Hoje acordei com um sentimento estranho, desses que a gente não sabe se vieram do sonho ou do fígado, acariciado pelo vinho de ontem. Depois entendi: é aniversário do Marneu, meu irmão, que já não está entre nós. Opa! Será que não?!

A dúvida não é minha, é de um americano. Há uns dias assisti a um vídeo no YouTube do físico Richard Feynman, e desde então ando com uma pulga atrás da orelha — pulga, aliás, feita dos mesmos átomos que eu, o que foi um pulo para essa crônica, com a devida vênia pelo trocadilho. Feynman ganhou o Nobel de 1965 por reformular a mecânica quântica, tocava bongô em um bar de Los Angeles e desenhava moças nuas com a mesma seriedade com que calculava elétrons. Era, portanto, um homem confiável.

Pois ele dizia uma coisa simples e assustadora: os átomos do meu cérebro não são os mesmos do ano passado. Entram, dançam uma dança e saem. O que fica é a coreografia — a memória, o jeito de rir, o vício de pescar. Nós não somos matéria, somos um padrão que a matéria atravessa, como o redemoinho no rio, que está sempre ali e nunca é a mesma água. Feynman dizia isso com um sorriso de quem conta piada, e a plateia ria sem saber direito do que estava rindo. Eu também ri. Depois fui olhar minhas mãos, essas mãos que já foram outras mãos, e caí na real.

Ora, se é assim, o Marneu não sumiu. Deixou de ocupar aquela forma física específica, é verdade, aquela que discutia economia com caneta nas mãos. Mas o carbono, o cálcio e o ferro que o compunham não pediram demissão do universo. Estão por aí, passeando em flores, minhocas, pássaros e peixes. Principalmente peixes e frango com quiabo, se eu conheço o gosto do meu irmão.

E aqui a física me atropela. Como gosto de pescar e como os átomos não têm passaporte, é quase certo que algum pedacinho do Feynman — morto em 1988, cremado, devolvido ao ar — já entrou em mim por uma traíra assada. Não é religião, é aritmética.

A mesma aritmética diz que as moléculas de oxigênio que passaram pelos pulmões de Cleópatra, sopradas ao vento há mais de dois mil anos e bem misturadas pela atmosfera, muito provavelmente já visitaram os alvéolos do caro leitor. Se Cleópatra não lhe agrada, escolha outro: Cristo, Buda, Hitler, Brigitte Bardot. A escolha, infelizmente, não é nossa. Ou você respira o ar do sujeito mais amado e do mais odioso da história, ou morre. Simples assim. O pulmão é democrata.

Como médico, deveria achar isso repugnante — passei a vida ensinando as pessoas a não respirarem o ar dos outros. Como infectologista, sei que a ideia é ainda pior: se compartilhamos moléculas com os reis, compartilhamos também os vírus deles. A diferença é que hoje temos vacinas e por isso não viramos poeira cósmica aos 30 anos. Na minha função, o ar pode ser veículo de doença; na de Feynman, é veículo pelo qual o planeta nos une, não importa para qual time ou partido político você torça.

Vem então Einstein para complicar o que já estava resolvido. Quando morreu seu amigo Michele Besso, ele escreveu à família que, para os físicos, a distinção entre passado, presente e futuro não passa de uma teimosa ilusão. No universo da relatividade, o tempo não corre: está todo aí, estendido como uma toalha na mesa. O Marneu comendo um lombo com tutu e me ligando às quatro da manhã na Alemanha só pra gritar no meu ouvido "Sô bom nisso", nunca deixou de existir, está apenas em outra coordenada, onde não consigo atender o telefone. 

Einstein, aliás, morreu poucas semanas depois de escrever aquela carta, como quem vai conferir pessoalmente sua própria teoria. Feynman esperou mais 30 anos, mas foi pelo mesmo caminho e com a mesma curiosidade. Um explicou o tempo, o outro explicou a matéria, e os dois acabaram exatamente onde o meu irmão está: espalhados por esse mundão de Deus. A diferença é que os átomos deles saíram no jornal. Hoje, os dele também.

Junte as duas coisas — a matéria não se perde, o tempo não passa — e a eternidade fica menos assustadora e mais parecida como hoje, um domingo antes do 7 de setembro. Feynman não acreditava em outra vida. Achava melhor conviver com perguntas sem resposta do que com respostas que não admitem perguntas. Preferia o mistério sem os anjos. Mas, atenção, sem tristeza: a última frase dele no hospital foi que odiaria morrer duas vezes, porque é muito chato. Me lembrou o Chico Anísio, que dizia não ter medo de morrer, mas pena. Um homem que enfrenta a morte com bom humor merece que a gente leve suas equações e piadas a sério.

Só não me venham com a energia. O E=mc² diz que a energia do meu irmão se conserva, e o poeta de plantão já vê o Marneu virando luz. Calma. A energia dele virou, em grande parte, calor e luz de fogo-fátuo, amplificado pela "Canarinha" que ele adorava.  Não é romântico, mas é verdade.

O que me ficou foi isso: nesse momento, enquanto escrevo, respiro um pouco do Marneu, do Feyman e de Einstein. Eles estão diluídos, é certo, em quantidades que nenhum laboratório dosaria. Mas a homeopatia dos afetos funciona em diluições absurdas. Um átomo basta para explodir o mundo. E se um dia eu espirrar sem motivo, no meio de uma consulta, não vou culpar o vírus: vai ser ele, chegando sem avisar, como sempre chegou.

Se esses átomos compartilhados mexem com o nosso astral, não dá para saber. A ciência ainda não tem instrumento para medir a saudade, e o dia que tiver, eu me aposento. Mas que tem dia que amanheço parecendo que não sou eu — isso tem. Hoje, por exemplo. Acordei com uma vontade danada de ir pescar e discutir economia com caneta e papel nas mãos.

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Parabéns, meu irmão. Vou soprar a vela. Alguém, daqui a dois mil anos, vai respirar isso.

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