*Por Morgana Gonçalves

Durante décadas, a preocupação dos pais era com perigos físicos, sustento e obediência. Hoje, uma nova inquietação atravessa famílias, escolas, pesquisadores e governo: quanto tempo uma criança passa diante de um algoritmo? Qual o limite seguro de tela e internet?

As perguntas podem parecer exageradas, mas basta observarmos a preocupação global em relação às crianças. Recentemente a França aprovou um projeto de lei que proíbe o acesso de menores de 15 anos às redes sociais. A Austrália foi ainda mais rigorosa ao estabelecer a idade mínima de 16 anos para o uso dessas plataformas. Indonésia, Grécia, Noruega e Reino Unido também discutem ou implementam restrições semelhantes.

Temos que refletir o que está acontecendo com as nossas crianças

Primeiramente é importante dizer que a infância é o período de maior plasticidade cerebral, a extraordinária capacidade que o cérebro possui de criar novas conexões a partir das experiencias vividas. É nesse período que se formam as bases da aprendizagem, da atenção, da regulação emocional, da empatia e das relações sociais. Isto é, os primeiros anos de vida moldam não apenas o comportamento da criança, mas também sua saúde física e mental ao longo de toda a vida.

Cada brincadeira, cada conversa, cada livro e cada experiência vivida ajuda a construir esse cérebro em desenvolvimento. Mas há uma nova influência disputando espaço com a família e a escola: a chamada economia da atenção.

As grandes plataformas digitais foram desenvolvidas para conquistar algo extremamente valioso: o nosso tempo. Quando mais tempo permanecemos conectados, maior é a exposição à publicidade, maior é a coleta de dados e maior é o lucro gerado por esse modelo de negócio.

Os mecanismos são cuidadosamente planejados para manter o usuário conectado: com notificações, vídeos curtos, reprodução automática, recomendações personalizadas e recompensas constantes, como curtidas e compartilhamento. Para um adulto, resistir a esses estímulos já é difícil, para uma criança, cujo cérebro ainda está em formação, o desafio é muito maior.

Pesquisas em neurociência mostram que a exposição excessiva a esse ambiente hiperestimulante pode interferir na capacidade de concentração, aumentar sintomas de ansiedade, dificultar a tolerância às frustações e comprometer habilidades importantes para a aprendizagem.

A Organização Mundial da Saúde recomenda limites para o tempo de exposição às telas e reforça que o desenvolvimento infantil depende, sobretudo, de interações humanas, brincadeiras, atividade física e experiencias no mundo real.

Isso não significa demonizar a tecnologia

A tecnologia faz parte da vida contemporânea, amplia o acesso à informação e oferece inúmeras oportunidades de aprendizagem. O problema surge quando o ambiente digital passa a ocupar o espaço que deveria pertencer à infância.

É justamente por isso que o debate deixou de ser apenas tecnológico e passou a envolver a saúde pública, educação e direitos fundamentais.

No Brasil, houve um avanço com o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital), instituído pela Lei nº 15.211/2025 e regulamentado pelo Decreto nº 12.880/2026, que reforçou a proteção de crianças e adolescentes no ambiente virtual. A legislação estabeleceu mecanismo mais rigorosos de verificação de idade, ampliou a proteção de dados pessoais de menores e restringiu práticas de publicidade manipulativa e perfilamento comportamental direcionadas ao público infantojuvenil.

Essas medidas revelam uma mudança importante de mentalidade. Tendo em vista que durante muito tempo, discutimos o que as crianças viam na internet. Agora começamos a discutir como a internet influencia o desenvolvimento das crianças.

Outro fenômeno que merece destaque é o chamado sharenting, termo utilizado para descrever a exposição frequente da vida dos filhos nas redes sociais pelos próprios pais. Fotografias, vídeos, e momentos íntimos passam a compor uma identidade digital criada antes mesmo que a criança tenha idade suficiente para compreender o significado da palavra privacidade.

Não se trata de condenar os pais que compartilham lembranças da família. Todos gostamos de registrar momentos especiais.

A reflexão necessária é outra: será que estamos construindo uma memória afetiva ou um histórico digital permanente sobre alguém que ainda não pode decidir como deseja ser visto no futuro?

A constituição Federal e o estatuto da Criança e do Adolescente sempre afirmaram que crianças e adolescentes são sujeitos de direitos e merecem proteção integral. O ambiente digital não elimina esses direitos, ao contrário, exige que eles sejam reinterpretados diante de novos desafios.

Talvez por isso o mundo inteiro esteja discutindo limites. Não porque a tecnologia seja uma inimiga. Mas porque a infância é a base sobre a qual construímos toda a vida.

Precisamos ensinar nossas crianças a utilizar a tecnologia, e não permitir que a tecnologia molde silenciosamente a forma como elas aprendem, sentem e se relacionam com o mundo. É certo que os algoritmos podem influenciar comportamentos, mas nenhuma inteligência artificial substitui uma conversa à mesa, uma história contada antes de dormir, uma brincadeira ao ar livre ou a segurança do olhar de quem cuida.

Temos que ter em mente que cuidar da infância sempre foi preparar o futuro. Hoje, isso também, significa proteger o cérebro em desenvolvimento, preservar a privacidade, estabelecer limites saudáveis e lembrar que nenhuma curtida vale mais do que uma infância plenamente vivida.

Porque, no fim das contas, a pergunta mais importante talvez não seja quando uma criança poderá entrar em uma rede social.

A pergunta é: que adulto queremos formar?

 

*Morgana Gonçalves é advogada civilista.

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