Por Alexia Diniz

Seguro de carro sempre foi caro no Brasil. Para muita gente, simplesmente não cabe no orçamento. Em alguns casos, a seguradora nem aceita o perfil do motorista ou o bairro onde ele mora. Esse cenário abriu espaço para a proteção veicular crescer.

Mensalidade menor, menos burocracia e  mais acesso para quem ficava de fora do mercado tradicional. Milhares de motoristas aderiram. O setor cresceu rápido, principalmente entre donos de carros mais antigos e moradores de áreas com maior índice de roubo.

O problema é que esse crescimento aconteceu por muito tempo sem regras claras. Não era seguro, mas também não era proibido. Funcionava numa espécie de zona cinzenta que gerava dúvida para o consumidor.

O que é proteção veicular?

Proteção veicular não é seguro. Ela funciona com base no mutualismo. Em vez de uma empresa assumir o risco e garantir a indenização com capital próprio, um grupo de associados divide os prejuízos.

Todos pagam mensalidade. Quando o veículo sofre roubo, furto ou colisão, o dinheiro sai de um fundo formado pelas contribuições do próprio grupo. Não existe seguradora com reserva técnica obrigatória garantindo o pagamento.

Essa diferença estrutural muda tudo. No seguro tradicional, há exigência de capital mínimo e provisões financeiras. Na proteção veicular, o pagamento depende da saúde financeira do fundo coletivo.

O que mudou com a Lei Complementar 213/2025?

Sai a bagunça total, entra um mínimo de regra

Durante muito tempo, a proteção veicular funcionou quase como um “clube do carro”. Um grupo de pessoas se juntava, cada uma pagava uma mensalidade e, se alguém tivesse problema com o carro, o dinheiro do grupo ajudava a pagar.

O problema é que não existia praticamente regra nenhuma para isso funcionar. Qualquer associação podia aparecer do nada, prometer cobertura barata e começar a cobrar mensalidade.

A Lei Complementar 213/2025 veio justamente para colocar um pouco de ordem nessa história. Agora essas associações precisam existir de verdade no papel, ter estrutura jurídica e seguir algumas regras básicas de organização e transparência.

Também passou a existir a possibilidade de supervisão pela Superintendência de Seguros Privados. Basicamente, ficou mais difícil abrir uma associação improvisada só com um grupo de WhatsApp e um CNPJ recém-criado.

Tem regra agora… mas não é fiscalização 24 horas

Isso não quer dizer que existe um fiscal acompanhando cada associação todos os dias. Na prática, os órgãos reguladores costumam agir quando aparecem sinais de problema.

Se começam a surgir muitas reclamações, inconsistências nas informações ou dificuldade de pagamento de indenizações, aí o regulador pode investigar.

Ou seja, a nova lei melhora o cenário porque cria regras e aumenta a transparência. Mas ainda vale lembrar um detalhe importante: organização não é a mesma coisa que garantia absoluta.

A diferença de preço da proteção veicular e seguro

Uma cotação recente de um Nivus Highline 2023 mostrou seguro tradicional a partir de aproximadamente R$590 por mês, algo próximo de R$7 mil por ano. Em associações, é comum encontrar proteção  a partir de R$159,90 por mês, ou seja você paga quase 3 vezes menos na proteção veicular.

Quando dois produtos prometem cobrir roubo, furto e colisão e um custa quase a metade do outro, a diferença não está apenas na margem de lucro. Está na estrutura de risco.

No seguro tradicional, a empresa precisa manter reservas obrigatórias para pagar indenizações mesmo em períodos de alta sinistralidade. Na proteção veicular, o pagamento depende do caixa formado pelas contribuições mensais. Se o número de sinistros aumentar muito, adivinha quem vai ficar no prejuizo?

Proteção veicular tem riscos?

Sim. Mesmo com regulamentação, a proteção veicular continua sendo mutualista. Se o fundo coletivo enfrentar desequilíbrio, pode haver aumento de rateio ou demora em pagamentos.

É semelhante ao que ocorre em outros sistemas coletivos, como o consórcio. Quando a inadimplência sobe ou os custos aumentam além do previsto, o grupo sente o impacto. No caso da proteção, isso pode significar carro parado esperando conserto ou indenização.

Isso não quer dizer que o modelo não funcione. Significa que ele funciona sob lógica diferente da do seguro tradicional. E essa diferença precisa ser considerada antes da contratação. Ou seja, não basta apenas comparar as cotações do seguro com a da proteção veicular.

Quando devo fazer a proteção veicular?

Para quem não consegue contratar seguro tradicional ou recebeu proposta com valor muito alto, a proteção veicular pode ser alternativa viável. Também pode ser opção para veículos mais antigos, cujo custo de seguro se torna desproporcional ao valor do carro.

Mas é essencial verificar se a associação está regularizada e ler com atenção o regulamento. Critérios de indenização, uso da Tabela Fipe, prazos e limites de cobertura precisam estar claros. Ainda assim, é preciso saber que estará correndo mais riscos, pois infelizmente, baseado no histórico, não são poucos os casos em que a APV simplesmente não cumpre regras de contrato quando o sapato aperta.

Preço baixo ajuda no orçamento, mas não pode ser o único critério de decisão.

Quando o seguro tradicional é mais indicado?

Para quem busca previsibilidade máxima, contrato formal e reserva técnica garantida, o seguro tradicional continua sendo mais robusto. Ele opera sob regras padronizadas, fiscalização estruturada e obrigação contratual clara.

Essa estrutura tem custo maior, mas oferece segurança jurídica mais definida. Para quem prefere reduzir ao máximo a incerteza, essa diferença pesa.

Conclusão: mudou, mas não virou seguro

A Lei Complementar 213/2025 representou avanço ao indicar a direção e tentar trazer organização para um setor que cresceu rápido demais. Hoje há regras mínimas e obrigação de formalização. Isso tende a melhorar o ambiente.

Mas a proteção veicular não se transformou em seguro tradicional de uma hora para outra, só por causa de uma lei. Continua sendo um modelo mutualista que depende da saúde financeira do grupo e da boa gestão da entidade.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

A escolha depende do perfil do motorista, do orçamento disponível e da tolerância ao risco. Só não é recomendável decidir apenas pelo valor da mensalidade. Entender o que está sendo contratado continua sendo a melhor proteção. Se estiver em dúvida, dê uma pesquisada no volume de reclamações das empresas do setor e verá que não estamos exagerando.

compartilhe