A polpa digital mudou de função. Além da digital tradicional que nos identifica, deixa rastros eletrônicos que revelam confidências e inconfidências.
Dizem que o homem moderno não está mais sozinho. Carrega no bolso um aparelho que o conecta ao mundo inteiro, às multidões, aos amigos de infância que mal se lembram dele e aos desconhecidos que compartilham fotografias de cães e gatos fazendo coisas extraordinárias. É a era da comunicação total, dizem os ufanistas. Nunca estivemos tão próximos uns dos outros. Pois eu digo: nunca estivemos tão magnificamente sós. Talvez porque, como já suspeitava Schopenhauer, a convivência não elimina a solidão — apenas a distrai por alguns instantes.
O celular é o grande paradoxo do nosso tempo. Prometeu-nos companhia e nos entregou solidão. Uma solidão que fica na polpa digital, colorida, que vibra e faz barulhinhos. Antes, quando um sujeito estava só, ele sabia que estava só. Doía, mas passava. Sentava-se numa cadeira, olhava pela janela e contemplava o vazio existencial com a dignidade de quem sabe que está vivo e, portanto, irremediavelmente sozinho.
Hoje não. Hoje a solidão vem camuflada. O sujeito está ali, sozinho no quarto, na cama, no sofá, no ônibus, mas não se sente só porque está rolando o dedo na telinha, vendo vidas alheias, curtindo, comentando, reagindo com emojis que expressam sentimentos que ele nem sabe se realmente sente. É uma solidão acompanhada, se é que isso faz algum sentido. E não faz. No fundo, é apenas mais uma tentativa de fugir do tédio — aquele vazio que surge quando a vontade não está ocupada com desejos imediatos.
Em Belo Horizonte, cidade dos botecos, onde ainda temos o hábito de sentar nos bares e conversar (embora cada vez menos), observo o fenômeno com a curiosidade de quem vê um acidente em câmera lenta. Grupos de amigos reunidos em torno de uma mesa, cada um com seu celular na mão, olhando para baixo, como se estivessem rezando para um deus tirânico que mora dentro do aparelho e na sua própria mão. De vez em quando alguém levanta a cabeça, solta uma risada, mostra a tela para o vizinho: "Olha isso aqui, que engraçado!" E todos olham, riem, e voltam para seus próprios mundos paralelos, para suas próprias solidões particulares.
O curioso é que ninguém admite. Pergunte a qualquer pessoa se ela se sente solitária e ela dirá que não, que tem centenas de amigos (no Facebook), milhares de seguidores (no Instagram), conexões profissionais (no LinkedIn), e está sempre em contato com todo mundo. Sempre. A toda hora. É o que ela diz.
Do que estamos fugindo? Alguns da PF, a maioria da solidão, claro. Mas também do silêncio, do tédio, da obrigação de estar presente em nossa própria vida. O celular nos oferece uma saída fácil, uma válvula de escape sempre à mão. Conversa chata? Celular. Momento constrangedor? Celular. Pensamento incômodo? Celular. É o novo cigarro, só que em vez de câncer nos dá ansiedade, depressão e a ilusão de que estamos vivendo intensamente quando, na verdade, estamos apenas assistindo à vida dos outros.
E aqui a coisa deixa de ser apenas filosófica para se tornar tragédia estatística. A Organização Mundial da Saúde declarou que temos um problema de saúde pública mundial nas mãos. Desde 2014, quando as redes sociais se expandiram e se tornaram onipresentes como o ar que respiramos (só que bem menos saudáveis), os índices de depressão e suicídio dispararam, especialmente entre os jovens. Coincidência? Seria ingenuidade pensar assim.
Como médico, vejo os efeitos dessa solidão conectada todos os dias. Jovens que não sabem mais conversar olhando nos olhos. Adultos que perderam a capacidade de concentração. Idosos que aprenderam a usar o WhatsApp e agora bombardeiam os filhos e amigos com mensagens, esperando respostas imediatas, como se o amor pudesse ser medido em tempo de resposta.
O celular nos roubou algo precioso: o direito ao ócio, à contemplação, ao devaneio. E o pior é que sabemos disso tudo. Não somos ingênuos. Sabemos que o celular está nos tornando mais solitários, mais ansiosos, mais distraídos. Sabemos que as redes sociais foram desenhadas para viciar, que cada curtida libera uma “dosezinha” de dopamina. Sabemos tudo isso e continuamos, dedo no scroll, olho na tela, alma no limbo.
Às vezes, penso que deveríamos criar um grupo de apoio: "Olá, meu nome é Fulano e sou viciado em celular." Mas aí me lembro que já existem grupos assim, e que provavelmente se reúnem por videochamada.
O que fazer, então? Jogar o celular pela janela e voltar para a Idade do telefone de discar? Claro que não. O celular é uma ferramenta maravilhosa, revolucionária, indispensável. O problema não é o aparelho, é o que fizemos dele.
Talvez a solução seja simples, embora difícil: aprender a estar só de verdade. Desligar o celular de vez em quando. Sentar numa cadeira e olhar pela janela. Deixar o tédio vir, a inquietação, o silêncio. Descobrir que a solidão não é tão terrível assim — e que, é justamente na solidão que o indivíduo pode se libertar da influência constante dos outros e se aproximar de si mesmo. Se isso é sacrifício demais para você, comece colocando-o no modo silencioso, sem vibrar. Só o utilize quando você precisar. Já é um bom começo.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
Porque no fim das contas, a solidão é inevitável.É a condição humana. Aceitá-la como companheira é condição básica para nossa sanidade mental.