Por Alexia Diniz
Você trabalha o ano inteiro, cumpre horário, corre atrás, faz renda extra e, ainda assim, sente que o dinheiro nunca sobra? Talvez seja porque ele realmente não sobre.
No Brasil, uma parte relevante do esforço do trabalhador não vai para consumo, lazer ou investimento. Vai direto para os juros e não estamos exagerando.
Quanto do ano o brasileiro trabalha apenas para pagar juros?
As famílias brasileiras destinam, em média, quase 10% da renda apenas para pagamento de juros, sem contar o valor principal das dívidas.
Quando se soma juros e amortizações, cerca de 28% da renda familiar já está comprometida com dívidas, segundo levantamentos do Serasa.
Na prática, isso significa que o brasileiro trabalha quase um mês e meio por ano apenas para remunerar bancos, financeiras e emissores de crédito.
Não é para comprar a casa.
Não é para trocar de carro.
É só para pagar o custo do dinheiro.
Por que os juros pesam tanto no bolso do brasileiro?
O problema não é apenas o nível da taxa básica de juros, a Selic, que mesmo com projeções de queda segue alta no início de 2026. O principal peso está no tipo de crédito usado pelas famílias.
Cartão de crédito rotativo, parcelamento da fatura, cheque especial e crédito pessoal lideram o endividamento, justamente as modalidades mais caras do sistema. Enquanto o financiamento imobiliário compromete parte pequena da renda, o crédito caro responde pela maior parte do aperto financeiro.
O cartão de crédito é o vilão?
No Brasil, o cartão de crédito deixou de ser apenas um meio de pagamento. Para muitas famílias, ele virou uma extensão da renda, usado para cobrir despesas básicas quando o salário acaba antes do mês.
O problema começa quando a fatura não fecha e o rotativo entra em cena, com juros que seguem entre os mais altos do mundo. Nesse cenário, o consumidor trabalha, mas uma parte do esforço já nasce comprometida com juros futuros.
Quem sente mais o peso dos juros?
Apesar de afetar todas as classes, o impacto é desigual. Famílias de renda mais baixa comprometem uma fatia maior do orçamento com dívidas e juros, porque têm menos acesso a crédito barato.
Já quem ganha mais consegue negociar melhores condições, acessar linhas mais longas ou simplesmente evitar o crédito caro. Ou seja, os juros não apenas apertam o orçamento, eles reafirmam a desigualdade, para quem recebe menos o juros costuma ser mais caro.
Quanto ganha a maioria dos brasileiros?
Pergunta incômoda, mas necessária. Estudos de renda mostram que 90% dos brasileiros ganham até cerca de R$3.500 por mês, considerando todas as fontes de rendimento.
Apenas uma pequena parcela da população ultrapassa a faixa dos R$5 mil mensais.
Isso ajuda a explicar por que o crédito caro vira regra. Quando a renda é curta, qualquer imprevisto pode gerar inadimplência e esse risco empurra o consumidor para juros elevados.
Quem ganha R$5.000 é classe média?
No imaginário popular, sim. Na realidade financeira, nem sempre. Com custo de vida elevado, aluguel, transporte, alimentação e impostos, uma renda de R$5 mil frequentemente não comporta poupança consistente.
Basta uma dívida mal estruturada para transformar esse valor em um orçamento permanentemente pressionado por juros. Classe média no Brasil muitas vezes significa apenas “classe endividada com um pouco mais de limite”.
Quanto os 10% mais ricos ganham e por que isso importa?
Enquanto a maioria lida com juros altos, os 10% mais ricos concentram renda suficiente para acessar crédito em condições muito melhores.
Essa diferença cria dois sistemas financeiros paralelos. Um em que a galera usa o juros para construir patrimônio. Outro em que o dinheiro custa caro para quem depende dele para sobreviver. Ou seja, os dois lados de uma mesma moeda.
É assim que os juros deixam de ser apenas um instrumento econômico e viram um mecanismo de exclusão. Mas isso não é um destino fechado. A diferença não está só na renda, mas na posição em que a pessoa ocupa no jogo.
É aí que entra a responsabilidade individual. Enquanto o juro for algo que você só paga, ele te puxa para baixo. Quando começa a receber, mesmo que pouco, ele começa a trabalhar a seu favor.
O cenário dos juros em 2026 ajuda ou atrapalha?
As projeções para 2026 indicam inflação mais controlada e espaço gradual para redução da Selic ao longo do ano. Ainda assim, mesmo com cortes, o custo do crédito ao consumidor tende a demorar a cair.
Isso acontece porque os juros bancários não respondem apenas à Selic, mas também a risco, inadimplência e concentração do mercado. Ou seja, a melhora macroeconômica nem sempre chega rápido ao bolso.
Por que o brasileiro paga juros tão altos?
Além da taxa básica elevada por longos períodos, há fatores estruturais. Alta inadimplência, altas taxas bancárias e uso intenso de crédito caro criam um ciclo difícil de romper.
O consumidor paga juros altos porque o sistema precifica risco elevado. O risco permanece elevado porque o consumidor vive pressionado por juros altos. É um círculo nada virtuoso.
Trabalhar para pagar juros virou normal?
Talvez esse seja o ponto mais preocupante. Pagar juros deixou de ser exceção e virou parte do planejamento das famílias. Parcelar fatura, renegociar dívida, empurrar saldo para frente virou rotina, não emergência.
Quando isso acontece, o problema deixa de ser individual e passa a ser estrutural. A pessoa não está gastando demais, está pagando caro para consumir o básico.
Uma forma simples de enxergar isso é separar o juro do principal na hora de organizar o orçamento. Em vez de anotar “R$2.500 da parcela do carro”, separar em duas linhas: R$1.800 do carro e R$700 de juros do carro.
Quando o juro ganha nome próprio, ele deixa de ser invisível. E muita gente só percebe o tamanho do problema quando vê quanto do trabalho do mês está indo embora só para pagar tempo.
Dá para parar de pagar juros?
Não existe solução mágica, mas existem escolhas melhores e, principalmente, acompanhamento.
Na consultoria financeira pessoal do Educando Seu Bolso, atendi recentemente uma cliente que vivia no modo sobrevivência. Parte relevante da renda ia para juros, a fatura nunca fechava e a sensação era de estar sempre correndo atrás do prejuízo. Com planejamento, organização e decisões difíceis, como abrir mão de gastos e renegociar dívidas, ela saiu da bola de neve em 11 meses.
O processo exigiu disciplina e renúncias, mas o resultado foi concreto. Menos juros, mais controle e, no fim, alívio. É esse tipo de trabalho que o Educando Seu Bolso faz na consultoria: ajudar pessoas a retomarem o controle da própria vida financeira, sem fórmulas mágicas e sem discurso de culpa.
Conclusão: o custo invisível do endividamento
Trabalhar quase um mês e meio por ano apenas para pagar juros não aparece no contracheque. Mas aparece no cansaço, na ansiedade e na sensação constante de que o esforço nunca é suficiente.
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Enquanto isso, o sistema segue tratando juros como detalhe técnico, quando na prática eles definem quem consegue avançar e quem fica preso. No Brasil, mais do que quanto se ganha, importa quanto do seu trabalho vai embora sem deixar nada em troca.
