Na semana passada, contei ao leitor a minha epopeia até a seção 181 da Escola Estadual Augusto de Lima: um voo turbulento de quase 20 horas, o anestesista que preferia a bicicleta ao avião em dia de tempestade. Votei, fui para casa, tomei um vinho e dormi. Acordei num país que, pela quarta vez, escolheu o mesmo homem — e, mais importante, escolheu a si mesmo.
Não cabe aqui a festa; a festa já foi. Cabe a crônica do dia seguinte. Na segunda-feira, enquanto Belo Horizonte recolhia os galhos da tempestade, o derrotado fazia as malas e fugia pela porta dos fundos. Embarcou para Miami antes que lhe cancelassem o passaporte, deixando para trás processos como quem sai do restaurante sem acertar a conta. Lá de longe, avisou que não havia fugido do Brasil. Avisou de Miami, o que ajuda a entender o conceito.
Depois veio a carta. Vieram três, cada versão corrigindo a anterior como quem tenta fechar uma mala que não fecha. No alto da primeira, o brasão de um país chamado "Estados Unidos do Brazil". Com Z. Esse país acabou em 1967; eu era criança e o Z já tinha partido dessa para melhor. O senador não escreveu de um lugar — escreveu de uma época.
Logo abaixo, assinava como o "verdadeiro presidente eleito do BraZil", enquanto o TSE proclamava outro nome e o próprio partido dele já reconhecia a vitória do oponente. Na versão seguinte, o cargo encolheu para "líder do Brasil", que não existe na Constituição, mas pelo menos não exige posse, nem salário.
E havia a prova da fraude: uma "impossibilidade matemática", porque Lula teve 10 milhões de votos a mais no segundo turno. Como epidemiologista, confesso que me comovi. É o erro mais clássico da minha profissão: olhar o numerador e esquecer o denominador. No segundo turno, caiu a abstenção, caíram os brancos e nulos, e os eleitores dos outros candidatos foram para algum lugar — não para Miami. 
Dez milhões a mais não é fraude; é gente que resolveu sair de casa, como Maria Helena Andrés, de 104 anos. Quando os erros ficaram grandes demais, os aliados acharam o culpado: a inteligência artificial. Culpar o computador é a versão moderna de culpar o residente.
Sou médico, e não se diagnostica ninguém pela televisão, muito menos pela carta. Não examinei o paciente — e ele, ao que consta, não pretende voltar para consulta. Mas me permitam a coincidência, que não é minha, é da Organização Mundial da Saúde. Na Classificação Internacional de Doenças(CID), o código F22 corresponde aos transtornos delirantes persistentes: delírios fixos, duradouros, sistematizados, que podem durar anos. 
O portador, diz o manual, mantém o funcionamento social normal, com o delírio confinado a um tema — perseguição, por exemplo, ou grandeza. Fora dele, conversa, viaja, escreve cartas. Três, se preciso. Vinte e dois foi o número do candidato na urna. O acaso, às vezes, é um psiquiatra competente.
Delírio, na clínica, não é mentira. O mentiroso sabe que mente; o delirante acredita. O que me preocupa não é o remetente da carta, mas a epidemiologia do delírio, que, como a sarna de que falei há duas semanas, se transmite pelo contato prolongado. Há quem, do lado de fora da porta fechada, ainda bata palmas para o Z.
Mas chega de patologia. Este é o dia da saúde — e o paciente aqui é outro. A população brasileira, aquela da fila, da chuva e das carteiras surradas, foi às urnas e disse não. Não ao desmonte da CLT, ao fim da aposentadoria, ao padrinho de fora que reabriu a porta ao sarampo. Preferiu o velho que tem calo ao novo que tem sombra. O sapato que conhece o chão ao tênis que pula o muro e foge para a casa do verdadeiro chefe.
Fui votar com o meu sapato italiano, o da crônica de semanas atrás. Cumpriu o prometido: pisou firme e voltou inteiro. Ao chefe da seção 181, meu ex-aluno anestesista, devo um recado: o senhor tinha razão. Em dia de tempestade, a bicicleta é mais segura que o avião. Tem gente que embarcou e não vai pousar tão cedo por aqui.
Hannah Arendt, que assistiu em Jerusalém ao julgamento de um burocrata nazista do extermínio, saiu de lá sem o monstro que esperava. Encontrou um homem comum, de frases feitas, que assinava papéis sem pensar no que assinava. Chamou aquilo de banalidade do mal: o mal que não ruge, que não precisa de gênio — basta a recusa de pensar. Conhecemos essa banalidade de perto. Ela, em cadeia nacional, receitou cloroquina com a serenidade de quem receita chá, demorou a comprar a vacina e riu de quem morria sem ar. Não era um monstro; era um despacho. O que me assusta é que mais de 60 milhões de brasileiros ainda assinam embaixo.

Desta vez, a maioria não assinou. O povo brasileiro, que em geral nunca leu Arendt e não precisava, fez o que ela pedia: parou e pensou. Optou pela vacina e não pela cloroquina. Pelo médico e não pelo despachante. Pelo país que se escreve com S — a letra que o brasão trocou por Z — e com L, a letra que o eleitor, pela quarta vez, escreveu na urna. Incrível coincidência: o derrotado errou o nome do país que pretendia governar, e o eleitor acertou a letra que dá sonoridade à palavra Brasil. 
Spinoza perguntaria por que os homens lutam pela própria servidão. Arendt responderia: por preguiça de pensar. No domingo, o país não teve preguiça e amanheceu de pé — dividido, é verdade, mas livre para decidir o próprio destino. Decidiu, e esta semana dormimos sem pesadelos. Mas de olhos abertos para janeiro de 2027 — e para 2030.
 
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