Por Alexia Diniz
Se você tem a impressão de que a Geração Z quer ficar rica até sexta-feira, você está certo. Essa pressa tem menos a ver com preguiça e mais com uma sensação cada vez mais comum de que o caminho “certinho” ficou longo demais, caro demais e, em muitos casos, meio inútil.
Essa geração cresceu vendo crise, inflação, aluguel alto, dificuldade para comprar imóvel e um mercado de trabalho menos estável do que o dos pais. Nos Estados Unidos, a Bloomberg Línea resumiu esse clima com um termo forte: “niilismo financeiro”, aquela sensação de que, se o jogo parece injusto, talvez só reste tentar um lance arriscado para ver se alguma coisa acontece.
O que é niilismo financeiro?
Niilismo financeiro é, em bom português, perder a fé no caminho tradicional de construir patrimônio aos poucos. Em vez de acreditar que poupar, investir no longo prazo e esperar pacientemente vão resolver a vida, muita gente passa a pensar: “desse jeito eu não chego a lugar nenhum mesmo”.
Esse sentimento aparece quando o jovem olha para o próprio salário, para o preço de um imóvel, para o custo de viver sozinho e percebea dificuldade de manter estabilidade. No Brasil, um estudo da MindMiners mostrou que 52% dos jovens entre 18 e 28 anos ainda moram com os pais, 53% relatam níveis elevados de ansiedade e, entre os que trabalham, a renda média mensal não passa de R$2.400. Ao mesmo tempo, 52% dizem que a principal meta para os próximos dez anos é justamente alcançar estabilidade financeira.
Por que a Geração Z investe mais cedo?
Aqui tem uma parte boa da história, e ela merece ser dita. A Geração Z não está simplesmente “largando mão” do dinheiro. Pelo contrário, ela se preocupa cedo sobre dinheiro. Um estudo do BTG Pactual apontou que 84% dos jovens dizem pensar constantemente na vida financeira.
Além disso, o acesso à informação ficou muito mais fácil. Os jovens nascidos entre 1997 e 2010 têm mais acesso à tecnologia, procuram liberdade financeira desde cedo e consomem conteúdo financeiro em formatos curtos, simples e digitais. Não por acaso, 63% da Geração Z usa aplicativos para investir, contra 15% que investem presencialmente em agências bancárias.
A Geração Z ainda investe na poupança?
Investe, mas muitas vezes por inércia. Para grande parte dessa geração, a conta poupança foi aberta ainda na infância pelos pais ou avós, mantendo um vínculo com o bancão tradicional, mas por costume familiar do que por escolha pessoal. Dados da ANBIMA mostram que, enquanto 25% da população geral usa a poupança, entre a Geração Z esse número cai para 16%.
Mas há um detalhe importante: o conceito de "guardar" mudou. Para o jovem, a disputa não é mais entre bancos, mas entre aplicativos. Muitos entendem como poupança qualquer lugar digital onde o dinheiro não fica parado sem render. É o caso das contas remuneradas dos bancos digitais: o dinheiro fica ali, disponível no saldo para usar no dia a dia, mas rendendo um pouquinho todo dia. Para essa geração, investimento e saldo disponível viraram quase a mesma coisa.
Por que a Geração Z topa mais risco?
Na teoria das finanças, o jovem sempre foi visto como o perfil ideal pra correr risco. E faz sentido: ele tem o ativo mais valioso de todos, que é o tempo. Se der errado aos 20, ainda tem muitos anos pela frente pra recuperar. É aquela ideia clássica de “posso errar agora porque ainda tenho tempo”.
Mas, na prática, a Geração Z não tá correndo risco só por estratégia. Tem um sentimento de urgência aí no meio. O risco virou quase uma reação ao fato de que o futuro parece cada vez mais caro e distante. Quando o jovem olha e pensa que trabalhar, guardar um pouquinho todo mês e esperar 30 anos talvez nem dê pra comprar uma casa, o “ficar rico rápido” deixa de parecer imprudência… e começa a parecer a única saída possível.
E isso aparece nos números. Uma pesquisa da Northwestern Mutual mostrou que quase um terço dos jovens entre 18 e 29 anos já investe, ou pretende investir, em apostas esportivas e criptomoedas. E o mais curioso: 8 em cada 10 acreditam que esses caminhos mais arriscados são a forma mais rápida de chegar nos objetivos.
Ou seja, não é que eles não saibam do risco. Eles sabem. Só que, pra muitos, o caminho “seguro” parece lento demais… ou pior, parece que nem leva a lugar nenhum.
Onde entram criptomoedas, ações meme e bets?
Entram justamente no espaço onde o investimento começa a se misturar com a lógica do atalho. A Fast Company Brasil resume isso bem ao dizer que a Geração Z, desiludida com os métodos tradicionais, muda mais para estratégias percebidas como recompensadoras, ainda que bem mais arriscadas, como criptomoedas, ações meme (empresas que passam a subir ou cair muito mais por hype da internet do que por fundamentos reais da empresa) e até apostas.
No Brasil, o Banco Central já chamou atenção para o fato de que parte da renda recente parece estar “vazando” para criptomoedas e jogos de apostas, em vez de reforçar poupança ou consumo tradicional. E a própria ANBIMA mostrou que 14% da população fez ao menos uma aposta online em 2025. Quando a fronteira entre investir, apostar e tentar “fazer o dinheiro girar” fica confusa, o risco deixa de ser exceção e vira hábito.
Redes sociais ajudam ou atrapalham os investimentos?
Os dois. A parte boa é que as redes democratizaram o acesso ao tema. Muita gente começou a aprender o básico sobre reserva, juros, Tesouro Direto e inflação em vídeos curtos. A parte ruim é que o algoritmo não premia a paciência. Ele premia emoção, promessa de ganho rápido e histórias absurdas de quem “transformou mil em cem mil”.
Então surge uma armadilha: o jovem realmente se interessa mais por finanças, mas aprende sobre dinheiro em um ambiente que vende urgência e ganhos fáceis o tempo inteiro. Não é à toa que educação financeira e ansiedade passaram a andar juntas. Você aprende mais cedo, mas também se compara mais cedo, se cobra mais cedo e sente mais cedo que está atrasado.
O problema é a Geração Z ou o cenário?
Culpar a geração é a saída preguiçosa. O mais honesto é admitir que ela está reagindo a um cenário ruim. Mesmo com a renda média tendo aumentado, o custo de vida cresceu em um ritmo parecido e, em alguns casos, até maior. Moradia ficou mais cara, a estabilidade no trabalho diminuiu e os ganhos fáceis acabam chamando atenção. E isso muda completamente a forma como ele toma decisões.
Se o caminho tradicional parece cada vez mais longo, ou até inalcançável, faz sentido que muitos busquem alternativas fora do roteiro clássico.
Ao mesmo tempo, reagir ao caos com risco excessivo continua sendo perigoso. Trocar a frustração da poupança pelo delírio de enriquecer rápido pode ser só uma forma mais cara de continuar angustiado. Não é porque o caminho antigo ficou ruim que qualquer caminho novo ficou bom.
Como a Geração Z pode investir sem cair na armadilha do atalho?
A primeira coisa é separar investimento de entretenimento. Se a pessoa quer colocar um pedaço pequeno de dinheiro em cripto, tudo bem. O problema começa quando aposta, trade, moeda meme e promessa de lucro rápido viram plano principal de vida financeira. Aí não é estratégia. É um desespero com uma interface bonita.
A segunda é lembrar que liquidez e simplicidade continuam valiosas. A própria Geração Z mostra isso quando prefere apps, produtos acessíveis e soluções digitais. O ponto não é voltar correndo para a poupança só por tradição, mas também não cair no papo de que investir bem precisa parecer adrenalina. Na maior parte do tempo, investir bem parece até meio sem graça mesmo.
Conclusão: a Geração Z quer segurança, mas o mercado vende emoção
Jovens sempre foram mais propensos ao risco. Isso não é novidade da Geração Z. É fase da vida: menos responsabilidades, mais tempo pra recuperar erros e mais disposição pra tentar. Mas o que mudou agora não é só o comportamento, é o ambiente.
Nunca foi tão fácil arriscar. Em poucos cliques você compra criptomoeda, entra em uma ação meme ou faz uma aposta. Tudo no mesmo celular onde você já está distraído.
Ao mesmo tempo, nunca foi tão difícil sentir que o caminho “tradicional” funciona. O custo de vida pressiona, os objetivos parecem mais distantes e o retorno da disciplina financeira parece lento demais. Mesmo que a atual taxa básica de juros (SELIC) esteja nas alturas, e consequentemente o retorno dos investimentos mais altos… ainda sim para quem está ansioso e impaciente, parece ser pouco.
É aí que a coisa desanda. Não porque o jovem “gosta de risco”, mas porque o risco virou uma mistura de fácil acesso + sensação de urgência + promessa de recompensa rápida. E aqui entra a parte mais importante: dá pra entender o comportamento… mas isso não significa que ele funciona.
Eu, por exemplo, não aposto. Não porque sou conservadora demais ou porque “não gosto de risco”, mas porque já vi de perto o padrão se repetir: começa como tentativa de acelerar a vida financeira e termina como uma fonte de ansiedade e perda de controle.
No fim, a pergunta não é se o jovem está errado em querer chegar mais rápido. A pergunta é: esse caminho realmente leva mais rápido… ou só parece que leva? Porque às vezes, a fantasia é só ansiedade fantasiada de estratégia.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
