Na noite de 15 de outubro, em uma área de testes da SpaceX em McGregor, no Texas, a Tesla apresentou a segunda geração do seu Roadster. Na demonstração, transmitida ao vivo, o carro subiu uma rampa curva, parou a 90º do chão, andou de cabeça para baixo, soltou-se da rampa, e como em um passe de mágica se virou e pousou sobre as rodas. Mas como tudo isso foi possível? Quais tecnologias sustentam tão impressionante apresentação?

Entre as inovações apresentadas, duas chamam especial atenção. A primeira é um conjunto de ventiladores que aspira o ar sob o assoalho e prende o carro ao chão. Essa tecnologia não é nova e foi aplicada ao automobilismo de pista nos anos 1970 e logo proibida. A Tesla afirma que a sucção gera força equivalente a duas gravidades e isso permite que o carro ande de cabeça para baixo, mas mais útil do que isso, que faça curvas em velocidades que nenhum carro de série alcança. A segunda tecnologia são os propulsores a frio. Trata-se de dez bocais distribuídos pelo carro que são alimentados por cerca de 250 kg de ar comprimido em altíssima pressão. Você pode pensar: onde se pode abastecer esse ar comprimido? E a resposta oficial é que o próprio veículo recarrega seus tanques, que são de fibra de carbono e espalhados por todo o carro.

Aqui uma divergência técnica tem surgido. A Tesla não informou como os tanques de ar comprimido são recarregados pelo veículo, e alguns analistas sugerem que o próprio sistema de sucção utilizado para gerar downforce seria responsável por essa tarefa.

Fisicamente, porém, essa hipótese parece pouco provável. A sucção sob o carro exige grande vazão de ar, mas não necessariamente grandes diferenças de pressão. Já o enchimento de reservatórios em altíssima pressão normalmente requer compressores dedicados, capazes de trabalhar com pressões muito superiores, embora movimentem menos ar por unidade de tempo.

O novo carro coloca concorrentes de peso no chinelo e faz recordes anteriores parecerem modestos, segundo os dados oficiais, o carro com os propulsores faz de 0 a 100 em 0,6 segundos. A ousadia de se colocar propulsores usados para orientar satélites, sem combustão, em carros urbanos é por si um convite aos curiosos, mas ver o carro “voando” e fazendo acrobacias típicas de avião por breves instantes impressiona até os mais descrentes. 

Não para por aí, o carro traz outras tecnologias menos visíveis, mas também muito interessantes, como o conjunto de direção por comando eletrônico, sem ligação mecânica entre volante e rodas. Embora não seja necessariamente uma novidade, uma vez que já é utilizada na Cybertruck, desde 2023, o sistema traz para as ruas uma tecnologia da aviação utilizada por todas as grandes empresas do ramo, o fly-by-wire. O funcionamento é relativamente simples, os comandos do manche, ou volante, são convertidos em sinais elétricos processados por computadores. Assim, ao invés do piloto/motorista mover diretamente rodas, profundores, ailerons e leme, o computador interpreta a intenção do piloto e calcula quais superfícies de controle devem ser movimentadas para produzir a resposta desejada da aeronave.

Apesar do atraso superior a seis anos em relação ao cronograma original, o lançamento do novo Roadster representa uma rara demonstração de ousadia tecnológica na indústria automobilística contemporânea. Mais do que apresentar números impressionantes, a Tesla parece determinada a questionar premissas consideradas imutáveis há décadas, aproximando o automóvel de conceitos tradicionalmente associados à aviação e à exploração espacial.


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