Por Isabel Gonçalves
Na volta para casa à noite, Ana passou pela avenida e viu uma frase gigante projetada na lateral de um prédio: “3 em cada 4 brasileiros já tiveram insônia financeira”. A campanha era do Nubank. Ela parou por um segundo, leu de novo e pensou: “sou eu”. Nas últimas semanas, dormir tinha virado um desafio. Toda vez que deitava, a cabeça começava a fazer contas pensando na fatura do cartão, o aluguel chegando, uma parcela que esqueceu no meio do mês.
A propaganda chamou atenção justamente por isso. A tal da insônia financeira existe mesmo. Muita gente conhece bem essa sensação de ficar acordado pensando em boletos e dívidas. Mas reconhecer o problema é só o começo da conversa. Antes de acreditar que um banco pode resolver essa ansiedade oferecendo crédito, vale entender melhor o que realmente causa essa insônia financeira e por que um empréstimo não é a solução.
O que é insônia financeira?
A insônia financeira acontece quando as preocupações com dinheiro impedem a pessoa de relaxar ou dormir. O corpo está cansado, mas a mente continua fazendo contas.
Esse problema está cada vez mais comum. Pesquisas mostram que cerca de 75% dos brasileiros já perderam o sono por causa de dinheiro. E a preocupação com dinheiro acaba se alimentando dela mesma, menos sono, mais cansaço e decisões tomadas no impulso.
Como a insônia financeira virou argumento de marketing?
Dívidas, contas atrasadas e aperto no orçamento sempre existiram. O que mudou foi a forma como esses sentimentos passaram a ser usados na comunicação das empresas. Nos últimos anos, bancos e fintechs começaram a explorar emoções como ansiedade, insegurança e medo nas campanhas de marketing.
Primeiro aparece o problema, apresentado de forma dramática e emocionante para a pessoa se identificar. Depois, surge a solução que geralmente é um produto financeiro.
No caso da insônia financeira, a narrativa é que se o dinheiro está tirando seu sono, o banco pode ajudar. Só que tem um detalhe importante nessa história que muita gente parece esquecer: se a pessoa já está endividada, aceitar um novo empréstimo significa continuar endividada.
O problema é mais profundo do que falta de crédito
Quando o orçamento aperta, pegar um empréstimo pode até trazer uma sensação de alívio imediato. A pressão diminui por um tempo depois que a conta urgente é paga, mas o problema não desaparece, ele só muda de lugar.
Em vez de lidar com a dívida antiga, agora existe uma nova parcela mensal para pagar e com juros. Na prática, muitos casos de insônia financeira já estão ligados justamente ao excesso de crédito, seja nos parcelamentos de cartões, ou financiamentos e empréstimos.
E isso não é apenas teoria. Aqui no Educando Seu Bolso, na nossa consultoria financeira, observamos um padrão curioso: boa parte das pessoas que atendemos e estão preocupadas com as finanças, já tem dívidas no Nubank. E tem mais, 3 a cada 5 pessoas que entram em contato falam que estão sem dinheiro, não conseguem se organizar e precisam de um empréstimo para resolver o problema.
Por que um empréstimo não resolve a insônia financeira?
Os motivos são vários mas vamos destacar três:
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Dívida nova não resolve dívida antiga: em alguns casos, trocar uma dívida cara por outra mais barata faz sentido, mas essa estratégia só funciona quando vem acompanhada de mudanças no orçamento.
Por exemplo, substituir o rotativo do cartão por um empréstimo consignado CLT, que tem juros menores. Mas sem mudança comportamental, o empréstimo apenas muda o problema de lugar.
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Mais dinheiro agora significa menos dinheiro lá na frente: o crédito costuma trazer uma sensação de respiro, mas esse alívio tem prazo. Logo surgem as parcelas e elas passam a disputar espaço com todas as outras despesas do mês.
Se o orçamento já estava apertado antes, o empréstimo pode acabar criando uma nova fonte de ansiedade financeira.
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Não adianta trocar preocupação por parcelas: a insônia financeira normalmente tem como causas principais a renda insuficiente, gastos desorganizados e dívidas com juros altos. Nenhuma delas desaparece simplesmente porque um novo crédito entrou na conta.
Sem reorganizar o orçamento ou renegociar dívidas de forma estratégica, o empréstimo apenas troca um tipo de preocupação por outro.
Como dormir sem se preocupar com as dívidas?
A resposta vem de saber exatamente qual a sua situação financeira. Saber quanto entra, quanto sai e quais dívidas existem é o primeiro passo. Pode ser em planilha, aplicativo ou até no papel.
Depois de entender toda a situação, o próximo passo é priorizar dívidas com juros altos. Cartão de crédito e cheque especial costumam ter os juros mais caros. Reduzir essas dívidas já alivia rapidamente a pressão financeira.
Uma das coisas mais importantes na hora de aliviar o estresse financeiro é criar uma pequena reserva de emergência. Guardar dinheiro, mesmo que seja pouco no início, ajuda a lidar com imprevistos e reduz muito a sensação de que qualquer problema pode virar uma crise.
Conclusão: a meta é dormir tranquilo e sem dívidas.
A insônia financeira é um problema real. Muita gente vive com ansiedade causada por contas apertadas e dívidas. Dar nome a esse fenômeno ajuda sim a entender o que está acontecendo, mas isso não significa que a solução seja contratar mais crédito.
Nas campanhas, o problema aparece em destaque. Já a solução quase sempre envolve contratar algum empréstimo, por isso é importante ver tudo de maneira crítica.
Porque dormir melhor quando o assunto é dinheiro depende de algo bem menos emocionante. Às vezes significa fazer uma pequena “desintoxicação financeira” tipo abrir mão de alguns luxos por alguns meses, reduzir gastos que viraram rotina e usar esse respiro para organizar as contas.
Três meses de disciplina já podem ajudar a aliviar o orçamento, diminuir dívidas caras e começar a criar uma reserva mínima de segurança. No fim das contas, a meta não deveria ser apenas ter acesso a crédito. A meta é algo bem mais simples, conseguir dormir tranquilo porque as contas estão sob controle.
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