O caminho era claro e definido: estudar, entrar em uma boa empresa, subir aos poucos e, lá na frente, colher os frutos.
Só que eu e milhões de jovens sentimos na pele que esse caminho começou a falhar. Notícias de demissões em massa, salários que não acompanham o custo de vida e histórias de burnout viraram parte do cenário. O importante agora é ter controle. Controle do tempo, da renda e das escolhas. A flexibilidade deixou de ser “benefício” e virou critério básico.
O que mudou nas expectativas de trabalho dos jovens?
Mudou quase tudo e rápido. Hoje, o modelo de carteira assinada e estabilidade é chamativo, confesso. Mas apesar de ainda funcionar para alguns, ele perdeu força porque confiar demais no futuro parece ser irreal. Para quem passou por uma pandemia repentina logo no início da vida adulta, as certezas começaram a cair por terra.
Em outras palavras, a estabilidade vem de um novo lugar. Antes, a estabilidade vinha de um emprego fixo. Agora, cada vez mais jovens enxergam estabilidade como ter mais de uma fonte de renda.
Outra mudança importante é o peso da qualidade de vida. Trabalhar muitas horas, levar pressão constante e viver cansado deixou de ser visto como “fase necessária”. A pergunta deixou de ser “quanto eu posso ganhar?” e passou a ser “quanto isso custa da minha vida?”. E, para muita gente, a conta não fecha.
Além disso, hoje, crescer pode significar:
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ganhar mais sem mudar de cargo
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trabalhar menos e manter a renda
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criar projetos paralelos que tragam autonomia
Ou seja, o crescimento deixou de ser vertical e virou mais flexível e personalizado.
O que esperar da carreira profissional?
Aí é que fica difícil. Pra quem acabou de chegar, definir o caminho perfeito parece ser impossível. A eterna dúvida entre fazer o que gosta e o que dá dinheiro se junta ao impasse de optar por empresas grandes com possibilidade de crescimento e algo que te dê mais liberdade para mudar se for preciso.
É importante lembrar também que nenhum trabalho vai entregar tudo ao mesmo tempo. Salário alto, propósito, paixão, estabilidade, tempo livre e zero estresse. Em algum momento, vai ser preciso escolher prioridades.
Quer uma dica? Em primeiro lugar, se estabilizar financeiramente é importante. Saber o quanto você precisa para viver já te dá um bom norte. Se esse dinheiro vai vir de vários empregos, renda extra e bicos ou de um só com carteira assinada, presencial e batendo ponto aí depende do que funciona pra você. A boa notícia é que você tem sim liberdade para fazer esses ajustes ao longo do caminho.
Como a flexibilidade no trabalho impacta a vida financeira?
Um emprego CLT garante direitos trabalhistas como férias remuneradas 13° salário e benefícios como vale alimentação e refeição, além do INSS, uma garantia de renda lá na frente. Optar pela “liberdade” significa abrir mão dessas coisas.
Ter alguma fonte de renda extra também pode ser positivo, mais entradas de dinheiro podem significar mais proteção contra imprevistos. Mas também traz um desafio: renda variável, instabilidade e dificuldade maior de planejamento. Nem sempre dá pra contar com o mesmo valor todo mês, e isso exige mais organização (coisa que muita gente ainda está aprendendo no processo).
A busca por renda extra nem sempre vem acompanhada de educação financeira. Ou seja, ganhar mais não garante melhorar de vida. Sem controle, o dinheiro simplesmente vai embora. No fim, a estratégia de diversificar renda pode ser um caminho inteligente, mas só funciona de verdade quando vem junto com planejamento, reserva de emergência e alguma visão de longo prazo.
Como construir segurança financeira?
Se depender de um único salário ficou mais arriscado, a segurança financeira hoje precisa passar por um caminho que já é conhecido há tempos: organizar o que entra e sai.
1. Entenda quanto dinheiro realmente entra
Não é só o salário fixo. Some tudo: freela, renda extra, bicos. A ideia é ter uma visão real do que você ganha, inclusive sabendo que esse valor pode variar.
2. Organize seus gastos (de verdade)
Aqui não tem glamour, é olhar para onde o dinheiro está indo. Separar o essencial do que é ajustável já ajuda muito. Quem tem renda variável precisa ainda mais disso, porque não dá pra contar que “mês que vem eu compenso”.
3. Monte uma reserva de emergência
Esse é o colchão que segura a instabilidade. O objetivo é guardar o equivalente a alguns meses de despesas em um lugar seguro e fácil de acessar. Porque sim, vai ter mês ruim e isso não pode virar dívida.
4. Aprenda a lidar com crédito
Hoje em dia, o crédito está mais fácil que nunca. Cartão de crédito pode ajudar, mas também pode virar um problema rápido. A regra aqui é simples: se não tem certeza que consegue pagar, melhor não contar com esse dinheiro.
5. Comece a transformar renda em patrimônio
Ganhar mais é importante, mas guardar e investir parte disso é o que constrói segurança de verdade. Pode ser pouco no começo, o importante é criar o hábito.
No fim, a estabilidade que a gente tanto procura não significa estar em um emprego fixo, mas sim estar preparado para as instabilidades que vão vir. E isso se constrói aos poucos, decisão por decisão.
Conclusão: o que é uma carreira profissional bem sucedida?
Eu e meu amigo ainda não achamos o meio termo, ele continua se dando bem lá na empresa e abrindo mão de uma “vida mais leve” e eu continuo sobrevivendo sem ter que bater ponto. Como recém formados posso dizer que estamos sim num bom caminho para ter sucesso na carreira. A gente sabe que onde cada um chega não vai definir se tivemos uma carreira bem-sucedida ou não, mas sim como vivemos enquanto construímos esse caminho.
Para gente, ter sucesso é conseguir pagar as contas sem viver no limite, ter alguma previsibilidade independente de onde ela venha e ter liberdade para fazer escolhas, inclusive a de mudar de rota quando algo deixa de fazer sentido. No fim, sabemos que nosso objetivo é o mesmo: ter uma carreira que sustenta a vida, respeita os limites e dá margem para o futuro.
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